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Melhoramento genético da cebola ganha cultivar híbrido adaptado ao clima úmido de Santa Catarina

Com potencial produtivo superior e baixa suscetibilidade a doenças foliares, o novo material da Epagri aponta para um salto tecnológico na cebolicultura do Sul do Brasil

Revisão: Derick Machado
6 de junho de 2026
in Agro do Futuro & Inovação
Por Renata Rosa, jornalista bolsista da Epagri/Fapesc

Por Renata Rosa, jornalista bolsista da Epagri/Fapesc

A cebolicultura catarinense está diante de uma mudança de patamar. Depois de uma década de trabalho minucioso de seleção, purificação genética e testes de campo, a Estação Experimental da Epagri em Ituporanga (EEITU) se aproxima do lançamento do primeiro cultivar híbrido de cebola desenvolvido especificamente para as condições climáticas do Alto Vale do Itajaí, uma das regiões mais úmidas e produtivas do estado.

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O desafio não é pequeno. Desenvolver um híbrido de cebola com alto desempenho agronômico, uniformidade de bulbos e resistência às doenças foliares típicas de regiões com elevada umidade relativa do ar exige um processo que vai muito além do cruzamento convencional entre plantas. O engenheiro-agrônomo e pesquisador Daniel Pedrosa Alves conduz o programa desde 2014 e projeta iniciar o processo de registro no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) em 2026, após a conclusão do terceiro e último ciclo de testes em campo.

“Este ano faremos o terceiro e último teste no campo com os híbridos selecionados, que começamos a plantar em 2021. Os resultados até o momento foram bastante satisfatórios, alguns apresentam bom potencial produtivo e são pouco suscetíveis a doenças. Nosso maior problema aqui são as doenças foliares, por causa da elevada umidade. Os cultivares híbridos existentes não são adaptadas ao nosso clima, e sim a clima seco”, revela Alves.

Por que o híbrido muda o jogo

A distinção entre cultivares de polinização aberta (OP) e híbridos vai além da tecnologia de produção de sementes. Na prática, os híbridos entregam ao produtor um conjunto de características agronômicas que dificilmente são alcançadas nos materiais convencionais. Plantas mais uniformes e homogêneas facilitam o manejo e colheita mecanizada, a maturação mais sincronizada reduz perdas por colheita escalonada e o maior vigor inicial garante estande mais regular mesmo em condições de solo adversas.

A EEITU, fundada em 1984, já lançou dez cultivares de cebola no sistema de polinização aberta ao longo de sua história. O cultivar híbrido em desenvolvimento representa, contudo, uma mudança de categoria, com vantagens que incluem também melhor padrão comercial dos bulbos e maior retorno econômico por área cultivada.

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O reflexo disso no campo já é visível em escala global. Os cultivares híbridos dominam as principais regiões produtoras de cebola de alto rendimento no mundo. Em Santa Catarina, porém, apenas 5% da área cultivada faz uso desse tipo de semente, justamente porque os materiais disponíveis no mercado não se adaptaram às condições ambientais do estado. É essa lacuna que a pesquisa busca preencher.

Dezesseis anos de genética aplicada

O programa foi desenhado para operar em duas frentes simultâneas: a obtenção de linhas genéticas puras e a geração contínua de híbridos experimentais para avaliação em campo. Em condições ideais, são necessárias oito gerações de autofecundação para garantir a pureza genética dos genitores, o que, em ciclos anuais, representaria 16 anos de trabalho. A meta do pesquisador é atingir 93,75% de pureza, o que já permite combinações híbridas com alta previsibilidade de desempenho.

Para viabilizar esse processo, a EEITU investiu entre 2014 e 2019 na ampliação de estufas com gaiolas específicas para polinização controlada com insetos, reforço do corpo técnico e estruturação de laboratório para análise de DNA. Hoje, o banco de genitores da estação conta com mais de 400 indivíduos, capazes de gerar mais de 70 mil combinações híbridas possíveis.

“Atualmente, já contamos com mais de 400 genitores, capazes de gerar mais de 70 mil combinações híbridas”, destaca Alves. “Dessa forma, o trabalho de purificação e formação de novos genitores segue continuamente, enquanto híbridos promissores já podem ser avaliados em campo”.

Como testar dezenas de milhares de combinações em condições reais é operacionalmente inviável, a estratégia consiste em desenvolver cerca de dez híbridos por ano, selecionados por critérios moleculares e agronômicos antes mesmo de irem ao campo. Os híbridos avaliados na EEITU passam por análise de formato, cor e tamanho de bulbos, produtividade e comportamento frente às doenças foliares mais comuns da região.

Parceria com análise molecular fortalece a seleção

Para dar suporte às etapas de triagem genética, a EEITU firmou parceria com a Estação Experimental da Epagri em Itajaí (EEI), onde são realizadas as análises moleculares que permitem identificar a combinação genética mais promissora antes dos testes de campo. Essa divisão de competências torna o processo mais eficiente: Ituporanga concentra os trabalhos de campo e produção de sementes, enquanto Itajaí opera as ferramentas de diagnóstico genético.

Além disso, o programa mantém projetos em parceria com três empresas privadas do setor, nas quais dezenas de novos híbridos são desenvolvidos anualmente. Essa colaboração amplia o portfólio de combinações testadas sem sobrecarregar a infraestrutura pública, ao mesmo tempo em que projeta resultados que possam superar qualquer cultivar de polinização aberta em uso no estado.

O avanço tende a reposicionar Santa Catarina dentro do mapa da cebolicultura nacional. Com um cultivar híbrido adaptado ao clima úmido do Sul, a expectativa é elevar o nível tecnológico da cultura, aumentar a produtividade por hectare e abrir espaço para que produtores familiares e médios produtores do Vale do Itajaí acessem uma tecnologia que, até agora, atendia principalmente outras realidades climáticas do mundo.

Via: Por Renata Rosa, jornalista bolsista da Epagri/Fapesc
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