Connect with us

Fauna & Vida Silvestre

O ranking que ninguém esperava: mangueira e abelha-europeia lideram a lista das espécies que mais invadiram o Brasil

Levantamento do ICMBio em unidades de conservação federais aponta as duas espécies como as mais disseminadas entre 290 exóticas já identificadas, com impacto direto sobre a fauna e a flora nativas

Publicado

em

O ranking que ninguém esperava: mangueira e abelha-europeia lideram a lista das espécies que mais invadiram o Brasil

Poucas coisas parecem tão brasileiras quanto uma manga colhida no quintal ou o zumbido de uma abelha sobrevoando o jardim. Nenhuma das duas, porém, nasceu aqui. A mangueira (Mangifera indica) veio da Ásia. A abelha-europeia (Apis mellifera) tem origem no continente que dá nome à espécie. E é justamente essa dupla, tão incorporada ao cotidiano do país que parece nativa, que lidera o ranking das espécies exóticas mais disseminadas dentro das unidades de conservação federais do Brasil.

O dado vem de um levantamento inédito do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), divulgado neste ano e destacado pela ((o))eco, principal portal de jornalismo ambiental do país. O estudo mapeou a presença de espécies exóticas invasoras em 561 unidades de conservação administradas pelo governo federal e chegou a um número que impressiona: mais de 5.600 registros de invasão biológica, envolvendo 290 espécies diferentes entre fauna e flora.

Como a mangueira conquistou as áreas protegidas do Brasil

Entre as 162 espécies vegetais exóticas invasoras identificadas, a mangueira aparece à frente de todas, com registros em pelo menos 53 unidades de conservação federais segundo o levantamento mais recente do ICMBio. A árvore foi trazida ao Brasil ainda no período colonial e se adaptou tão bem ao clima tropical que hoje faz parte da paisagem urbana e rural de praticamente todo o território nacional.

Essa adaptação, que para a população em geral representa sombra, fruta e memória afetiva, é exatamente o que preocupa os cientistas responsáveis pelo monitoramento das unidades de conservação. A mangueira compete por espaço, luz e nutrientes com espécies nativas, alterando a dinâmica de regeneração de áreas de vegetação original. Em unidades de conservação onde a proposta é preservar o ecossistema tal como ele evoluiu ao longo de milhares de anos, a presença maciça de uma árvore exótica interfere diretamente nesse equilíbrio.

Logo atrás da mangueira no ranking da flora invasora aparecem duas gramíneas de origem africana, o capim-gordura (Melinis minutiflora) e o capim-colonião (Megathyrsus maximus). Ambas têm um agravante que vai além da competição por espaço: são espécies com alta inflamabilidade, o que aumenta significativamente o risco de incêndios florestais em áreas onde se estabelecem. A combinação entre gramíneas exóticas e clima seco já é apontada por pesquisadores como um dos fatores que intensificam queimadas em unidades de conservação do Cerrado e da Amazônia.

A abelha que ameaça as abelhas nativas do Brasil

No grupo da fauna, a abelha-europeia lidera com folga, aparecendo em pelo menos 108 unidades de conservação federais entre as 128 espécies animais exóticas catalogadas pelo levantamento. A espécie chegou ao Brasil em 1839, trazida de Portugal para dar início à atividade apícola no país, e se espalhou de forma tão consistente que hoje é dificilmente distinguível, aos olhos de quem não é especialista, das mais de 300 espécies de abelhas nativas sem ferrão que o Brasil abriga.

O problema não está na produção de mel, atividade econômica relevante e consolidada no país. Está na competição direta que a abelha-europeia trava com as abelhas nativas por recursos florais, o que reduz a disponibilidade de pólen e néctar para espécies que, muitas vezes, têm papel insubstituível na polinização de plantas nativas específicas. Diversas espécies vegetais do Brasil evoluíram em conjunto com polinizadores nativos ao longo de milhões de anos, e a substituição gradual desses polinizadores por uma espécie exótica generalista pode comprometer ciclos reprodutivos inteiros de plantas que dependem dessa relação específica.

