Existe uma conta que raramente aparece nos debates sobre meio ambiente: quantos empregos uma floresta em pé, ou uma floresta sendo replantada, é capaz de gerar. Um estudo inédito, coordenado por pesquisadores da Universidade de São Paulo e da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, resolveu fazer esse cálculo com precisão. O resultado surpreende até quem já acompanha de perto a agenda ambiental brasileira: restaurar florestas nativas pode gerar entre 1 milhão e 2,5 milhões de empregos diretos no país até 2030.
A pesquisa, publicada na revista científica People and Nature, nasceu com apoio de organizações como o WRI Brasil, a The Nature Conservancy Brasil, a Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica e a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. O trabalho chega em um momento simbólico. A ONU declarou 2021 a 2030 como a Década da Restauração de Ecossistemas, um chamado global para reverter décadas de degradação ambiental. O estudo brasileiro entrega o que faltava para transformar esse discurso em política pública concreta: números.
Como os pesquisadores chegaram ao potencial de 2,5 milhões de vagas
A metodologia parte de um dado simples e, ao mesmo tempo, revelador. Os pesquisadores analisaram 356 instituições que já atuam na cadeia da restauração florestal em 25 unidades da federação, mapeando quantos postos de trabalho são gerados por hectare recuperado através de restauração ativa, ou seja, com plantio de mudas e sementes. O número encontrado foi de 0,42 emprego por hectare, o que na prática significa um posto de trabalho a cada dois hectares restaurados, o equivalente a dois campos de futebol.
A partir desse coeficiente, a equipe projetou dois cenários usando como base a meta do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, que prevê restaurar 12 milhões de hectares até 2030. No primeiro cenário, com 20% de restauração ativa e 80% de regeneração natural, a estimativa chega a 1 milhão de empregos. No segundo, mais ambicioso, com 50% de restauração ativa, o número sobe para 2,5 milhões de postos de trabalho diretos.
Vale destacar que os autores optaram por uma abordagem conservadora. Estudos realizados nos Estados Unidos mostram que a inclusão dos empregos indiretos, aqueles gerados na cadeia de fornecedores, comércio e serviços associados, poderia praticamente dobrar esse total. Mesmo assim, a equipe decidiu trabalhar apenas com dados reais de organizações brasileiras para garantir a solidez da estimativa.
Onde esses empregos já existem e onde ainda faltam
O levantamento revela uma concentração geográfica que expõe tanto uma conquista quanto um desafio. Atualmente, 61% dos trabalhos de restauração no Brasil estão na região Sudeste, com um terço concentrado apenas no estado de São Paulo. A Mata Atlântica, bioma pioneiro nesse tipo de atividade no país, responde por 85% dos empregos existentes na cadeia.
Esse desequilíbrio expõe uma oportunidade clara. Biomas como Amazônia, Cerrado, Caatinga, Pantanal e Pampa ainda têm participação marginal na cadeia produtiva da restauração, apesar de concentrarem boa parte das áreas degradadas do país. Expandir a atividade para essas regiões não apenas distribuiria melhor os benefícios econômicos, como também atacaria o problema ambiental onde ele é mais urgente.
O que está por trás de cada posto de trabalho
A cadeia da restauração vai muito além do ato de plantar uma muda. Ela envolve a coleta de sementes nativas, a produção de mudas em viveiros, o plantio propriamente dito, a manutenção das áreas recuperadas ao longo dos anos seguintes, o monitoramento técnico e serviços de consultoria ambiental. Cada uma dessas etapas exige mão de obra especializada, e boa parte dela pode ser realizada por trabalhadores rurais e comunidades tradicionais com profundo conhecimento sobre biodiversidade, mas historicamente pouco inseridos no mercado formal de trabalho.
