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Home Clima e Sustentabilidade

Cerrado guarda plantas centenárias sob o solo, revela estudo científico

Revisão: Derick Machado
18 de maio de 2026
in Clima e Sustentabilidade
Cerrado guarda plantas centenárias sob o solo, revela estudo científico

À primeira vista, os campos do Cerrado sudestino podem parecer vazios. A vegetação raramente ultrapassa a altura do joelho, composta por capins, ervas e arbustos discretos que se estendem sob o céu aberto. Entretanto, essa paisagem aparentemente simples esconde um patrimônio biológico de impressionante longevidade. Sob a superfície do solo, raízes centenárias permanecem vivas, registrando silenciosamente a história ambiental do Brasil.

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Pesquisas conduzidas por cientistas brasileiros no âmbito do projeto Biota Campos revelaram que diversas plantas rasteiras do Cerrado ultrapassam 100 anos de idade. Algumas alcançam, inclusive, 136 anos. O dado surpreende porque, acima do solo, essas espécies parecem jovens e frágeis. Contudo, a verdadeira idade não está no broto visível, mas na estrutura subterrânea que sustenta sua existência.

Herbocronologia: a ciência que conta os anos das plantas pequenas

Para chegar a essa descoberta, os pesquisadores aplicaram de forma sistemática a herbocronologia, um ramo da dendrocronologia dedicado ao estudo da idade de plantas de pequeno porte. Tradicionalmente, a idade das árvores é estimada pela contagem dos anéis de crescimento no tronco. Já nas plantas campestres, esse processo ocorre nas raízes.

Em estudo publicado na revista Dendrochronologia, mais de 200 indivíduos de 107 espécies foram analisados em áreas de Cerrado e Mata Atlântica. Embora a maioria apresentasse menos de dez anos, as amostras do Cerrado revelaram raízes com mais de um século.

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“Aquela planta tem a altura do meu joelho. Eu falava: ‘Ah, ela deve ter nascido de semente cinco anos atrás, queimou e brotou’. Pensar que ela tinha mais de 100 anos? Jamais”, relata Giselda Durigan, engenheira florestal e líder do projeto.

Segundo a pesquisadora, o equívoco comum está em confundir a idade do broto com a idade da planta. A parte aérea pode queimar, secar ou rebrotar diversas vezes ao longo das décadas. Entretanto, a estrutura subterrânea permanece ativa, funcionando como um núcleo resiliente que atravessa gerações.

Raízes como arquivos climáticos

Assim como os troncos das árvores, as raízes dessas plantas produzem tecido lenhoso capaz de formar anéis anuais. Em espécies suficientemente desenvolvidas, esses anéis tornam-se visíveis após corte e lixamento. Em plantas menores, entretanto, foi necessário recorrer a técnicas microscópicas.

No segundo estudo, publicado na revista Flora, os pesquisadores utilizaram corantes específicos para diferenciar celulose e lignina sob microscopia. Essa variação química permitiu distinguir anéis verdadeiros — formados pela alternância entre períodos de chuva e seca — de anéis falsos, causados por eventos climáticos atípicos.

“A quantidade de casacos que ela vai colocando seria a quantidade de invernos que ela passou”, explica Tiago Marcilio Gomes Pinto, engenheiro florestal envolvido na pesquisa, ao comparar os anéis a camadas sucessivas de vestimentas.

Em apenas cinco centímetros de raiz, alguns indivíduos acumulavam mais de cinquenta anos de crescimento. Essa densidade temporal transforma cada fragmento subterrâneo em um registro histórico detalhado. Como destaca Cláudia Fontana, responsável pelo estudo, “o anel de crescimento contém todo o histórico de vida da planta: quando nasceu, em que ritmo cresceu e como o ambiente afetou esse crescimento”.

Sob essa ótica, as raízes tornam-se instrumentos de leitura climática. Anéis mais estreitos podem indicar anos de estiagem severa. Alterações abruptas podem sinalizar doenças ou perturbações ambientais. Comparando indivíduos de uma mesma área, é possível reconstruir padrões históricos de clima com precisão surpreendente.

Fogo, resiliência e adaptação evolutiva

A longevidade das plantas campestres está diretamente ligada à sua adaptação ao fogo. Nos campos do Cerrado, incêndios periódicos fazem parte da dinâmica natural. A parte aérea é consumida, mas as gemas protegidas sob o solo garantem o rebrote.

“É como um tampão que protege essa estrutura lá embaixo. Inclusive é ali que estão guardadas as gemas que vão rebrotar”, explica Cláudia Fontana.

Essa estratégia ecológica permite que o Cerrado sobreviva a distúrbios recorrentes. Como resume Durigan, “o Cerrado é tão poderoso que ele não morre com fogo. Ele perde as folhas que queimam, mas continua lá com as mesmas plantas”.

Além disso, esses ecossistemas desempenham papel fundamental na recarga hídrica. Campos naturais funcionam como áreas de infiltração, alimentando nascentes que abastecem grande parte das bacias hidrográficas brasileiras. A substituição desses ambientes por monoculturas ou expansão urbana compromete diretamente essa função ecológica.

Campos naturais sob ameaça silenciosa

Apesar de sua relevância, os campos naturais ainda sofrem invisibilidade institucional. Muitas vezes são interpretados como áreas degradadas que deveriam ser reflorestadas. Entretanto, essa percepção ignora sua antiguidade e complexidade.

Em 2021, pesquisadores internacionais publicaram o manifesto Combatting global grassland degradation, alertando para a degradação global dos campos naturais. No Brasil, o Biota Campos já identificou que a extensão desses ecossistemas em São Paulo é o dobro do que indicavam mapeamentos oficiais.

“Nem o mapeamento oficial do estado e nem o MapBiomas acertaram na interpretação das imagens. Foi um erro gigante”, afirma Durigan, destacando a necessidade de aprimorar políticas públicas.

A principal ameaça atualmente é a conversão do solo para agricultura intensiva, silvicultura de espécies exóticas e expansão imobiliária. Como a legislação ambiental tende a priorizar áreas com árvores, muitos campos permanecem desprotegidos juridicamente.

Um horizonte científico que se amplia

A aplicação da herbocronologia aos campos brasileiros inaugura uma nova fronteira científica. Até então, a reconstrução climática de longo prazo baseava-se principalmente em florestas. Agora, a possibilidade de correlacionar anéis radiculares com eventos climáticos históricos amplia o escopo de pesquisa.

“Agora, sabendo que essas plantas podem passar de um século, abre-se um horizonte para correlacionar o crescimento dessas raízes com as variações de clima ao longo desses 136 anos ou mais”, afirma Durigan.

Assim, o que parecia um campo vazio revela-se um arquivo biológico sofisticado. Sob o solo do Cerrado, pequenas plantas guardam registros silenciosos de seca, chuva, fogo e transformação ambiental. Aliás, ao reconhecer essa longevidade, amplia-se também a urgência de conservar esses ecossistemas que, embora discretos na paisagem, sustentam a memória viva do bioma brasileiro.

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