Jamil Corinto não tem diploma universitário. Nunca cursou agronomia, não frequentou laboratório de pesquisa nem publicou artigo científico. Mesmo assim, sua fazenda em Catalão, no cerrado goiano, tornou-se um dos pontos de referência mais visitados da pesquisa agroecológica brasileira — recebe estudantes de escolas agrícolas, universitários, pesquisadores, agricultores de outros estados e visitantes do exterior que chegam até lá para aprender o que ele aprendeu fazendo.
A história de Jamil é o centro do terceiro episódio da série documental “Conectar é Transformar Vidas”, produzida pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) em parceria com a Embrapa Cerrados. O vídeo, intitulado “Saberes que se espalham” e lançado em junho de 2025, vai muito além de um retrato da agricultura familiar. É um documento sobre resistência, pertencimento e sobre o tipo de herança que não se transfere em cartório.
O luto que a ciência ajudou a atravessar
Por quase duas décadas, Jamil construiu sua trajetória na Fazenda Corinalves ao lado da esposa Lucimar Alves com a perspectiva natural de que o filho, único herdeiro homem, daria continuidade ao que os dois haviam erguido. Quando perderam esse filho, a perspectiva desmoronou junto.
Foi nesse momento que a parceria de longa data com a Embrapa Cerrados, especialmente com os pesquisadores Cynthia Torres e Altair Machado, ganhou uma dimensão que vai além da técnica. O suporte científico e humano construído ao longo de anos de convivência e trabalho conjunto tornou-se um apoio concreto num período em que Jamil e Lucimar precisavam encontrar um motivo para voltar à terra.
O que emergiu desse processo foi a percepção de que o conhecimento acumulado por Jamil durante décadas não precisava de um herdeiro biológico para sobreviver. Ele poderia se tornar herança coletiva, compartilhada com quem tivesse disposição para aprender. E foi exatamente isso que aconteceu.
Um campo de experimentos chamado Corinalves
A Fazenda Corinalves não é só uma propriedade rural. Jamil, com a precisão de quem leva isso a sério, instalou uma placa identificando uma área específica da fazenda como “campo de experimento da Embrapa”. Nela, são conduzidos ensaios, unidades demonstrativas e células de seleção de variedades de milho e feijão, além do desenvolvimento e validação dos chamados corredores agroecológicos.
Os corredores são faixas contínuas e intercaladas de diferentes cultivos alimentares e espécies de plantas de cobertura, planejadas para explorar a diversidade funcional do ambiente. O objetivo é recuperar a agrobiodiversidade local, gerar renda, reduzir a dependência de insumos externos, aumentar a resiliência dos agroecossistemas e promover o acesso a alimentos produzidos de forma diversificada. Trata-se de uma abordagem que trata o solo, as plantas e o agricultor como partes de um mesmo sistema.
Esses corredores já estão presentes em diversos estados brasileiros, difundidos pelo Movimento Camponês Popular, um dos parceiros dos projetos de pesquisa. Mais do que isso: o modelo foi implantado também na Argentina e na Bolívia, no âmbito do projeto trinacional “Raízes Agroecológicas”. O que nasceu num cerrado goiano cruzou fronteiras.
O guardião de uma variedade de milho
Entre os trabalhos que Jamil conduz com autonomia total está o cuidado com a variedade de milho BRS Sol da Manhã, desenvolvida pela Embrapa. Ele escolheu ser o guardião e melhorista dessa variedade por reconhecer nela as características que atendem às necessidades do seu sistema produtivo, desde o desempenho nos ensaios conduzidos na própria propriedade até as qualidades que fazem diferença no manejo cotidiano.
A relação de Jamil com a variedade ilustra bem o que a pesquisa agroecológica participativa propõe: as atividades são desenvolvidas nas propriedades dos agricultores, a partir das demandas deles, com caráter sistêmico desde a formulação. Não se trabalha o melhoramento de uma variedade sem considerar o sistema de produção inteiro. Não se impõe uma solução técnica sem contemplar os fatores humano e ambiental envolvidos.
O resultado dessa abordagem é que Jamil hoje fala com desenvoltura sobre ganho genético, qualidade de solo, microrganismos benéficos, controle biológico e plantas de cobertura. O vocabulário científico não é decorativo: ele descreve práticas que o agricultor executa e domina.
Conectividade como ferramenta de campo
Um elemento que o vídeo destaca com cuidado é o papel da conectividade nessa trajetória. O acesso à internet, garantido pela infraestrutura da RNP que conecta instituições de ensino e pesquisa no Brasil, inclusive a Embrapa, foi determinante para que Jamil pudesse ir além do que a parceria presencial com os pesquisadores oferecia.
Com acesso à rede, ele pesquisou referências, adaptou ferramentas, aprendeu técnicas novas e participou de capacitações online, incluindo as que foram fundamentais durante o período da pandemia, quando as atividades presenciais foram interrompidas. A comunicação diária com a equipe de pesquisa passou a acontecer por canais digitais, e o agricultor ganhou acesso a publicações, vídeos e experiências de outros contextos que enriqueceram seu próprio trabalho.
Jamil foi além do consumo de informação. Com conhecimentos que buscou na internet por conta própria, construiu e instalou um biodigestor, com o qual produz gás de cozinha para uso doméstico e biofertilizante aplicado nas lavouras. Instalou energia solar e estruturou sistemas de saneamento na propriedade. A conectividade, nesse caso, não foi um benefício periférico: foi uma ferramenta de produção.
O que Jamil representa
A série “Conectar é Transformar Vidas” percorreu, em três episódios, histórias muito diferentes entre si, mas unidas pela mesma ideia central: as relações construídas em ambientes de ensino, pesquisa e inovação geram transformações que vão além dos resultados técnicos ou acadêmicos. O primeiro episódio mostrou os laços entre professores e alunos da UFRGS durante as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. O segundo acompanhou um jovem pesquisador da UFMA que ascendeu na carreira a partir das relações com seus orientadores.
Jamil encerra a trilogia representando algo maior do que sua própria história. Ele é a síntese de uma categoria de agricultor que existe em todo o Brasil: o produtor familiar que carrega décadas de saber prático acumulado, que aprendeu a observar e a adaptar antes mesmo de conhecer qualquer metodologia científica, e que, ao encontrar uma parceria séria com a pesquisa, descobre que o que tem a oferecer vale tanto quanto o que tem a receber.
Seu conhecimento, que poderia ter ficado restrito a uma única fazenda e uma única família, circula agora entre estudantes, pesquisadores, agricultores de outros estados e visitantes de outros países. As sementes de milho que ele seleciona com cuidado são parte disso. Mas as sementes que mais longe chegam são as do que ele aprendeu, viveu e decidiu compartilhar.




