Jardinagem & Cuidados
Por que a suculenta Orelha-de-Shrek é a queridinha da minha floricultura em Curitiba
Ensino o cultivo completo da Crassula ovata ‘Gollum’, da escolha do substrato à floração, com dicas práticas de quem trabalha com suculentas todos os dias
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51 minutos atrásem
Por
Mel Maria
Sou Mel Maria, jardineira e dona da Mel Garden, aqui em Curitiba, e posso dizer sem exagero que a Orelha-de-Shrek é uma das plantas que mais gera perguntas no meu balcão. Toda semana alguém entra na floricultura, aponta para aquelas folhas tubulares e curvadas e pergunta se é de verdade. É, sim. E cultivar essa suculenta em casa é mais simples do que parece, desde que você entenda algumas particularidades que aprendi ao longo de anos trabalhando com ela.
A Crassula ovata ‘Gollum’, batizada carinhosamente de Orelha-de-Shrek pelo formato incomum de suas folhas, é uma cultivar da já conhecida Crassula ovata, a clássica planta-do-dinheiro. A diferença está na mutação que faz as folhas crescerem tubulares em vez de arredondadas, com pontas levemente afuniladas que lembram, de fato, as orelhas do personagem de animação. Essa característica não é só estética. Vou explicar por quê.
De onde vem essa suculenta tão peculiar
A espécie de origem, Crassula ovata, é nativa das regiões áridas e semiáridas da África do Sul e de Moçambique, onde cresce naturalmente em solos rochosos e bem drenados, sob sol intenso e baixíssima umidade. A cultivar ‘Gollum’ surgiu como uma mutação espontânea identificada por produtores da Califórnia na década de 1970, e desde então se popularizou justamente pelo formato exótico das folhas.

O que poucos sabem, e que gosto de explicar aqui na loja, é que a forma tubular das folhas cumpre uma função evolutiva real. Ao reduzir a área de superfície exposta ao sol e ao ar, a planta diminui a perda de água por transpiração, o que é uma vantagem enorme em ambientes de seca prolongada. Ou seja, aquilo que parece só uma curiosidade visual é, na verdade, uma estratégia de sobrevivência refinada por gerações no habitat de origem.
Como toda espécie da família Crassulaceae, a Orelha-de-Shrek utiliza o metabolismo CAM (metabolismo ácido das crassuláceas), um mecanismo fotossintético que permite à planta abrir os estômatos durante a noite, quando as temperaturas são mais amenas, reduzindo ainda mais a perda de água. É esse metabolismo que explica por que suculentas em geral toleram tão bem longos períodos sem rega, e é um dado que sempre trago para quem está começando a se interessar por esse universo.
A floração que poucos conseguem ver
Aqui na Mel Garden, recebo muitos clientes que cultivam a Orelha-de-Shrek há anos e nunca viram uma floração. Isso acontece porque a planta só floresce quando atinge maturidade completa, geralmente após três a cinco anos de cultivo, e quando recebe exatamente as condições de luz e temperatura de que precisa.
Quando floresce, geralmente no final do verão ou início do outono aqui no sul do país, a planta produz pequenas inflorescências estreladas em tons de branco a rosa pálido, reunidas em cachos na ponta dos ramos. É um espetáculo discreto, mas que recompensa quem tem paciência. Recomendo sempre aos meus clientes que não fiquem ansiosos com isso: a ausência de flores não indica problema de saúde na planta, apenas que ela ainda está em fase de crescimento vegetativo.
Como cultivar a Orelha-de-Shrek em casa
Luz: o fator mais importante
A luz é, na minha experiência de anos na floricultura, o elemento que mais determina o sucesso ou o fracasso no cultivo dessa suculenta. Ela precisa de bastante luminosidade para manter a coloração vibrante e o crescimento compacto das folhas, mas o sol do meio-dia em regiões de clima muito quente pode queimar a folhagem, especialmente em exemplares recém-adaptados.
O ideal é posicionar a planta em local que receba luz solar direta pela manhã ou no fim da tarde, com sombra parcial nas horas mais intensas do dia. Uma janela voltada para leste costuma funcionar muito bem, e é a que mais recomendo para quem cultiva em apartamento. Em ambientes internos com pouca luz natural, a planta tende a esticar os ramos em busca de claridade, um fenômeno conhecido como estiolamento, que compromete a beleza compacta característica da espécie.
Substrato: a base de tudo
Uso na Mel Garden uma mistura específica para suculentas e cactos, que combino eu mesma: terra vegetal, areia grossa lavada e perlita, em proporções aproximadas de 2:1:1. Essa combinação garante a drenagem rápida que a raiz da Orelha-de-Shrek exige para não apodrecer.
