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Descoberta há dois anos, essa planta capixaba já corre risco de sumir antes de ser conhecida

Descoberta há dois anos, essa planta capixaba já corre risco de sumir antes de ser conhecida

Pesquisadores do INMA e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro identificaram a Callianthe capixabae em apenas dois pontos de Mata Atlântica no Espírito Santo, um deles vulnerável a incêndios e cortes de estrada

Escrito por: Mania de Plantas Revisão: Mel Maria
7 de julho de 2026
in Mundo Botânico & Ciência

Existem plantas que levam décadas circulando em coleções de jardim antes de receberem um nome científico. A Callianthe capixabae não teve esse privilégio. Descrita em dezembro de 2022 no periódico Phytotaxa, ela já nasceu no radar de risco de extinção, um destino raro para uma espécie que a ciência acabou de conhecer.

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O nome técnico é pouco conhecido fora dos círculos da botânica, mas o grupo ao qual ela pertence é bastante familiar: o das lanterninhas japonesas, também chamadas de balãozinho japonês, plantas ornamentais cultivadas há gerações em jardins pelo formato característico das flores, que lembram pequenas lanternas penduradas. A diferença é que essa espécie específica não é cultivada. Ela cresce apenas em dois pontos da Mata Atlântica capixaba, e em nenhum outro lugar do mundo.

Uma descoberta que já nasce sob risco

O trabalho de descrição da espécie reuniu pesquisadores de instituições de referência em botânica no país. Maria Tereza R. Costa e Massimo Bovini, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e João Paulo F. Zorzanelli, do Instituto Nacional da Mata Atlântica, coletaram amostras em campo e analisaram material depositado em herbários da Universidade Federal do Espírito Santo, do próprio INMA e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro antes de confirmar que se tratava de uma espécie nova para a ciência.

“A nova espécie ocorre em sub-bosques florestais do interior do Espírito Santo, em altitudes de 1.100 a 1.300 metros”, explica João Paulo Zorzanelli, pesquisador do INMA. A floração foi registrada entre abril e agosto, com frutos aparecendo em julho, um ciclo relativamente estreito que já indica a sensibilidade da espécie a variações no ambiente onde cresce.

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O processo de identificação exigiu comparação detalhada com duas espécies próximas, a Callianthe glaziovii e a Callianthe schenckii. As diferenças apareceram nos pelos e escamas que cobrem a planta, no tipo de inflorescência, nas nervuras do cálice, na cor das pétalas e no comprimento do fruto. Segundo Zorzanelli, mesmo em relação aos balõezinhos japoneses amplamente cultivados em jardins, a Callianthe capixabae se distingue pelas folhas, que têm a parte de baixo com coloração acinzentada, característica que os botânicos chamam tecnicamente de folhas discolores.

Duas populações, dois destinos diferentes

A distribuição da espécie é o que mais chama atenção neste caso. Ela foi encontrada em apenas duas localidades: o Parque Estadual Forno Grande, no município de Castelo, e a Serra do Valentim, entre os municípios de Iúna e Muniz Freire. Essa restrição geográfica extrema costuma ser um dos principais critérios usados para classificar uma espécie como ameaçada, já que qualquer evento pontual, como um incêndio ou uma obra, pode comprometer boa parte da população conhecida.

A situação das duas populações, no entanto, não é idêntica. A que está dentro do Parque Estadual Forno Grande conta com o status de unidade de conservação, o que oferece uma camada de proteção legal. Ainda assim, os espécimes estão localizados nas margens da única pista usada para ecoturismo na região, o que os deixa expostos a depredação por visitantes.

Já a população da Serra do Valentim enfrenta um cenário mais delicado. A área não integra nenhuma unidade de conservação e fica às margens de uma estrada que dá acesso a torres de comunicação. Isso significa exposição direta a incêndios florestais e a cortes de vegetação realizados periodicamente para manutenção da via, duas ameaças que já atingem a espécie mesmo antes de qualquer estratégia de conservação ter sido estruturada para ela.

