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Dois filhotes e 200 anos de ausência: a arara-vermelha-grande volta a nascer na Mata Atlântica

Projeto do Ibama em Porto Seguro alcança resultado inédito e recoloca o maior papagaio das Américas no litoral brasileiro

Revisão: Derick Machado
17 de maio de 2026
in Clima e Sustentabilidade
Dois filhotes e 200 anos de ausência: a arara-vermelha-grande volta a nascer na Mata Atlântica

Em 1500, Pero Vaz de Caminha escrevia ao rei Dom Manuel descrevendo as terras recém-avistadas. Entre os relatos, uma passagem registrava a presença de “papagaios vermelhos, muito grandes e formosos” habitando a costa brasileira. A ave era a arara-vermelha-grande (Ara macao), e aquele seria, sem que ninguém soubesse, um dos últimos registros históricos de sua presença livre na Mata Atlântica.

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Nos séculos seguintes, o desmatamento e a captura ilegal para o tráfico de animais silvestres empurraram a espécie para o interior do continente. As populações selvagens restantes hoje estão concentradas no Centro-Oeste e na Amazônia. No litoral, restou apenas o silêncio de quase 200 anos.

Esse silêncio foi quebrado neste mês, quando o Ibama confirmou o nascimento de dois filhotes de arara-vermelha-grande na Mata Atlântica, em Porto Seguro, no sul da Bahia. É o primeiro registro documentado de reprodução da espécie no bioma em toda a era moderna.

O projeto que começou com aves apreendidas no tráfico

A história desse resultado começa em 2022, quando o Ibama estruturou no Centro de Triagem de Animais Silvestres de Porto Seguro um programa voltado especificamente para a reintrodução da arara-vermelha-grande na Mata Atlântica. As aves que deram origem ao grupo não vieram de criadores comerciais nem de programas internacionais — vieram de apreensões no combate ao tráfico de animais silvestres e de doações feitas por particulares que mantinham os animais em cativeiro.

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Esse ponto de partida já revelava o grau de complexidade do projeto. Araras criadas fora do ambiente natural precisam passar por um processo cuidadoso de readaptação antes de qualquer soltura. No centro de Porto Seguro, cada exemplar foi identificado com microchip e anilha metálica, submetido a avaliação clínica e comportamental, testado para doenças e colocado em quarentena. Somente depois dessa etapa as aves entraram nos viveiros de voo, onde passaram por condicionamento físico progressivo, socialização com outros indivíduos da espécie e contato gradual com frutas nativas da Mata Atlântica.

Caixas-ninho artificiais foram instaladas ao longo de todo o processo, tanto na fase de triagem quanto nas áreas de soltura, para estimular o comportamento reprodutivo natural.

35 araras, sete mil hectares e o primeiro sinal

Em 2024, o primeiro grupo de 35 araras-vermelhas-grandes foi solto em uma área de Mata Atlântica em estágio de regeneração, com sete mil hectares, que inclui a Estação Veracel — considerada a maior reserva particular do patrimônio natural de Mata Atlântica do Nordeste brasileiro.

A escolha da área não foi aleatória. A extensão da reserva e o grau de regeneração florestal ofereciam condições mínimas para que as aves encontrassem recursos alimentares e abrigo sem depender de suporte humano contínuo. Ainda assim, o primeiro ano foi de observação atenta.

Os ambientalistas que acompanhavam o grupo notaram, ainda em 2024, que algumas das caixas-ninho instaladas já estavam sendo exploradas pelas araras. Era um sinal promissor, mas ainda não havia confirmação de reprodução. A virada veio em 2026, quando casais começaram a defender ativamente as caixas-ninho — comportamento territorial típico da fase de nidificação. Um dos casais, em especial, chamou atenção por permanecer durante longos períodos dentro de uma mesma estrutura, o que levantou a suspeita de que algo estava acontecendo ali dentro.

A confirmação veio na sequência: dois filhotes foram observados voando, sendo alimentados pelos pais e iniciando, de forma gradual, a exploração de alimentos por conta própria.

Por que o retorno da arara importa para a floresta

A arara-vermelha-grande não é apenas um símbolo visual imponente — é uma peça funcional dentro do ecossistema florestal. A espécie se alimenta de frutos e sementes de diversas espécies arbóreas nativas e, dado o seu porte avantajado, é capaz de transportar sementes por distâncias consideráveis antes de descartá-las. Esse comportamento a coloca diretamente no processo de dispersão e regeneração florestal, contribuindo para a conectividade entre fragmentos de vegetação e para a diversificação das espécies plantadas indiretamente ao longo do território.

Em uma Mata Atlântica que perdeu mais de 85% de sua cobertura original e que ainda hoje depende de processos ativos de regeneração, a presença de um dispersor de sementes de grande porte representa um ganho ecológico concreto. A reintrodução da arara, nesse contexto, não é apenas uma ação de conservação de espécie — é uma contribuição direta à saúde estrutural do bioma.

Um resultado que leva anos para acontecer

O nascimento de dois filhotes pode parecer um número modesto diante da escala do desafio, mas dentro da biologia da espécie, esse resultado tem peso diferente. A arara-vermelha-grande forma pares monogâmicos estáveis e tende a reproduzir uma ou duas vezes por ano, com ninhadas de um a três ovos. O período até a independência dos filhotes é longo, e o sucesso reprodutivo em ambiente natural — especialmente para aves que vieram do cativeiro — não é garantido nem imediato.

O fato de que, menos de dois anos após a soltura, um casal já estabeleceu território, ocupou uma caixa-ninho, incubou ovos e criou filhotes até o voo independente indica que o processo de adaptação avançou além do esperado para esse estágio do projeto. O Ibama acompanha o grupo e a evolução dos filhotes segue monitorada.

Para a Mata Atlântica, o significado é direto: depois de dois séculos, a arara-vermelha-grande voltou a nascer na floresta que Caminha descreveu — e desta vez, com documentação.

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