Um dado adicional relevante e pouco explorado pelo estudo original merece atenção: a comparação com outras cadeias produtivas do campo. Enquanto a restauração florestal ativa gera 0,42 emprego por hectare, o cultivo de soja no Brasil gera aproximadamente um emprego a cada dez hectares. A diferença mostra que restaurar floresta pode ser, proporcionalmente, uma atividade mais intensiva em geração de emprego do que boa parte da agricultura de commodities que domina o uso da terra no país.
Outro ponto que amplia a relevância econômica do estudo é o impacto no PIB. Levantamentos complementares do WRI Brasil apontam que a recuperação de pastagens degradadas poderia incrementar o Produto Interno Bruto brasileiro em cerca de R$ 19 bilhões, reforçando que a restauração não compete com a produção agropecuária, mas pode conviver com ela em terras que hoje estão subutilizadas ou degradadas.
O desafio da sazonalidade
Nem tudo são vantagens automáticas. O próprio estudo reconhece que 57,3% dos empregos gerados pela cadeia da restauração são temporários, concentrados em períodos de maior demanda, como as épocas de plantio. Isso significa que, sem estratégias de diversificação das atividades ao longo do ano, parte considerável dessas vagas pode não se converter em renda estável para os trabalhadores envolvidos.
A solução apontada pelos próprios pesquisadores está na diversificação da cadeia produtiva. Atividades como coleta de sementes, produção de mudas, monitoramento de longo prazo e produção de produtos florestais não madeireiros, como frutas, óleos e castanhas, demandam mão de obra ao longo de todo o ano, e não apenas nos meses de plantio. Investir nessas frentes complementares pode transformar empregos sazonais em ocupações permanentes.
Um exemplo prático de como isso já funciona
O Legado das Águas, maior reserva privada de Mata Atlântica do país, ilustra na prática o que o estudo descreve em números. A área combina pesquisa científica, produção de mudas para reflorestamento e turismo ecológico, gerando emprego e renda direta para comunidades do entorno e fortalecendo cadeias produtivas locais associadas à floresta em pé. Esse tipo de modelo integrado é exatamente o que os pesquisadores apontam como caminho para escalar a restauração no restante do território brasileiro.
O que vem depois dos números
O estudo deixa claro que transformar esse potencial em realidade depende de decisões políticas concretas. Segurança jurídica para produtores rurais que se comprometem com a restauração, financiamento de longo prazo e distribuição equilibrada de investimentos entre os diferentes biomas brasileiros são apontados como condições essenciais para que a cadeia da restauração deixe de ser uma atividade concentrada em poucas regiões e se torne, de fato, um motor nacional de geração de emprego e renda.
Com a Década da Restauração da ONU avançando até 2030, o Brasil tem diante de si uma janela de oportunidade rara: transformar o compromisso ambiental de recuperar 12 milhões de hectares em uma das maiores frentes de geração de emprego formal e informal do meio rural nas próximas décadas.
Referências
- WRI Brasil — Restauração já criou milhares de empregos no Brasil: https://www.wribrasil.org.br/noticias/restauracao-ja-criou-milhares-de-empregos-no-brasil-e-tem-potencial-para-criar-milhoes
- The Nature Conservancy Brasil — Restauração de Ecossistemas pode gerar até 2,5 milhões de empregos: https://www.tnc.org.br/conecte-se/comunicacao/noticias/empregos-restauracao/
- CNN Brasil — Recuperação de mata nativa pode gerar 2,5 milhões de empregos até 2030: https://cnnbrasil.com.br/economia/recuperacao-de-mata-nativa-no-brasil-pode-gerar-25-milhoes-de-empregos-ate-2030
- Aliança pela Restauração na Amazônia — Brasil pode gerar até 2,5 milhões de empregos: https://aliancaamazonia.org.br/2022/09/05/brasil-pode-gerar-ate-25-milhoes-de-empregos-se-cumprir-meta-de-restauracao-de-ecossistemas/
- SOBRE (Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica) — Publicação original do estudo: https://www.sobrestauracao.org/single-post?id=307




