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Quarenta vezes mais eficiente que a floresta: o segredo climático enterrado na lama dos manguezais nordestinos

Pesquisas revelam que os manguezais acumulam carbono numa velocidade que nenhuma floresta terrestre consegue acompanhar — e o Nordeste brasileiro concentra parte expressiva desse patrimônio natural

Escrito por: Mania de Plantas Revisão: Derick Machado
26 de junho de 2026
in Eco, Clima & Sustentabilidade
Foto: Denis Ferreira Netto/SEDEST

Foto: Denis Ferreira Netto/SEDEST

Existe um ecossistema no Brasil que faz algo que nenhuma floresta terrestre consegue replicar na mesma escala: enterrar carbono de forma permanente, camada por camada, ano após ano, em condições que praticamente impedem sua liberação de volta para a atmosfera. Esse ecossistema cresce na zona de encontro entre o rio e o mar, tem raízes que emergem da lama como dedos retorcidos e foi ignorado por décadas nas políticas climáticas globais. São os manguezais, e os do Nordeste brasileiro estão entre os mais produtivos do mundo nessa função.

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A comparação com florestas tropicais convencionais é o que torna o dado mais impactante: estudos científicos demonstram que os manguezais podem sequestrar carbono em taxas até 40 vezes superiores às de florestas como a Amazônia. Não porque as árvores de mangue cresçam mais rápido ou sejam mais densas — elas não são. O motivo está escondido exatamente onde ninguém olhava: embaixo da lama.

O que acontece no solo que nenhuma floresta terrestre replica

Em uma floresta convencional, quando uma árvore morre, sua matéria orgânica é decomposta por bactérias e fungos. Nesse processo, o carbono que estava armazenado no tronco e nas folhas é liberado de volta para a atmosfera na forma de CO₂. É um ciclo natural e contínuo, que faz com que grande parte do carbono capturado durante a vida da árvore retorne ao ar em questão de anos ou décadas.

Nos manguezais, esse ciclo é interrompido de forma eficiente. O solo encharcado de água salgada cria um ambiente com pouquíssimo oxigênio disponível, tecnicamente chamado de anaeróbico. Sem oxigênio, as bactérias responsáveis pela decomposição da matéria orgânica simplesmente não conseguem trabalhar com eficiência. O resultado é que raízes, folhas, troncos e toda a biomassa que cai no sedimento vai se acumulando sem se decompor completamente, formando camadas espessas de carbono orgânico que podem ter centenas ou até milhares de anos.

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Esse carbono enterrado nos sedimentos dos manguezais recebe um nome específico na ciência climática: carbono azul. A expressão distingue o carbono capturado por ecossistemas costeiros e aquáticos do carbono capturado por florestas terrestres, e os números mostram por que essa distinção importa. Enquanto uma floresta tropical armazena a maior parte do seu carbono na biomassa viva acima do solo, entre 80% e 90% do carbono dos manguezais está nos sedimentos, protegido e estável por períodos que superam qualquer floresta terrestre.

O Nordeste como protagonista silencioso

O Brasil possui a maior extensão de manguezais do mundo, com aproximadamente 1,4 milhão de hectares distribuídos ao longo de toda a costa. O Nordeste concentra uma fatia expressiva desse total, com destaque para os estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte e a foz do rio São Francisco, entre Alagoas e Sergipe. O Maranhão, em particular, abriga a segunda maior área contínua de manguezais do país, superado apenas pelo Pará.

As condições climáticas do Nordeste são determinantes para a produtividade desses ecossistemas. A temperatura elevada durante o ano inteiro, a alta incidência solar e a dinâmica particular das marés na costa nordestina criam condições ideais para o crescimento das espécies de mangue mais comuns no Brasil, especialmente o mangue-vermelho (Rhizophora mangle), o mangue-branco (Laguncularia racemosa) e o mangue-siriúba (Avicennia schaueriana). Cada uma dessas espécies ocupa uma faixa diferente do terreno de acordo com a salinidade e a frequência de inundação, criando uma estrutura em mosaico que maximiza a cobertura do ecossistema e, consequentemente, sua capacidade de acumulação de carbono.

Estudos conduzidos em manguezais nordestinos identificaram taxas de acumulação de carbono no sedimento que variam entre 1,5 e 2,5 toneladas de carbono por hectare por ano, valores que podem ser ainda maiores em áreas com alta produtividade de serapilheira e boa cobertura vegetal. Para ter uma referência comparativa, uma floresta tropical madura acumula, em média, entre 0,5 e 1 tonelada de carbono por hectare por ano em seus solos.

A arquitetura das raízes e o papel das marés

Parte do poder dos manguezais como reservatório de carbono está na engenharia vegetal das suas próprias raízes. As raízes aéreas características do mangue-vermelho, chamadas de rizóforos, e os pneumatóforos do mangue-siriúba, que emergem verticalmente do sedimento como pequenos snorkels, cumprem uma função dupla. Além de fornecer oxigênio para os tecidos da planta em um ambiente privado de ar, essas estruturas criam uma rede física que reduz a velocidade da corrente das marés, favorecendo a deposição de partículas em suspensão na água. Junto com esse sedimento, chega matéria orgânica de outras origens, que também se acumula e contribui para o estoque de carbono.

