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Mortal para anfíbios, linhagem de fungo surgiu no Brasil e se espalhou pelo mundo

Batrachochytrium dendrobatidis é responsável pelo declínio de populações de sapos, rãs e pererecas em todo o globo; origem de linhagem fúngica foi objeto de estudo liderado por pesquisadores da Unicamp

Revisão: Derick Machado
19 de maio de 2026
in Clima e Sustentabilidade
Rã-touro (Aquarana catesbeiana), espécie exótica criada comercialmente no Brasil desde a década de 1930 e associada à disseminação global de linhagem do fungo quitrídio (foto: Fernando Klint)

Rã-touro (Aquarana catesbeiana), espécie exótica criada comercialmente no Brasil desde a década de 1930 e associada à disseminação global de linhagem do fungo quitrídio (foto: Fernando Klint)

O fungo quitrídio (Batrachochytrium dendrobatidis), ou simplesmente Bd, é tido como um dos responsáveis pelo declínio de populações de anfíbios no mundo todo. Nos últimos anos, pesquisadores identificaram diferentes linhagens genéticas do fungo causador da quitridiomicose em diversas partes do mundo, que já levou ao declínio de pelo menos 500 espécies de anfíbios anuros (sapos, rãs e pererecas).

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Sua disseminação pelo mundo é atribuída ao comércio de rãs-touro (Aquarana catesbeiana), espécie norte-americana cultivada em diversos países por conta da sua carne. A espécie foi trazida pela primeira vez ao Brasil em 1935, com uma segunda população introduzida nos anos 1970

Uma das linhagens fúngicas ganhou o nome de Bd-Brazil, por ter sido encontrada originalmente no país em 2012, embora sua origem exata tenha sido objeto de contestação posteriormente. Em 2018, um artigo publicado na revista Science apontou que a origem da linhagem poderia ter sido na Península Coreana, renomeando o genótipo como Bd-Asia-2/Bd-Brazil.

Em um estudo publicado agora na revista Biological Conservation, com apoio da FAPESP, um grupo liderado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) atesta que a linhagem, detectada também nos Estados Unidos, Japão e na Península Coreana, se originou, sim, no Brasil.

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A Bd-Brazil já estaria presente no país em 1916, duas décadas antes de chegarem aqui as primeiras rãs-touro, como já havia indicado um artigo de 2014 publicado na revista Molecular Ecology por pesquisadores paulistas apoiados pela FAPESP. Naquele trabalho, os autores realizaram a identificação das linhagens (genotipagem) de amostras do fungo em sapos depositados em museus desde o século 19.

O artigo publicado agora cruzou dados da literatura científica como esse com a detecção de Bd em anfíbios depositados em museus no mundo todo, a genotipagem do fungo em criações de rã-touro no Brasil e análises genéticas desses animais comercializados em outros países. Os pesquisadores concluem que a disseminação teria se dado daqui para o resto do mundo justamente por meio do comércio de carne de rã, do qual o Brasil é um grande fornecedor.

“Esse genótipo tem alta prevalência em diferentes espécies nativas do Brasil, com registros muito antigos. Quando olhamos em outros lugares, os registros são bem mais recentes e ocorrem apenas em rãs-touro e outras espécies exóticas. Aqui, por sua vez, a linhagem está presente tanto nos ranários como na natureza, incluindo algumas espécies nativas que não desenvolvem a doença”, conta Luisa P. Ribeiro, primeira autora do estudo, realizado como parte de seu doutorado no Instituto de Biologia (IB) da Unicamp com bolsa da FAPESP.

O trabalho integra o projeto “Da história natural à conservação dos anfíbios brasileiros”, apoiado pela FAPESP e coordenado por Luís Felipe Toledo, professor do IB-Unicamp e orientador do doutorado de Ribeiro.

“Não poderíamos identificar exatamente a linhagem em uma grande amostra de anfíbios depositados em museus, uma vez que a conservação nem sempre é a desejável para manter essa informação. Por isso, identificamos apenas presença ou ausência do fungo nesses indivíduos e buscamos outras evidências que pudessem indicar ou não a origem brasileira do Bd-Brazil”, diz Toledo.

Mortal para anfíbios, linhagem de fungo surgiu no Brasil e se espalhou pelo mundo
Microscopia do fungo quitrídio Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), agente causador da quitridiomicose, mostra zoosporângios e zoósporos responsáveis pela infecção em anfíbios (foto: Mariana Pontes)

História de um fungo

Para avaliar sua distribuição histórica, colaboradores estrangeiros examinaram 2.280 espécimes de anfíbios coletados entre 1815 e 2014 e depositados em museus de zoologia ao redor do mundo.

“Mesmo sem sabermos a linhagem, encontramos registros mais antigos do que os reportados anteriormente na literatura e apresentamos uma revisão de registros históricos de Bd no mundo”, afirma Ribeiro, atualmente realizando pós-doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com bolsa da FAPESP.

Quarenta dos 2.280 espécimes de museu testaram positivo para Bd. O registro mais antigo de infecção pelo fungo encontrado na amostragem foi em cinco indivíduos da espécie Alytes obstetricans, coletados em 1915 nos Pireneus, na França, o mais antigo conhecido para o país. O segundo mais antigo da amostragem foi em um sapo de uma espécie atualmente presente no Rio de Janeiro, Megaelosia goeldii, coletado em 1964.

Para reforçar a hipótese da disseminação do Brasil para o resto do mundo por meio da exportação de rãs-touro, os pesquisadores recorreram a registros históricos do comércio da espécie, à genotipagem do fungo em rãs de ranários brasileiros e a análises genéticas de rãs-touro de mercados fora do país.

O Bd-Brazil é prevalente no país, com mais da metade das ocorrências em alguns ranários, e menos virulento do que a segunda linhagem mais encontrada, a Bd-GPL, provavelmente originária da Ásia.

Os pesquisadores analisaram 3.617 rotas do comércio internacional de carne de rã, envolvendo 48 países. Apenas 12 foram identificados como exportadores, 21 como importadores e 15 como ambos. Foram integrados dados de rotas envolvendo países com ocorrências confirmadas de Bd-Brazil, as datas mais antigas de detecção em cada país e evidências genéticas de rãs-touro comercializadas. Assim, foi possível estabelecer as rotas de dispersão mais plausíveis para a linhagem brasileira.

A hipótese da dispersão do Brasil teve oito rotas identificadas. O país exportou diretamente para os Estados Unidos entre 1991 e 2009, enquanto este exportou para a Coreia do Sul em 2004 e 2008. Sem exportações documentadas do país asiático, onde a Bd-Brazil foi confirmada, para outros países afetados, é muito provável que o Brasil seja mesmo a origem do genótipo.

Os resultados, concluem os autores, ressaltam a necessidade urgente de medidas de prevenção, como controles de importação, triagem de patógenos e protocolos de quarentena para salvaguardar as espécies nativas, com regulamentação e monitoramento em escala global.

Via: André Julião | Agência FAPESP
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