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A palmeira que está sumindo da Mata Atlântica e o plano do Paraná para trazê-la de volta

Em ação inédita, Instituto Água e Terra lança 700 mil sementes de juçara do ar em quatro parques estaduais do Litoral, em áreas onde a extração ilegal deixou rastros

Escrito por: Agronamidia Revisão: Derick Machado
6 de junho de 2026
in Mundo Botânico & Ciência
Foto: COA-IAT

Foto: COA-IAT

O palmito-juçara já foi uma das espécies mais abundantes da Mata Atlântica brasileira. Distribuída de forma natural do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, a palmeira (Euterpe edulis) abasteceu por décadas a indústria alimentícia com seu palmito saboroso — e pagou um preço alto por isso. O extrativismo predatório a colocou na lista oficial de espécies ameaçadas de extinção, e hoje restam fragmentos de uma presença que já foi dominante no bioma.

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Na última quarta-feira (3), o Instituto Água e Terra (IAT) executou uma das respostas mais ambiciosas já tentadas no Paraná para reverter esse processo: a dispersão aérea de 700 mil sementes de juçara em quatro Unidades de Conservação do Litoral paranaense, usando aeronaves do Centro de Operações Aéreas do próprio órgão. Os alvos foram o Parque Estadual do Rio da Onça (Matinhos), a Estação Ecológica de Guaraguaçu (Paranaguá), o Parque Estadual do Boguaçu (Guaratuba) e o Parque Estadual Pico do Marumbi, que abrange os municípios de Morretes, Piraquara e Quatro Barras.

Não foi um lançamento aleatório

A escolha das áreas contempladas na ação seguiu um critério preciso. Os gestores de cada unidade de conservação indicaram as coordenadas onde foram registradas extrações ilegais da planta, mapeando os pontos mais críticos da devastação para concentrar o esforço de restauração justamente onde o dano foi maior.

“Essas áreas foram escolhidas pelos gestores das Unidades de Conservação em coordenadas onde foram registrados crimes ambientais, incluindo a extração ilegal da planta. Não é um lançamento aleatório, ele será monitorado posteriormente para verificar a eficácia da ação”, explica José Volnei Bisognin, diretor-presidente do IAT.

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O monitoramento posterior é parte essencial do projeto. A germinação da juçara é lenta e heterogênea — a espécie é altamente adaptada ao sub-bosque, aquela faixa de vegetação de baixo porte que cresce sob a copa das árvores maiores, onde a luz é escassa e a umidade é constante. Essa adaptação faz com que as sementes possam permanecer dormentes no solo por períodos prolongados, aguardando as condições ideais de luz e umidade para brotar. O banco de sementes que se forma naturalmente em áreas de Mata Atlântica bem conservada é uma das estratégias evolutivas mais eficientes da espécie, e a dispersão aérea busca recriar artificialmente esse processo onde ele foi interrompido pela ação humana.

Uma rede de parceiros por trás das sementes

As 700 mil sementes utilizadas na ação vieram de duas fontes: coletas próprias do IAT e doações de parceiros institucionais que trabalham diretamente com a conservação da juçara no estado. O Instituto de Estudos Ambientais Mater Natura, o Instituto Juçara de Agroecologia e a Associação de Produtores Orgânicos de Quedas do Iguaçu Produzindo Vida (APOQI) contribuíram com parte do material. O Distrito 4730 do Rotary Club também apoiou a iniciativa.

“Buscamos com essa iniciativa o ressurgimento do palmito-juçara no Litoral do Paraná. Isso sim é pensar no meio ambiente, uma visão de futuro para a Mata Atlântica”, afirma Marcelo Passos, governador do Distrito 4730 do Rotary.

A diversidade de origens das sementes é relevante do ponto de vista genético: material coletado em diferentes localidades e contextos amplia a variabilidade genética da população reintroduzida, o que fortalece a resiliência da espécie a longo prazo.

Por que a juçara importa além do palmito

A extinção local da juçara não afeta apenas a cadeia produtiva do palmito. A planta é um pilar ecológico da Mata Atlântica, com papel central na cadeia alimentar do bioma. Seus frutos são consumidos por dezenas de espécies de aves e mamíferos: tucanos, jacutingas, jacus, sabiás e arapongas estão entre os principais dispersores naturais das sementes, enquanto cutias, antas, catetos e esquilos se alimentam tanto dos frutos quanto das sementes. Quando a juçara desaparece de um fragmento florestal, essa rede de interações se desfaz, comprometendo a reprodução de outras espécies que dependem dela indiretamente.

A palmeira pode atingir entre 10 e 20 metros de altura, mas leva aproximadamente seis anos para chegar ao estágio reprodutivo. Essa característica biológica torna a restauração de longo prazo um exercício de paciência — e de planejamento. A dispersão aérea surge como alternativa viável exatamente porque permite cobrir áreas extensas de forma rápida e alcançar terrenos de difícil acesso para plantio manual, algo que seria logisticamente inviável na escala necessária para impactar a regeneração do bioma.

Uma ação pensada para se repetir

A intenção do IAT é que a dispersão aérea não seja um evento isolado. O órgão mantém 19 viveiros distribuídos pelo Paraná, com capacidade de fornecer mudas para a população, e enxerga na ação uma oportunidade de ampliar o engajamento da sociedade com a conservação da Mata Atlântica. Bisognin reforça que qualquer pessoa pode colaborar com o plantio da espécie em sua própria propriedade, contribuindo para a recuperação ambiental do estado.

Altamir Hacke, chefe da regional do IAT no Litoral, resume o espírito da iniciativa: “É uma ação que planejamos executar novamente no futuro, uma iniciativa importante para a regeneração do meio ambiente que precisa ser repetida sempre.”

A regeneração da Mata Atlântica é uma das metas ambientais mais complexas e urgentes do Brasil. Com apenas cerca de 12% da cobertura original preservada, o bioma depende de ações combinadas de proteção, fiscalização e restauração ativa. O que o IAT fez no Litoral paranaense não resolve sozinho o problema, mas é um passo concreto na direção certa: devolver à floresta o que o extrativismo retirou, semente por semente.

Fonte: AEN
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