As marés, por sua vez, funcionam como um sistema de abastecimento contínuo. A cada ciclo de enchente e vazante, a água traz nutrientes, partículas orgânicas e novos sedimentos que se depositam entre as raízes. Ao longo de décadas, esse processo constrói um solo extraordinariamente rico em matéria orgânica, com profundidades que podem superar vários metros em áreas bem preservadas. Em alguns manguezais maduros do Nordeste, sondagens identificaram camadas de carbono orgânico que se formaram há mais de 5 mil anos e que permanecem estáveis porque as condições do ambiente nunca mudaram o suficiente para ativá-las.

O custo real de cada hectare destruído

Se a capacidade de acumulação dos manguezais impressiona, o outro lado da equação é igualmente revelador. Quando um manguezal é destruído, seja para construção de carcinicultura, aterramento para especulação imobiliária ou extração de madeira, o carbono que estava estável nos sedimentos por séculos começa a ser liberado. O sedimento exposto ao ar entra em contato com oxigênio, as bactérias decompositoras voltam a trabalhar e o carbono acumulado ao longo de milênios é emitido em poucos anos na forma de CO₂ e metano.

Estimativas científicas indicam que a destruição de manguezais libera entre 1.000 e 7.000 toneladas de CO₂ equivalente por hectare, dependendo da profundidade e da idade do sedimento. Para contextualizar: um carro popular emite em média 2 toneladas de CO₂ por ano. Destruir um único hectare de manguezal maduro pode liberar o equivalente às emissões de até 3.500 carros rodando durante um ano inteiro.

O Brasil perdeu cerca de 26% da sua cobertura original de manguezais ao longo do século XX, com o Nordeste sendo uma das regiões mais afetadas pela expansão da carcinicultura nas décadas de 1980 e 1990. Embora as taxas de desmatamento de manguezais tenham caído significativamente nos últimos anos, especialmente após a inclusão desse ecossistema no Código Florestal como Área de Preservação Permanente, a recuperação das áreas degradadas é lenta e a recomposição do estoque de carbono nos sedimentos leva gerações.

Por que os manguezais ficaram de fora das políticas climáticas por tanto tempo

Durante décadas, as negociações climáticas internacionais focaram quase exclusivamente nas florestas tropicais terrestres como principais reservatórios de carbono a serem protegidos. Os ecossistemas costeiros, incluindo manguezais, pradarias de algas e marismas, ficaram de fora dos mecanismos de compensação de carbono simplesmente porque não havia dados científicos suficientes para quantificar seu estoque com precisão.

Esse cenário mudou de forma significativa a partir de 2009, quando um relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e de outras agências internacionais consolidou pela primeira vez o conceito de carbono azul e apresentou estimativas robustas sobre o potencial climático dos ecossistemas costeiros. Desde então, manguezais passaram a ser incluídos gradualmente nos inventários nacionais de carbono de diversos países, e o mercado voluntário de carbono começou a desenvolver metodologias específicas para projetos de conservação e restauração desses ecossistemas.

O Brasil, com a maior extensão de manguezais do mundo, ocupa uma posição singular nesse novo contexto. A conservação e a restauração dos manguezais nordestinos representam tanto um compromisso climático concreto quanto uma oportunidade de geração de receita por meio de créditos de carbono, algo que comunidades costeiras e gestores ambientais começam a explorar com mais seriedade nos últimos anos.

O que a ciência ainda está descobrindo

A pesquisa sobre manguezais está longe de estar encerrada. Estudos recentes indicam que a capacidade de sequestro de carbono desses ecossistemas pode variar consideravelmente conforme a salinidade da água, a frequência das marés, a presença de rios com alta carga de sedimentos e até a composição das espécies dominantes em cada região. Manguezais influenciados por rios com grande aporte de sedimentos, como ocorre em parte da costa nordestina, tendem a acumular carbono mais rapidamente do que aqueles em estuários com menor aporte de material terrígeno.

Outro campo de investigação que ganha força é o papel dos manguezais na proteção costeira e sua relação indireta com o clima. As raízes e o porte das árvores de mangue funcionam como barreira natural contra a erosão e o avanço do mar, e estudos recentes mostram que manguezais saudáveis podem reduzir em até 66% a energia das ondas antes que elas atinjam a costa. Com o aumento do nível do mar projetado pelas mudanças climáticas, essa função ganha relevância crescente para comunidades litorâneas do Nordeste, que já convivem com processos de erosão costeira acelerada em vários pontos da orla.

A lama escura que caracteriza o solo dos manguezais, tantas vezes associada a algo negativo no imaginário popular, é na verdade um dos materiais mais ricos e funcionais da biosfera costeira. Ela é arquivo histórico, reservatório climático, berçário de espécies e barreira natural contra o mar, tudo ao mesmo tempo. Entender esse ecossistema com a profundidade que ele merece é, cada vez mais, uma necessidade climática e não apenas uma curiosidade científica.

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    Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em jardinagem, botânica urbana e paisagismo residencial. Acompanha de perto as principais tendências de design biofílico, técnicas de cultivo sustentável e inovações no manejo de plantas para ambientes internos e externos, sempre com base em referências de institutos botânicos, universidades e especialistas do setor.

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