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Novas cultivares de abacaxi da Embrapa resistem à fusariose e dobram a produtividade

BRS Sol Bahia e BRS Diamante colocam o Brasil em nova era da abacaxicultura, com menos perdas e frutos mais firmes

Revisão: Derick Machado
19 de maio de 2026
in Noticias
Novas cultivares de abacaxi da Embrapa resistem à fusariose e dobram a produtividade
Resumo

• As novas cultivares BRS Sol Bahia e BRS Diamante, lançadas pela Embrapa, mostram resistência total à fusariose e transformam o cenário da abacaxicultura brasileira.
• A produtividade das variedades pode ultrapassar 56 t/ha, mais que o dobro da média nacional, com frutos firmes, doces e adequados ao transporte.
• O manejo exige colheita com casca parcialmente amarela, demandando mudança na percepção do consumidor sobre o ponto ideal de maturação.
• Minas Gerais lidera a adoção das cultivares, impulsionando a agricultura familiar e fortalecendo a produção sustentável no Triângulo Mineiro.
• A nova tecnologia reduz o uso de fungicidas, melhora a segurança alimentar e posiciona o Brasil de forma mais competitiva no mercado mundial de abacaxi.

A fotografia registrada em Frutal (MG), em 2023, marcou um divisor de águas para os produtores de abacaxi no Brasil. De um lado da plantação, as fileiras da tradicional cultivar Pérola completamente destruídas por fusariose. Do outro, os canteiros vizinhos exibiam frutos saudáveis e vibrantes, intactos diante da mesma ameaça. A diferença? Ali cresciam as novas variedades da Embrapa: BRS Sol Bahia e BRS Diamante.

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A imagem sintetiza uma revolução silenciosa, mas poderosa, que estava sendo gestada nos bastidores da pesquisa agrícola brasileira. O lançamento oficial dessas cultivares representa não apenas um avanço no combate a uma das doenças mais severas da cultura do abacaxi, mas também uma nova perspectiva de rentabilidade e segurança para pequenos e grandes produtores.

Fusariose: uma ameaça invisível que compromete tudo

Causada pelo fungo Fusarium guttiforme, a fusariose não afeta apenas folhas ou partes isoladas da planta — ela elimina o valor comercial do fruto por completo. Em surtos severos, pode atingir 100% da lavoura, comprometendo o investimento de um ano inteiro. Não há margem de reaproveitamento: o abacaxi perde totalmente seu apelo ao consumidor e torna-se inutilizável para o comércio.

Foi em meio a um desses surtos que os pesquisadores da Embrapa confirmaram, no campo, aquilo que já se provava em laboratório: as novas cultivares apresentavam resistência total ao patógeno, mesmo em áreas onde a variedade Pérola sofria perdas catastróficas.

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Cultivares irmãs, propósitos distintos

As novas variedades foram batizadas de forma simbólica. O BRS Sol Bahia tem polpa creme, maturação antecipada em relação à colheita da variedade tradicional e um sabor intensamente adocicado. Já o BRS Diamante traz maior peso médio e janela comercial ampliada, permitindo uma logística mais flexível para comercialização.

Ambas apresentam características valiosas: espinhos reduzidos, frutos mais firmes (resistentes ao transporte e manuseio) e produtividade impressionante, que pode ultrapassar 56 toneladas por hectare — mais que o dobro da média nacional, que gira em torno de 26 t/ha.

Uma década de pesquisa até a virada de chave

O caminho até o lançamento das novas cultivares começou em 2012, com o cruzamento genético de uma variedade amazônica resistente e a cultivar Gold (MD-2). Foram necessários três ciclos de plantio, com experimentos realizados em condições de campo a partir de 2018. Em 2023, os testes finais revelaram a robustez dos novos híbridos frente a um cenário real de pressão da doença.

Durante esse período, produtores como Júlio Cesar Leonel acompanharam, ao vivo, o colapso das lavouras comerciais ao lado da resiliência das plantas experimentais. O resultado foi tão expressivo que ele decidiu reduzir drasticamente o cultivo da Pérola e apostar nas variedades da Embrapa.

Um novo olhar sobre colheita e percepção do consumidor

Um aspecto técnico importante diferencia o manejo dos novos abacaxis: eles não podem ser colhidos verdes. Ao contrário da variedade Pérola, que é cortada ainda verde para amadurecer fora da planta, o Sol Bahia e o Diamante devem ser colhidos com coloração parcial — entre 50% e 75% da casca amarela.

Essa exigência esbarra num hábito de mercado: o consumidor brasileiro costuma associar o abacaxi amarelo a um produto passado ou excessivamente maduro. A mudança exige, portanto, educação do consumidor e do comércio para que o potencial das novas cultivares seja totalmente aproveitado.

Frutal e o protagonismo mineiro na nova fase da abacaxicultura

O lançamento oficial das cultivares ocorreu em Frutal (MG), município que concentra a maior área plantada com abacaxi em Minas Gerais. O estado, aliás, ocupa a terceira posição nacional na produção, com estimativa de 160 mil toneladas anuais, sendo que 80% desse volume é gerado por agricultores familiares.

Segundo a Emater-MG, o cultivo do abacaxi tem se consolidado como uma alternativa altamente rentável para diversificação das pequenas propriedades, gerando renda e estabilidade nas regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba.

Economia no campo e mais saúde para quem consome

O impacto da resistência genética vai além da lavoura. Como as novas cultivares dispensam o uso de fungicidas no controle da fusariose, os produtores reduzem custos com insumos e o consumidor final recebe frutos mais seguros, livres de resíduos químicos.

Segundo a Embrapa, o conceito de resistência total é crucial: as plantas não apenas suportam a presença do fungo, mas o bloqueiam completamente. É um salto qualitativo em comparação à tolerância parcial, que ainda permite danos invisíveis.

Produção em escala: Rede Ananás garante mudas seguras

Para atender à demanda nacional, a Embrapa estruturou a Rede Ananás, que une biofábricas, viveiristas e produtores especializados. A multiplicação das mudas é feita via micropropagação e seccionamento de talos, garantindo identidade genética e sanidade das plantas.

A recomendação é adquirir mudas apenas de produtores licenciados, cujas seleções seguem os critérios estabelecidos pela Embrapa. O edital de licenciamento já foi lançado e os resultados finais estão previstos para os próximos meses.

Brasil assume nova posição no cenário internacional

Com cerca de 1,5 bilhão de frutos por ano, o Brasil é o quarto maior produtor mundial de abacaxi, segundo dados da FAO. No entanto, a alta incidência de fusariose nas cultivares mais populares limitava a competitividade do setor nos últimos anos.

Com o lançamento do Sol Bahia e do Diamante, esse gargalo começa a ser superado. A tecnologia atende diretamente aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, especialmente o ODS 2, que trata da agricultura sustentável e segurança alimentar.

Expansão nacional e novos testes em campo

Após o lançamento em Frutal, os próximos destinos da campanha de divulgação são Itaberaba (BA), em dezembro de 2025, e São Francisco do Itabapoana (RJ), no segundo semestre de 2026. As validações agronômicas já foram realizadas em oito estados brasileiros, incluindo Pará, Ceará e Espírito Santo.

A tecnologia está consolidada. Agora, o próximo passo é popularizar seu uso e preparar o setor para uma nova fase da fruticultura nacional.

Via: agroemcampo
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