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Bromélia inédita da Mata Atlântica é identificada após floração no Jardim Botânico do Rio

Revisão: Derick Machado
19 de maio de 2026
in Jardinagem & Cuidados
Foto: Bruno Rezende/Divulgação

Foto: Bruno Rezende/Divulgação

Espécie rara, de inflorescência em tons de laranja e lilás, foi coletada no sul da Bahia e reforça a importância da conservação da flora brasileira

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Mesmo em um dos biomas mais estudados do país, a Mata Atlântica ainda guarda surpresas. Prova disso é a identificação de uma nova espécie de bromélia pelos pesquisadores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, resultado de um trabalho cuidadoso que começou em campo e só se confirmou meses depois, já em cultivo controlado. A planta, agora oficialmente descrita como Wittmackia aurantiolilacina, chama atenção não apenas pela beleza singular de suas flores, mas também por seu valor científico e conservacionista.

A história da descoberta teve início em agosto de 2023, quando a espécie foi coletada no Parque Nacional do Alto Cariri, no sul da Bahia, em uma região de transição próxima à divisa com Minas Gerais. O local, afastado do litoral e inserido em um trecho ainda preservado da Mata Atlântica, revelou um exemplar até então desconhecido da ciência.

Do campo ao bromeliário: o caminho até a identificação

No momento da coleta, a bromélia não apresentava flores, o que impossibilitou uma identificação precisa. Por isso, os pesquisadores optaram por introduzi-la em cultivo no bromeliário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e também no Refúgio dos Gravatás, em Teresópolis. Foi apenas em julho de 2024, com o surgimento da inflorescência, que se tornou possível confirmar tratar-se de uma nova espécie.

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O nome aurantiolilacina faz referência direta às cores de suas flores, que combinam tons de laranja e lilás, um contraste pouco comum dentro do gênero Wittmackia. Segundo o biólogo Bruno Rezende, responsável por acompanhar a espécie, esse detalhe foi determinante para diferenciá-la de outras bromélias já conhecidas. “A nova espécie se distingue principalmente pela coloração singular da inflorescência, além das proporções e das formas específicas das sépalas e pétalas”, explica.

Veja também: Nova flor azul da Mata Atlântica revela riqueza escondida em formação rochosa da Bahia

Características botânicas e semelhanças com outras espécies

Apesar da coloração única, a nova bromélia mantém características estruturais típicas do gênero Wittmackia. A inflorescência é simples, sem ramificações, com flores espaçadas e uma roseta foliar pouco definida, o que a aproxima visualmente de espécies aparentadas. Ainda assim, as diferenças cromáticas e morfológicas são suficientes para justificar sua descrição como uma espécie inédita.

Bromélia inédita da Mata Atlântica é identificada após floração no Jardim Botânico do Rio
Foto: Bruno Rezende/Divulgação

Bruno Rezende destaca que a espécie mais próxima é a Wittmackia bicolor, bastante conhecida entre botânicos. “Enquanto a Wittmackia bicolor apresenta inflorescência amarela com pétalas brancas, a nova espécie exibe uma combinação de cores completamente distinta, o que evidencia bem as diferenças visuais entre elas”, observa.

Uma bromélia epífita e adaptada à meia-sombra

As análises realizadas após o cultivo indicam que a Wittmackia aurantiolilacina é uma espécie epífita, ou seja, cresce naturalmente sobre galhos de árvores, sem retirar nutrientes diretamente do solo. Essa adaptação influencia diretamente suas exigências de cultivo, que incluem meia-sombra, boa ventilação e substrato extremamente bem drenado.

No Jardim Botânico, a espécie vem sendo cultivada em uma mistura equilibrada de areia lavada e terra vegetal, proporção que garante drenagem eficiente e liberação gradual de nutrientes. A rega é feita de forma moderada, evitando qualquer acúmulo excessivo de água, condição essencial para a saúde das raízes e da roseta foliar.

Sobre o ciclo da planta, Bruno ressalta que as observações iniciais indicam floração concentrada no inverno, um comportamento que também ajuda a diferenciá-la de outras bromélias da mesma região. “As evidências sugerem que se trata de uma espécie epífita, com floração ocorrendo preferencialmente nos meses mais frios”, afirma.

Veja também: Estudo revela efeito anti-inflamatório e analgésico de planta nativa usada na medicina popular

Risco de extinção e alerta para conservação

Além do valor ornamental e científico, a nova bromélia acende um alerta importante. As análises de campo indicam que a espécie possui distribuição extremamente restrita e está inserida em uma área sob forte pressão antrópica. Atividades como pastagens, cultivo de café e cacau e fragmentação da vegetação nativa comprometem diretamente seu habitat.

Por isso, a Wittmackia aurantiolilacina já é considerada criticamente ameaçada de extinção. Esse status reforça a importância de ações de conservação, tanto in situ quanto ex situ, como o cultivo em jardins botânicos, que permite preservar o material genético e aprofundar o conhecimento sobre seu comportamento, floração e necessidades ecológicas.

A descoberta da nova bromélia mostra que, mesmo em tempos de intensa transformação ambiental, a ciência segue revelando a riqueza escondida da flora brasileira. Ao mesmo tempo, lembra que conhecer é apenas o primeiro passo — preservar é o desafio contínuo que acompanha cada nova espécie descrita.

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