Um detalhe que costumo reforçar para meus clientes é a importância do vaso ter furos de drenagem generosos. Não adianta ter o substrato perfeito se a água ficar acumulada no fundo do vaso. Prefiro sempre vasos de barro ou cerâmica não vitrificada, que permitem a evaporação da umidade pelas paredes porosas, um cuidado extra que faz diferença real na longevidade da planta.
Rega: menos é mais
Esse é o ponto onde mais vejo gente errar. A regra de ouro que sigo e ensino é simples: espere o substrato secar completamente antes de regar novamente. Na prática, isso costuma significar um intervalo de sete a catorze dias entre regas, variando conforme a estação, a temperatura ambiente e a umidade do ar.
No inverno, aqui em Curitiba, onde as temperaturas caem bastante, reduzo a frequência ainda mais, regando às vezes apenas uma vez por mês. A raiz da suculenta entra em um estado de repouso parcial no frio, e o excesso de água nesse período é a causa mais comum de apodrecimento que vejo chegar até mim para diagnóstico.
Adubação e cuidados complementares
Um cuidado que costumo recomendar e que poucos guias mencionam é a adubação sazonal com fertilizante específico para suculentas e cactos, aplicado uma vez a cada dois ou três meses durante a primavera e o verão, período de crescimento ativo. Uso sempre uma diluição bem mais fraca do que a recomendada na embalagem, porque suculentas são sensíveis a excesso de nutrientes, especialmente nitrogênio, que pode causar crescimento fraco e suscetível a pragas.
Outro ponto que aprendi com a prática é observar o comportamento das folhas como termômetro de saúde da planta. Folhas enrugadas e murchas geralmente indicam falta de água. Já folhas translúcidas, moles e amareladas quase sempre apontam para excesso de rega e início de apodrecimento radicular. Aprender a ler esses sinais é o que diferencia quem cultiva suculentas com segurança de quem vive perdendo plantas sem entender o motivo.
- Veja também: Cymbidium: A orquídea que todo florista deveria conhecer — e poucos cultivam do jeito certo
Propagação: multiplicando sua Orelha-de-Shrek
Um insight que gosto muito de compartilhar na loja é que essa suculenta é extremamente fácil de propagar, o que a torna perfeita para quem quer presentear amigos ou expandir a coleção sem gastar muito. Basta destacar uma folha saudável da planta-mãe, deixar a ferida cicatrizar por dois a três dias em local seco e arejado, e depois posicioná-la sobre substrato levemente úmido, sem enterrar.
Em poucas semanas, pequenas raízes começam a se formar na base, seguidas por uma mini roseta que dará origem a uma nova planta. É um processo que costumo fazer com meus clientes na loja como demonstração, porque a taxa de sucesso é alta e o resultado é gratificante até para quem nunca propagou uma planta antes.
Um cuidado especial com o inverno curitibano
Como trabalho e cultivo aqui em Curitiba, onde o inverno é mais rigoroso do que na maior parte do Brasil, aprendi na prática que a Orelha-de-Shrek tolera bem temperaturas baixas, desde que não haja geada direta sobre a folhagem. Em dias muito frios, costumo recolher os vasos que ficam em áreas externas e trazer para ambientes protegidos, já que a geada pode causar necrose nas pontas das folhas tubulares, comprometendo a estética característica da planta.
Esse é um cuidado que muitos guias sobre a espécie não mencionam, provavelmente por serem escritos pensando em climas mais quentes do Brasil. Mas para quem cultiva em regiões de altitude ou de invernos mais severos, como o sul do país, esse detalhe faz toda a diferença entre uma planta exuberante e uma planta debilitada na primavera seguinte.
A Orelha-de-Shrek é, para mim, uma das provas mais bonitas de como a natureza encontra soluções criativas para sobreviver em ambientes hostis. E cultivá-la em casa é também uma forma de trazer um pouco dessa resiliência para dentro do nosso próprio espaço.
Mel Maria é uma jardineira e empreendedora com mais de 10 anos de experiência no cultivo e comércio de plantas em Curitiba. Como proprietária da renomada Mel Garden, ela transformou sua paixão em uma autoridade local, especializando-se em flores, suculentas e projetos de paisagismo, área na qual atua diariamente.
Mel contribui ativamente com artigos especializados para importantes plataformas do setor, começando pelo blog Maniadeplantas e hoje é uma autora de destaque na Agronamidia. Sua escrita compartilha o conhecimento adquirido em campo, oferecendo orientações detalhadas e altamente confiáveis para o cultivo e o paisagismo.