Na sequência do ranking da fauna invasora aparece o pardal (Passer domesticus), ave de origem no Oriente Médio hoje presente em pelo menos 85 unidades de conservação, e o camundongo (Mus musculus), que acompanha a ocupação humana e se estabelece com facilidade em áreas antropizadas dentro e no entorno de parques e reservas.

O tamanho real do problema nas unidades de conservação

O levantamento do ICMBio revela que 72,3% das unidades de conservação federais analisadas já abrigam ao menos uma espécie exótica invasora. É um número que reposiciona a discussão sobre proteção ambiental no Brasil: mais da metade das áreas criadas especificamente para preservar ecossistemas originais já convive, de alguma forma, com a presença de espécies que não pertencem àquele ambiente.

A distribuição geográfica também chama atenção. A Mata Atlântica desponta como o bioma mais afetado por invasões biológicas, resultado direto de sua longa história de ocupação humana, fragmentação florestal e proximidade com centros urbanos densamente povoados. Já a Amazônia, apesar de sua extensão territorial, apresenta um número proporcionalmente menor de registros, com apenas 13 espécies exóticas de plantas catalogadas para o bioma segundo estudos anteriores ao levantamento mais recente. Os pesquisadores são cautelosos ao interpretar esse dado: a menor incidência pode refletir tanto uma real menor pressão de invasão quanto uma lacuna de monitoramento em áreas remotas e de difícil acesso, onde o esforço de pesquisa em campo ainda é limitado.

Entre as unidades de conservação com maior concentração de registros, a APA Ilhas e Várzeas do Rio Paraná lidera em ocorrências de fauna exótica, enquanto o Parque Nacional de Brasília concentra o maior número de registros de flora invasora entre as áreas monitoradas.

Um custo que vai muito além da biodiversidade

Um dado adicional, levantado em relatórios recentes sobre o impacto econômico das invasões biológicas, ajuda a dimensionar a gravidade do problema para além do debate estritamente ambiental. Estima-se que espécies exóticas invasoras já causem prejuízos anuais de até R$ 15 bilhões ao Brasil, somando custos de controle, perdas produtivas e danos a ecossistemas que prestam serviços ambientais essenciais, como purificação da água e regulação do clima local. Esse valor quadruplicou desde a década de 1970, um reflexo direto da intensificação do comércio internacional, do turismo e do transporte de cargas, vetores que facilitam a movimentação de espécies para além de suas barreiras geográficas naturais.

Em escala global, invasões biológicas já são apontadas como fator determinante em até 60% das extinções de plantas e animais registradas nos últimos séculos, o que coloca o tema no mesmo patamar de urgência de outras grandes ameaças ambientais, como o desmatamento e as mudanças climáticas.

O paradoxo das espécies que viraram parte da paisagem

O caso da mangueira e da abelha-europeia expõe um paradoxo pouco discutido fora dos círculos científicos. Ambas as espécies estão tão profundamente incorporadas à cultura, à economia e à paisagem brasileira que sua condição de exóticas invasoras passa despercebida pela maioria da população. Isso dificulta o desenho de políticas públicas de manejo, já que qualquer ação de controle esbarra na percepção social de que se trata de elementos naturais do país.

Para o ICMBio e para os pesquisadores que assinam o levantamento, o primeiro passo é justamente esse: tornar visível o que a naturalização cultural escondeu. Reconhecer que espécies queridas e economicamente relevantes também podem representar risco à biodiversidade nativa é condição necessária para que o manejo dessas invasões avance de forma tecnicamente embasada, sem negar a importância econômica e cultural que mangueiras e abelhas conquistaram ao longo de quase dois séculos de presença no território brasileiro.

  • Mania de Plantas é uma publicação digital brasileira inteiramente dedicada ao universo da jardinagem, paisagismo, botânica e sustentabilidade. Com uma equipe editorial apaixonada por natureza, o portal entrega conteúdos práticos, inspirações de decoração verde e guias acessíveis para quem deseja cultivar o bem-estar e trazer mais vida para o seu dia a dia, seja em grandes jardins ou em pequenos espaços urbanos.

  • Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.

    Mel contribui ativamente com artigos especializados para importantes plataformas do setor, começando pelo blog Maniadeplantas e hoje é uma autora de destaque na Agronamidia. Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.