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De 3.298 para 411 hectares: a queda de desmatamento que coloca o Paraná no topo da conservação da Mata Atlântica

Tecnologia de monitoramento por satélite e políticas de incentivo financeiro aos municípios explicam por que o Estado teve a terceira maior redução do país entre 2020 e 2025

Escrito por: Mania de Plantas
1 de julho de 2026
in Eco, Clima & Sustentabilidade
Foto: Denis Ferreira Netto/SEDEST

Foto: Denis Ferreira Netto/SEDEST

A Mata Atlântica já perdeu cerca de 88% de sua cobertura original e hoje sobrevive em fragmentos que somam pouco mais de 12% da área que um dia cobriu o litoral e o interior brasileiro. Diante desse cenário de devastação histórica, qualquer sinal de reversão ganha peso desproporcional, e é exatamente isso que os dados mais recentes do Paraná revelam. Entre 2020 e 2025, o Estado reduziu em 87,5% a área de desmatamento do bioma, saindo de 3.298 hectares suprimidos para apenas 411 hectares no período mais recente.

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O levantamento é do Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD) Mata Atlântica, ferramenta desenvolvida pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o MapBiomas e a Arcplan, que monitora mensalmente qualquer supressão vegetal a partir de 0,3 hectare em toda a área de aplicação da Lei da Mata Atlântica. O desempenho paranaense fica atrás apenas do Rio Grande do Sul, que reduziu o desmatamento em 92,6% no mesmo intervalo, e de São Paulo, com queda de 88,7%. Para efeito de comparação, a média nacional de redução no período foi de 59,6%, com o país passando de 21.474 hectares desmatados para 8.658 hectares.

Um bioma que não pode se dar ao luxo de recuar mais

Entender a relevância desse número exige olhar para o que restou da Mata Atlântica. O bioma abriga cerca de 20 mil espécies de plantas vasculares, das quais 8 mil são endêmicas, o que significa que não existem em nenhum outro lugar do planeta. Entre os animais, a floresta é lar de espécies simbólicas como a onça-pintada, o mico-leão-dourado e o bicho-preguiça, além de mais de 260 espécies de mamíferos e centenas de aves, répteis e anfíbios que dependem diretamente da vegetação nativa para sobreviver.

Essa combinação de altíssima biodiversidade com um grau de destruição que já supera os 75% da cobertura original é justamente o que torna a Mata Atlântica um dos cinco hotspots de biodiversidade reconhecidos mundialmente pela Conservação Internacional. Cada hectare recuperado ou preservado carrega, portanto, um peso ecológico muito maior do que sugere o número isolado, porque cada fragmento remanescente concentra uma densidade de vida que poucos outros ambientes no planeta conseguem igualar.

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O que está por trás da queda no Paraná

O secretário estadual do Desenvolvimento Sustentável, Everton Souza, atribui o resultado a uma combinação de monitoramento intensivo e ação coordenada no território. “Reduzir o desmatamento ilegal é uma obsessão no Paraná, há uma concentração de esforços, liderada pelo governador Ratinho Junior, para que isso aconteça. Estamos monitorando, fiscalizando e multando, e assim conseguimos salvar muitas florestas, garantir um Paraná sustentável para as futuras gerações”, destaca o secretário.

A engrenagem por trás desse resultado começou a ganhar forma em 2019, quando o Instituto Água e Terra (IAT) implementou o Núcleo de Inteligência Geográfica e da Informação (NGI), responsável por identificar e delimitar áreas de dano ambiental e direcionar as equipes de fiscalização com precisão. A partir daí, o Estado passou a operar com três plataformas de monitoramento por satélite simultâneas, entre elas a Rede MAIS, criada em parceria com a Polícia Federal em 2023, que funciona como uma rede colaborativa de imagens em alta resolução capaz de gerar alertas quase em tempo real.

O ganho de sensibilidade dessas ferramentas é um dado que costuma passar despercebido, mas que ajuda a explicar boa parte do avanço. Até 2020, os sistemas de monitoramento só conseguiam identificar desmatamentos acima de 1 hectare. Hoje, a tecnologia já detecta supressões a partir de 0,3 hectare, o que amplia enormemente a capacidade de flagrar irregularidades antes que se espalhem.

