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A rã-touro chegou a Florianópolis: por que uma espécie que “muge” está no topo da lista das invasoras mais perigosas do mundo

Identificada em Ratones desde outubro de 2025, a Aquarana catesbeiana preocupa pesquisadores da UFSC pelo porte, pela dieta voraz e pela capacidade de transmitir doenças que podem dizimar anfíbios nativos

Escrito por: Mania de Plantas Revisão: Derick Machado
8 de junho de 2026
in Fauna & Vida Silvestre
Foto: Divulgação/Prefeitura de Florianópolis

Foto: Divulgação/Prefeitura de Florianópolis

Imagine ouvir o que parece ser o mugido de um boi vindo de um brejo ou área úmida no quintal. Em Florianópolis, esse som incomum não é imaginação — é o chamado da rã-touro, anfíbio de grande porte originário da América do Norte que foi avistado e capturado no bairro Ratones, na zona norte da capital catarinense, e que agora mobiliza autoridades ambientais em regime de alerta máximo.

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A Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis (Floram) iniciou o monitoramento da espécie após o primeiro registro confirmado, em outubro de 2025. Desde então, duas ações de campo foram realizadas: em novembro do mesmo ano, dez exemplares foram capturados — sete adultos e três juvenis — e uma nova captura ocorreu em março de 2026. A presença da rã-touro já foi confirmada em três propriedades da região, mas relatos de moradores indicam que o animal pode estar no bairro há mais tempo do que os registros oficiais apontam.

Uma invasora com currículo preocupante

A rã-touro (Aquarana catesbeiana) não é uma ameaça comum. Ela figura entre as cem piores espécies invasoras do mundo segundo organismos internacionais de conservação e ocupa o nível mais alto de alerta na lista de espécies invasoras do estado de Santa Catarina, a Categoria 1, reservada para espécies que exigem ação imediata de manejo e controle.

O que coloca esse anfíbio nesse patamar é uma combinação de características raramente encontradas juntas numa única espécie. O porte avantajado, que pode superar os 20 centímetros de comprimento e ultrapassar 500 gramas, transforma a rã-touro numa predadora altamente eficiente dentro dos ecossistemas que ocupa. Sua dieta é generosa em variedade: consome peixes, outros anfíbios, répteis e até pequenos mamíferos, alimentando-se de praticamente qualquer coisa que caiba em sua boca. Somado a isso, a espécie apresenta alta capacidade reprodutiva, o que permite que populações se estabeleçam rapidamente quando encontram ambiente favorável.

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Além da pressão predatória direta sobre a fauna nativa, a rã-touro carrega outro risco silencioso: a transmissão de doenças. Os exemplares capturados em Florianópolis foram encaminhados ao Laboratório de Ecologia de Anfíbios e Répteis da UFSC justamente para investigar a presença de ranavírus e quitridiomicose, duas infecções que podem afetar anfíbios, peixes e répteis nativos com consequências devastadoras para populações já fragilizadas.

Como essa espécie chegou ao Brasil

A trajetória da rã-touro até os brejos de Santa Catarina começa muito antes do registro em Ratones. O anfíbio foi introduzido deliberadamente no Brasil em 1935, trazido para criação comercial em ranários — instalações voltadas para a produção de carne de rã, que chegou a ser explorada como atividade econômica em diversas regiões do país.

Com o fechamento progressivo dessas estruturas ao longo das décadas seguintes, o controle sobre a população de rãs foi perdido. Escapes, solturas inadequadas e abandono de criações permitiram que a espécie ganhasse o ambiente natural, encontrando nos corpos d’água brasileiros condições suficientes para se reproduzir e se dispersar. Hoje, a rã-touro está presente em vários estados brasileiros, e cada novo foco de estabelecimento representa um desafio adicional para a conservação da herpetofauna nativa.

O trabalho em campo e a estratégia de contenção

A abordagem adotada em Florianópolis segue um protocolo de detecção precoce e resposta rápida, considerado o método mais eficaz para lidar com espécies invasoras antes que elas consolidem populações extensas e difíceis de controlar. Fábio Henrique Machado, presidente da Floram, explica que a identificação no estágio inicial abre uma janela de oportunidade que seria perdida caso a presença da espécie só fosse confirmada anos depois.

Paralelamente às capturas de campo, a Prefeitura de Florianópolis desenvolve atividades de educação ambiental em parceria com a UFSC, com o objetivo de envolver escolas, moradores e comunidades no mapeamento participativo da espécie. A lógica é ampliar os olhos do monitoramento para além das equipes técnicas, aproveitando que a rã-touro é facilmente identificável tanto pelo tamanho quanto pela vocalização grave e inconfundível.

Quem avistar o animal ou escutar seu chamado característico pode comunicar a ocorrência à Floram pelo e-mail [email protected] ou pelo WhatsApp (48) 3237-5660. As autoridades reforçam que qualquer tentativa de captura por conta própria deve ser evitada — o manejo da espécie exige protocolo técnico e deve ser realizado exclusivamente por equipes habilitadas.

O que está em jogo para os ecossistemas locais

O bairro Ratones, onde os registros foram feitos, está inserido numa região com remanescentes de Mata Atlântica e áreas úmidas que abrigam espécies nativas de anfíbios com distribuição restrita. A rã-touro, ao se estabelecer nesses ambientes, compete diretamente com essas espécies por espaço e alimento, ocupa os mesmos nichos ecológicos e ainda pode introduzir patógenos aos quais a fauna local não tem resistência desenvolvida.

O risco não é hipotético. Em outros países onde a rã-touro foi introduzida, como França, Itália, Bélgica e Japão, o impacto sobre populações nativas de anfíbios foi documentado com clareza, motivando programas nacionais de erradicação. No Brasil, onde a biodiversidade herpetológica é uma das mais ricas do planeta, o mesmo descuido pode custar espécies que ainda nem foram completamente estudadas pela ciência.

O monitoramento em Florianópolis é, nesse sentido, um sinal positivo de que o problema foi identificado cedo o suficiente para ser enfrentado com alguma chance real de controle. Mas o trabalho exige continuidade, recursos e engajamento da população — porque a rã que muge como boi não vai embora sozinha.

Fonte: Com informações do G1 SC
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