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”Elas do campo à mesa”: conheça a história de mulheres que alimentam o Brasil

Revisão: Derick Machado
17 de maio de 2026
in Noticias
”Elas do campo à mesa”: conheça a história de mulheres que alimentam o Brasil

O trajeto que o alimento percorre até chegar ao prato dos brasileiros não é feito apenas de terra, rodovias e silos. Ele é construído, fundamentalmente, pelas mãos de milhões de mulheres. O peso dessa força de trabalho é tão expressivo que, segundo o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres rurais contribuem com 42,4% do rendimento familiar. Com o propósito de revelar os rostos por trás desse imenso esforço diário das profissionais que garantem a comida na mesa da população, a campanha “Elas do Campo à Mesa: onde há alimento, há trabalho de mulheres” viaja pelas cinco regiões do Brasil. Realizada no contexto do projeto de modernização e reforma das unidades armazenadoras da Conab, em parceria com a Itaipu Binacional, Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e o Escritório das Nações Unidas de Serviços e Projetos (UNOPS) a iniciativa apresenta diferentes realidades para valorizar a atuação feminina em cada etapa da cadeia de abastecimento, provando que a soberania e segurança alimentar e nutricional tem rosto e voz de mulheres. 

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 A campanha tem como ponto de partida a rota do alimento através das histórias de sete mulheres fundamentais para o setor. A jornada começa na origem de tudo: a terra. Em Zé Doca, no interior do Maranhão, Eronildes Souza da Silva e Maria Rita Souza da Silva transformam a riqueza dos coqueiros em sustento. Quebradeiras de coco babaçu que conhecem o ofício desde a infância, Eronildes começou a trabalhar aos 10 anos e Maria Rita, aos 12 anos.
O trabalho na quebra do coco babaçu se soma aos cuidados invisíveis com a casa e os filhos, o que reforça a urgência de reconhecimento, como pontua Eronildes. O peso dessa dupla jornada é confirmado pelo relatório global de 2023 da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que aponta que as mulheres dedicam, em média, pelo menos três vezes mais tempo do que os homens ao trabalho de cuidado não remunerado e aos afazeres domésticos. Apesar dessa sobrecarga, o compromisso permanece, como resume Maria Rita com a sabedoria de quem vive do solo: “Agricultura é vida e aqui nós estamos inseridos”, afirma.

Quando o alimento sai da lavoura, ele precisa ser preservado com excelência, e é aí que o cuidado feminino também está presente na armazenagem. Na Unidade Armazenadora da Conab em Ponta Grossa, no Paraná, quem garante esse fluxo vital é Juliana Aparecida Schneider de Oliveira. Com 11 anos de Companhia, Juliana já atuou na classificação de grãos e hoje opera o Sistema Aplicado à Armazenagem de Grãos (Saagra), sistema que controla a entrada e saída das notas fiscais. Em um setor operacional historicamente gerido por homens, ela nota que as mulheres trazem não apenas uma melhoria nas relações interpessoais, mas também uma organização ímpar e agilidade. 

Sua trajetória também evidencia a necessidade de adaptação estrutural. Juliana lembra de quando dividia o banheiro com os colegas e da falta de estrutura para motoristas mulheres. Para transformar essa realidade, o setor de Gênero, Diversidade e Inclusão (GDI) do UNOPS realizou uma pesquisa para entender as demandas dos usuários das Unidades Armazenadoras (UA) da Conab. Como resultado desta escuta, a solicitação por espaços adequados para o público feminino será atendida na fase 2 do projeto de reforma e modernização da UA Ponta Grossa, um cenário que agora começa a mudar com os projetos de infraestrutura inclusiva do UNOPS.

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Para a diretora-executiva Financeira, Administrativa e de Fiscalização da Conab, Rosa Neide Sandes, é preciso colocar esse pauta em debate para que as mulheres que trabalham no abastecimento alimentar brasileiro ganhem visibilidade e, com isso, possam obter mais conquistas rumo à igualdade entre homens e mulheres. “Quando falamos de alimento chegando à mesa dos brasileiros, estamos falando também da força, da organização e da persistência de milhões de mulheres que sustentam essa cadeia todos os dias. Tornar esse trabalho visível é um passo fundamental para avançarmos  no sentido da equidade. Mas é igualmente fundamental que essas mulheres também ocupem espaços de decisão e gestão nas instituições e nas empresas do setor. Ampliar essa presença significa trazer mais diversidade de olhares, fortalecer políticas públicas e reconhecer, na prática, o protagonismo feminino em toda a cadeia produtiva de alimentos”, declarou.

Para que o alimento saia dos silos e atravesse o país, o trajeto exige asfalto e resistência. É nessa etapa que a estrada se torna o escritório de mulheres como Elisiane de Barros, de Mallet (PR), e Regiane Oliveira, de Sarandi (PR). Com o pé no acelerador de seus caminhões graneleiros, elas são apenas uma parcela das mais de 32 mil mulheres na profissão, número que cresceu 58% na última década, segundo dados do Ministério dos Transportes. 

Com 26 anos e há sete meses vivendo nas rodovias, Elisiane descreve a profissão como um misto de “liberdade com responsabilidade”. No entanto, ela e suas colegas superam obstáculos diários. Além da insegurança, Elisiane aponta a falta de infraestrutura básica, como banheiros limpos e seguros, como um dos piores desafios enfrentados pelas mulheres na estrada. 

De acordo com Regiane o preconceito é outro desafio enfrentado diariamente por ela e outras mulheres na profissão. Após realizar o sonho da juventude de casar e ser mãe, ela foi incentivada pelo pai caminhoneiro a assumir o volante. Trabalhando há sete meses na área, Regiane relata episódios de invisibilidade no setor logístico. Ao chegar para descarregar em terminais, é comum ser olhada com estranheza ou ser confundida com a esposa de algum motorista, já que as estruturas e as equipes muitas vezes não estão preparadas para a presença de uma profissional feminina. “Já passou da hora de quebrar esse tabu”, alerta Regiane.

O fim de toda essa longa jornada é quando, finalmente, o alimento chega no prato. Em Santa Rosa do Piauí (PI), a história de Francisca Idelvane Muniz comprova como o apoio à agricultura familiar muda realidades. Moradora da zona rural, ela é beneficiária do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) da Conab desde 2013. Francisca representa apenas uma das 490 mil famílias que o programa apoiou somente entre 2023 e 2024. Semanalmente, ela recebe hortaliças, legumes e proteínas animais livres de agrotóxicos para alimentar o marido e as duas filhas. Na casa de Francisca, com a refeição preparada, encerra um ciclo de superação e solidariedade que combate a fome e move o país. Para ela, o grande diferencial está na origem de seu sustento. “Posso garantir a segurança alimentar e nutricional da minha família pelo fato de ser produto de qualidade, principalmente porque é produzido pela mulher”, ressalta. Seu relato é a prova final de que, do campo à mesa, a segurança alimentar e nutricional do Brasil é, essencialmente, construída por mulheres.

Fonte: CONAB

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