A engenheira florestal do IAT, Aline Canetti, resume o impacto dessa modernização. “A tecnologia permitiu uma grande otimização das ações de fiscalização, reduzindo custos, a necessidade de recursos humanos e o tempo de resposta para a tomada de providências. Ela também trouxe mais segurança técnica aos agentes fiscais, que agora dispõem de informações precisas geradas a partir do geoprocessamento e da análise de imagens do satélite e de bancos de dados como o CAR”, ressalta a engenheira.

Dinheiro público como ferramenta de conservação

Fiscalização e tecnologia explicam parte da equação, mas o Paraná também investiu em um mecanismo financeiro que muda o incentivo econômico dos municípios: o ICMS Ecológico por Biodiversidade. O programa destina 5% do total do ICMS estadual para prefeituras que abrigam Unidades de Conservação, Terras Indígenas, Áreas Especiais de Uso Regulamentado ou mananciais de abastecimento para cidades vizinhas.

Somente em 2025, o governo estadual repassou R$ 659,6 milhões aos municípios paranaenses por meio desse mecanismo, uma média de R$ 54,9 milhões mensais e um crescimento de 3,7% em relação ao ano anterior. Na prática, isso transforma a preservação ambiental em fonte de receita municipal, criando um incentivo direto para que prefeituras protejam e ampliem suas áreas verdes em vez de vê-las como obstáculo ao desenvolvimento local.

Há ainda o Pagamento por Serviços Ambientais Municipal, que concede incentivo financeiro a proprietários de Reservas Particulares do Patrimônio Natural, reforçando a lógica de que conservar também pode ser economicamente vantajoso para quem cuida da terra.

O contraste que revela o tamanho do desafio nacional

Colocar o resultado paranaense em perspectiva nacional ajuda a entender por que ele chama tanto a atenção. Levantamentos anteriores do próprio Atlas dos Remanescentes Florestais, que monitora fragmentos acima de três hectares desde 1990, mostram que a média de redução de desmatamento no país como um todo tem sido tímida. Entre 2023 e 2024, por exemplo, a queda média nacional na perda de florestas maduras foi de apenas 2%, o que especialistas classificam como insuficiente diante da urgência de recuperação do bioma.

Além disso, o padrão de uso da terra desmatada varia bastante entre regiões. Em estados como Bahia e Minas Gerais, predominam grandes propriedades avançando sobre a floresta. Já no Sul do país, onde se concentra uma agricultura familiar mais antiga, o desmatamento costuma ocorrer em pequenas e médias propriedades, corroendo principalmente as bordas dos fragmentos remanescentes. Esse dado ajuda a explicar por que o resultado do Paraná é particularmente significativo: reduzir o desmatamento numa região de propriedades pulverizadas exige capilaridade de fiscalização que sistemas de monitoramento concentrados em grandes áreas não conseguem oferecer com a mesma eficácia.

O que ainda falta para a floresta respirar de verdade

Apesar do avanço expressivo, pesquisadores que acompanham a recuperação da Mata Atlântica no país fazem questão de lembrar que reduzir o desmatamento não é o mesmo que eliminá-lo. Mesmo em regiões que registraram quedas acentuadas, o ideal ecológico seria a desmatamento zero, já que qualquer supressão em fragmentos florestais já reduzidos a menos de 13% de sua extensão original tem impacto desproporcional sobre espécies que dependem de grandes áreas contínuas para se manter geneticamente viáveis.

O resultado paranaense mostra, ainda assim, que investimento coordenado em tecnologia de monitoramento, presença de campo e incentivo financeiro aos municípios consegue produzir uma curva de queda consistente ano após ano. É esse tipo de política sustentada no tempo, e não apenas uma ação isolada, que tende a fazer a diferença real na tentativa de conter o avanço sobre um dos biomas mais ameaçados e mais biodiversos do planeta.

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