Visitar um parque ou reserva natural costuma ser, para a maioria das pessoas, uma experiência que começa e termina no próprio passeio. O que se viu, se fotografou e se sentiu durante a trilha raramente encontra um suporte que aprofunde o entendimento sobre o ambiente visitado ou permita revisitar aquela experiência depois. O aplicativo BoRa foi criado exatamente para preencher esse espaço, e o reconhecimento que acaba de receber confirma que a proposta era mais necessária do que se imaginava.
A Embratur Brasil, em parceria com a revista Exame, entregou ao BoRa o Prêmio Visit Brasil na categoria de destaque em solução tecnológica para o turismo internacional. A premiação contempla iniciativas que contribuem para a promoção do Brasil no exterior e para a construção de uma imagem positiva do país além das fronteiras. Para uma startup fundada por quatro biólogas a partir da Universidade Federal de São Carlos, o reconhecimento numa premiação de escala nacional representa um salto de visibilidade significativo.
Da universidade ao aplicativo
O BoRa nasceu dentro da Fubá Educação Ambiental, empresa-filha da UFSCar que recebeu aporte financeiro pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP. O programa é voltado a pequenas empresas com projetos de pesquisa e desenvolvimento de alto conteúdo científico e tecnológico, e o financiamento foi determinante para que a plataforma chegasse ao nível de qualidade que apresenta hoje.
A formação das fundadoras moldou diretamente o produto. As quatro sócias são biólogas, e a escolha de cada elemento do aplicativo carrega esse olhar: os roteiros são elaborados com critério científico, os cards colecionáveis foram desenvolvidos com foco em conteúdo educativo real e as mensagens distribuídas ao longo da experiência reforçam a valorização do ambiente natural de forma consistente, sem cair no tom genérico que muitas iniciativas de sustentabilidade adotam.
Para além das fundadoras, o desenvolvimento envolveu uma equipe multidisciplinar com profissionais de computação, gestão ambiental, educação especial, marketing, comunicação, design e tradução em Libras. Essa composição explica como um aplicativo com propósito educativo conseguiu entregar também uma experiência tecnicamente sólida e visualmente coerente.
O que o aplicativo faz na prática
O BoRa oferece roteiros em áreas verdes e parques com conteúdos educativos e interativos, disponível gratuitamente para Android e iOS. O funcionamento vai além de um simples mapa de trilhas: a plataforma dá ao usuário uma prévia detalhada do que encontrará no local antes mesmo de sair de casa, permitindo que o planejamento da visita seja mais consciente e informado. Ao retornar, o visitante pode revisitar a experiência pelo próprio aplicativo, acessando os conteúdos ligados ao que observou durante o passeio.
Os cards colecionáveis são um dos elementos que tornam a proposta mais envolvente, especialmente para públicos mais jovens. Cada card carrega informações sobre espécies, ecossistemas ou conceitos de conservação relacionados ao roteiro percorrido, transformando a visita em algo que continua gerando aprendizado depois que o usuário já está em casa.
A acessibilidade foi incorporada desde o início do desenvolvimento, não como recurso adicional, mas como parte estrutural do projeto. O aplicativo conta com vídeos em Libras, audiodescrição e recursos de voz que narram os textos, além de design universal aplicado a ícones e elementos de navegação. O suporte da consultoria contratada com recursos do PIPE foi fundamental para que esses recursos atingissem o padrão técnico necessário.
Turismo sustentável como diferencial internacional
O prêmio da Embratur chama atenção porque posiciona o BoRa dentro de um debate que cresce em escala global: como o turismo pode gerar valor para os destinos naturais sem comprometer os ecossistemas que os tornam atrativos. O turismo de natureza está entre os segmentos de maior expansão no mercado internacional, e o Brasil, com a maior biodiversidade do planeta, tem um potencial imenso que ainda é subutilizado quando comparado a outros destinos que aprenderam a transformar seus recursos naturais em produto turístico estruturado.
O BoRa atua exatamente nessa lacuna. Ao criar uma camada educativa e tecnológica sobre a experiência em parques e áreas verdes, o aplicativo contribui para que o visitante estrangeiro ou nacional compreenda o que está vendo, se conecte com o ambiente de forma mais profunda e saia com uma percepção mais rica do destino. Para a Embratur, que trabalha com a imagem do Brasil no exterior, esse tipo de solução tem valor estratégico claro.
O reconhecimento conquistado na primeira edição da premiação abre perspectivas concretas de expansão para a Fubá. A equipe avalia que o prêmio deve atrair novos parceiros e ampliar a chegada do sistema a destinos turísticos que ainda não estão na plataforma. O potencial existe: o Brasil tem centenas de parques nacionais, estaduais e áreas de proteção ambiental com infraestrutura de visitação que poderiam se beneficiar de uma ferramenta com esse perfil.
O que a iniciativa revela sobre inovação de base universitária
Além do produto em si, o caso da Fubá ilustra como o ecossistema de inovação que envolve universidades federais e programas de fomento como o PIPE pode gerar soluções com impacto real e reconhecimento de mercado. A UFSCar funciona como incubadora de origem, a FAPESP entra com o financiamento de pesquisa e desenvolvimento, e o resultado é uma empresa que compete e vence num prêmio nacional ao lado de iniciativas de maior porte.
Esse modelo, quando bem executado, mostra que ciência e empreendedorismo não precisam seguir caminhos separados. A base biológica das fundadoras informou cada decisão criativa do produto, e a estrutura universitária deu o suporte técnico e financeiro para que a ideia saísse do papel com qualidade. O BoRa é, nesse sentido, tanto um aplicativo de turismo sustentável quanto uma prova de conceito de como o Brasil pode transformar conhecimento científico em tecnologia acessível e reconhecida.




