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Mundo Botânico & Ciência

Casca do jatobá resiste ao fogo graças a uma camada de cortiça que isola o tronco do calor

Pesquisas sobre a vegetação do Cerrado revelam que a espessa camada de cortiça do jatobá isola o tronco do calor e ainda libera água e CO₂ durante o incêndio, um mecanismo de defesa refinado ao longo de milhões de anos

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Casca do jatobá resiste ao fogo graças a uma camada de cortiça que isola o tronco do calor

Em um incêndio de Cerrado, a temperatura do ar a poucos centímetros do solo pode ultrapassar os 600°C. A maioria das plantas não resiste a esse tipo de exposição, mas o jatobá segue de pé quando o fogo passa. A explicação está numa estrutura que a botânica estuda há décadas: o súber, tecido popularmente conhecido como cortiça, que reveste o tronco da árvore em camadas espessas e funciona como uma verdadeira barreira térmica.

O jatobá, cujo nome científico mais conhecido é Hymenaea courbaril, pertence a um grupo de espécies nativas do Cerrado, da Caatinga, do Pantanal e da Mata Atlântica que desenvolveram troncos suberosos justamente para enfrentar um ambiente onde o fogo é presença regular. Diferente de florestas úmidas, onde incêndios são eventos raros e catastróficos, o Cerrado convive há milênios com queimadas naturais, provocadas por raios durante a estação seca. Isso moldou a evolução das espécies que ali vivem, e a casca grossa do jatobá é um dos resultados mais eficientes desse processo adaptativo.

O que acontece dentro da casca durante o fogo

A função do súber vai além de simplesmente ser grosso. Estudos sobre a anatomia da casca de espécies lenhosas do Cerrado mostram que o tecido atua em pelo menos duas frentes durante um incêndio. A primeira é a barreira física: a espessura da camada suberosa retarda a chegada do calor até o câmbio, a fina camada de células vivas logo abaixo da casca responsável pelo crescimento do tronco. Se o câmbio for exposto a temperaturas acima de 60°C por um a dois minutos, a árvore morre. É justamente esse tecido vital que a cortiça protege.

A segunda frente é química. Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Bauru, demonstraram que o súber em pó de espécies do Cerrado, quando submetido a altas temperaturas, sofre decomposição térmica e libera água e dióxido de carbono. Esses compostos ajudam a retardar o aumento da temperatura no interior do tronco durante os segundos críticos da passagem do fogo. Como o incêndio se desloca rapidamente entre uma árvore e outra na vegetação aberta do Cerrado, esse atraso de poucos minutos já é suficiente para preservar os tecidos vivos internos.

Uma armadura construída em camadas de porosidade

A eficiência do súber como isolante não depende apenas da espessura. A estrutura interna do tecido também importa. O súber é formado por células mortas preenchidas de ar e revestidas por uma substância chamada suberina, que confere impermeabilidade e baixa condutividade térmica. Essa arquitetura celular repleta de espaços vazios funciona de forma parecida com a de materiais isolantes usados na construção civil, onde bolsões de ar retardam a transferência de calor entre dois ambientes.

Comparações entre diferentes espécies lenhosas do Cerrado mostram que a arquitetura da casca, e não apenas sua espessura total, influencia diretamente a velocidade com que o calor atravessa o tecido até alcançar o câmbio. Espécies com casca mais porosa e estratificada em múltiplas camadas de súber apresentam desempenho superior na proteção térmica, mesmo quando comparadas a cascas de espessura semelhante, mas com estrutura mais compacta.

O papel do fogo na forma tortuosa das árvores do Cerrado

Um efeito colateral interessante dessa relação evolutiva com o fogo aparece na própria arquitetura das árvores do Cerrado. As queimadas frequentes tendem a destruir as gemas terminais dos galhos, responsáveis pelo crescimento vertical da planta. Como resposta, brotam gemas laterais, o que resulta no formato tortuoso, de galhos retorcidos, tão característico da paisagem do bioma. O jatobá, apesar de conseguir atingir portes mais altos em áreas de mata mais densa e protegida, também carrega marcas dessa pressão seletiva quando cresce em áreas abertas de Cerrado sujeitas a queimadas regulares.

Essa reconstrução acelerada após incêndios chama atenção mesmo entre pesquisadores. Em poucas semanas após uma queimada, novos brotos surgem em galhos e na base do tronco de árvores suberosas, um sinal de que a proteção da casca funcionou e que o tecido vivo interno permaneceu intacto o suficiente para retomar o crescimento.

Além da proteção contra o fogo, uma casca de múltiplos usos

A resistência térmica do jatobá não é sua única característica notável. A mesma casca que protege o tronco das chamas tem uso tradicional consolidado entre comunidades do Cerrado e da Amazônia havendo registro de emprego popular em infusões e preparações caseiras, prática que remonta ao conhecimento indígena sobre a flora nativa. A árvore também produz uma resina conhecida como jutaicica, historicamente utilizada por povos originários, e frutos com polpa farinácea que servem de alimento tanto para fauna silvestre quanto para comunidades extrativistas que comercializam a farinha de jatobá como produto da sociobiodiversidade do bioma.

A madeira do jatobá, por sua vez, está entre as mais valorizadas do mercado internacional de madeiras tropicais, reconhecida pela durabilidade excepcional. Essa combinação de valor econômico, importância ecológica e resistência ao fogo torna o jatobá uma espécie frequentemente indicada em projetos de restauração do Cerrado, já que sua capacidade de regenerar naturalmente mesmo em áreas degradadas por pastagens contribui diretamente para a recomposição da vegetação nativa após décadas de uso agropecuário do solo.

Um mecanismo que ajuda a entender a resiliência do bioma

O caso do jatobá ilustra um princípio maior sobre o Cerrado: o fogo não é necessariamente um inimigo do bioma, mas um elemento que ajudou a moldar suas espécies ao longo de milhões de anos. Entender mecanismos como o da casca suberosa ajuda a explicar por que certas áreas de Cerrado se recuperam com relativa rapidez após incêndios naturais, enquanto o mesmo fogo, quando descontrolado ou fora do regime histórico de frequência, pode causar danos irreversíveis a espécies que não desenvolveram esse tipo de proteção.

Essa distinção é cada vez mais relevante em um cenário de mudanças climáticas, no qual incêndios mais frequentes e intensos testam os limites até mesmo das adaptações mais refinadas da natureza. A casca do jatobá é um lembrete de que a resiliência do Cerrado não é acidental: é o resultado de uma longa história evolutiva escrita, literalmente, em camadas.

  • Mania de Plantas é uma publicação digital brasileira inteiramente dedicada ao universo da jardinagem, paisagismo, botânica e sustentabilidade. Com uma equipe editorial apaixonada por natureza, o portal entrega conteúdos práticos, inspirações de decoração verde e guias acessíveis para quem deseja cultivar o bem-estar e trazer mais vida para o seu dia a dia, seja em grandes jardins ou em pequenos espaços urbanos.

  • Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em jardinagem, botânica urbana e paisagismo residencial. Acompanha de perto as principais tendências de design biofílico, técnicas de cultivo sustentável e inovações no manejo de plantas para ambientes internos e externos, sempre com base em referências de institutos botânicos, universidades e especialistas do setor.

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