No topo do Pico da Formosa, em Monte Azul, no Norte de Minas Gerais, existe uma planta que não pode ser encontrada em nenhum outro lugar do planeta. Pequena, coberta por pelos de tamanhos variados e com uma flor de tom lilás intenso, ela permaneceu invisível para a ciência até uma expedição recente revelar sua existência. Batizada de Eriope barrinhae, a nova espécie acaba de se juntar a uma lista que já soma mais de 15 plantas inéditas descobertas na região desde 2023, consolidando o Norte mineiro como um dos territórios mais promissores do Brasil para descobertas botânicas.
A descoberta é fruto do Plano de Ação Territorial para Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção do Espinhaço Mineiro, o PAT Espinhaço Mineiro, coordenado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) entre 2020 e 2025 com apoio do Projeto Pró-Espécies, iniciativa federal do Ministério do Meio Ambiente. O trabalho de campo aconteceu no entorno do Parque Estadual Caminhos dos Gerais, unidade de conservação que vem se firmando como um laboratório a céu aberto para a botânica brasileira.
Uma flor com nome de gratidão
O nome científico escolhido para a nova espécie carrega uma história pessoal. A homenagem é para Alessandre Custódio Jorge, conhecido como Barrinha, gerente do Parque Estadual Caminhos dos Gerais e servidor do IEF há anos dedicado à conservação ambiental na região. Foi justamente Barrinha quem, durante uma reunião de monitoria do PAT Espinhaço Mineiro em setembro de 2022, apontou a carência de estudos científicos sobre a biodiversidade local e ajudou a viabilizar o acesso dos pesquisadores ao território. A expedição que resultou na descoberta nasceu diretamente dessa provocação.
A escolha do nome não é apenas simbólica. Ela reflete uma prática cada vez mais comum na taxonomia contemporânea, que é reconhecer, através da nomenclatura científica, o papel de guardiões locais que tornam a pesquisa possível. No caso da Eriope barrinhae, a homenagem também reforça a importância dos servidores de unidades de conservação como elo entre o território e a ciência, muitas vezes atuando anos antes que qualquer pesquisador acadêmico pise na área.
O que torna essa flor diferente de todo o gênero
A Eriope barrinhae pertence à família Lamiaceae, grupo botânico que reúne diversas plantas aromáticas amplamente conhecidas, como manjericão, alecrim e hortelã, muitas delas usadas em temperos e chás ao redor do mundo. Dentro do gênero Eriope, a nova espécie apresenta um conjunto de características que a distingue claramente de parentes próximos, como a Eriope carpotricha e a Eriope complicata: a coloração lilás intensa das pétalas e a combinação incomum de pelos de diferentes tamanhos em suas estruturas florais.

Esses detalhes morfológicos, aparentemente sutis, são o que permite à comunidade científica reconhecer uma planta como espécie nova. A identificação taxonômica de plantas do gênero Eriope costuma exigir análise cuidadosa de estruturas reprodutivas, já que muitas espécies do grupo compartilham semelhanças superficiais que só se resolvem sob observação detalhada em laboratório e comparação com material de herbário.
Por que o Norte de Minas virou epicentro de novas descobertas
O fenômeno que trouxe a Eriope barrinhae à luz não é isolado. Desde 2023, mais de 15 espécies novas de plantas foram descritas a partir de expedições realizadas no âmbito do PAT Espinhaço Mineiro, incluindo a Barbacenia rupestris, encontrada na Serra do Pau D’Arco em uma área associada a afloramentos quartzíticos com pinturas rupestres pré-históricas, e a Guapira leucophylla, árvore endêmica registrada no Parque Estadual Serra Nova e Talhado, em Rio Pardo de Minas.
A explicação para essa concentração de descobertas está na geografia. O Norte de Minas Gerais integra a porção setentrional da Cadeia do Espinhaço, cordilheira que se estende por mais de mil quilômetros entre o centro-sul mineiro e a Chapada Diamantina, na Bahia. Ao longo dessa cordilheira, floresce o ecossistema dos campos rupestres, formação vegetal que cobre menos de 1% do território brasileiro, mas concentra cerca de 14% de toda a flora vascular do país. Em alguns grupos botânicos específicos da região, o índice de endemismo, ou seja, de espécies que só existem ali e em nenhum outro lugar do mundo, chega a variar entre 80% e 90%.
Essa combinação de isolamento geográfico, solo rochoso pobre em nutrientes e altitude elevada criou, ao longo de milhões de anos, condições únicas para a evolução de espécies extremamente especializadas e restritas a áreas minúsculas. Muitas dessas plantas, como a própria Eriope barrinhae, são consideradas microendêmicas, um termo técnico usado para descrever espécies conhecidas a partir de uma única população, muitas vezes concentrada em poucos hectares de um único afloramento rochoso.
O outro lado da descoberta: o risco de desaparecer antes de ser conhecida
Existe uma contradição dolorosa por trás de cada nova espécie anunciada nos campos rupestres. Por definição, uma planta microendêmica já nasce vulnerável. Ocupando uma área restrita, qualquer alteração no ambiente, seja mineração, incêndio, expansão agrícola ou mudança climática, pode comprometer a totalidade da população da espécie de uma só vez. Levantamentos florísticos conduzidos em unidades de conservação de Minas Gerais já identificaram mais de 100 espécies ameaçadas distribuídas entre os campos rupestres do estado, com destaque para famílias como Asteraceae, Fabaceae, Bromeliaceae e Velloziaceae.
Esse cenário reforça o papel estratégico de unidades de conservação como o Parque Estadual Caminhos dos Gerais. Sem a proteção formal do território e sem o trabalho de campo de servidores como Barrinha, é provável que espécies como a Eriope barrinhae jamais chegassem a ser catalogadas, ou pior, pudessem desaparecer antes mesmo de serem descritas pela ciência. A situação se repete em outras porções da Cadeia do Espinhaço, onde pesquisadores frequentemente descrevem a corrida entre o avanço da pesquisa botânica e a velocidade da degradação ambiental.
Um ecossistema que ainda guarda segredos
O que a descoberta da Eriope barrinhae confirma é que o trabalho de mapear a flora brasileira está longe de terminar, mesmo em um estado tão estudado quanto Minas Gerais. Entre 2005 e 2014, dezenas de novas espécies já haviam sido descritas na Cordilheira do Espinhaço, e o ritmo de descobertas segue acelerado justamente porque grande parte do território de campos rupestres permanece pouco explorada por expedições científicas sistemáticas.
Cada nova planta descrita amplia não apenas o conhecimento taxonômico, mas também abre portas para investigações futuras sobre possíveis propriedades químicas, aromáticas ou medicinais, considerando que a família Lamiaceae, à qual pertence a Eriope barrinhae, é historicamente associada a compostos de interesse na indústria de alimentos e fitoterápicos. Antes de qualquer aplicação prática, porém, o desafio imediato é garantir que a espécie sobreviva no único lugar do mundo onde ela é capaz de florescer.
Referências
- Agência Minas Gerais — Nova espécie de planta é descoberta no Norte de Minas Gerais: https://www.agenciaminas.mg.gov.br/noticia/nova-especie-de-planta-e-descoberta-no-norte-de-minas-gerais
- FUNBIO — As plantas únicas e ameaçadas da Serra do Espinhaço: https://www.funbio.org.br/as-plantas-unicas-e-ameacadas-da-serra-do-espinhaco/
- Mongabay Brasil — Cientistas e comunidades correm para salvar um dos ecossistemas mais raros e diversos do Brasil: https://brasil.mongabay.com/2025/07/cientistas-e-comunidades-correm-para-salvar-um-dos-ecossistemas-mais-raros-e-diversos-do-brasil/