“Uma dessas populações está localizada na delimitação do Parque Estadual do Forno Grande, que é protegido como unidade de conservação. No entanto, os espécimes estão localizados nas margens da pista única para ecoturismo, podendo sofrer depredação. A outra população foi identificada em uma mata à beira da estrada que dá acesso a torres de comunicação na Serra do Valentim, local que não faz parte de unidade de conservação, estando já sujeita a ameaças como incêndios florestais e cortes para manutenção periódica das estradas”, descreve Maria Tereza Costa, pesquisadora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

O entorno que isola a espécie

Um fator que agrava a vulnerabilidade da Callianthe capixabae é o tipo de paisagem que envolve as duas localidades onde ela ocorre. O entorno é composto majoritariamente por propriedades rurais de cultivo e pecuária de café e eucalipto, com fragmentos remanescentes de Mata Atlântica dispersos entre essas áreas produtivas.

Esse cenário cria um efeito de isolamento que vai além da simples escassez de indivíduos. Segundo Maria Tereza Costa, essa configuração de fragmentos separados por áreas de uso agrícola dificulta mecanismos essenciais para a sobrevivência de longo prazo da espécie, como a dispersão de sementes e o fluxo gênico entre as poucas populações existentes. Na prática, plantas que crescem em fragmentos isolados têm menos trocas genéticas entre si, o que reduz a diversidade genética da espécie como um todo e a deixa mais vulnerável a doenças, pragas e mudanças ambientais.

O Espírito Santo como epicentro de descobertas e de riscos

O caso da Callianthe capixabae não é isolado. O Espírito Santo é reconhecido como o estado brasileiro que mais descobre novas espécies de flora por hectare, com uma média de 9,7 espécies novas por mil quilômetros quadrados, à frente do Rio de Janeiro, segundo estudo, que aparece em segundo lugar com 5,1 espécies por mil quilômetros quadrados. Essa combinação entre alta biodiversidade e território reduzido cria um padrão preocupante: o estado revela novas espécies num ritmo acelerado, mas boa parte delas já nasce em situação de risco, porque a pressão sobre os remanescentes de Mata Atlântica avança na mesma velocidade das descobertas científicas.

Levantamentos do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Espírito Santo (IEMA) mostram a dimensão desse fenômeno em números. Entre 2005 e a atualização de 2019, o total de espécies ameaçadas de extinção no estado cresceu 197%, passando de 950 para 1.874 espécies. O órgão destaca que esse salto não reflete necessariamente uma piora ambiental repentina, mas principalmente o avanço do conhecimento científico sobre a biodiversidade capixaba, que revela espécies raras e restritas antes mesmo de existir tempo hábil para protegê-las.

Atualmente, o Espírito Santo reconhece oficialmente 753 espécies de plantas ameaçadas de extinção. Entre elas, as orquídeas concentram o maior número de espécies em risco, um padrão associado à coleta ilegal para fins ornamentais, prática que também atinge outros grupos de plantas com apelo estético elevado, como bromélias e helicônias.

O que a ciência ainda não sabe sobre essa espécie

Por ser uma descoberta recente, a Callianthe capixabae carrega uma lacuna de conhecimento que dificulta ações imediatas de conservação. Não existem, até o momento, dados populacionais precisos sobre quantos indivíduos compõem cada uma das duas populações conhecidas, nem estudos sobre os polinizadores responsáveis por sua reprodução na natureza. Essa ausência de informação básica é comum em espécies recém-descritas e representa um desafio adicional para qualquer estratégia de proteção, já que é difícil elaborar um plano de manejo eficaz sem entender completamente a biologia reprodutiva e os limites de tolerância ambiental da planta.

Esse tipo de lacuna reforça a importância de mapeamentos contínuos como o conduzido pelo IEMA em parceria com o INMA, que desde 2019 adotou uma metodologia mais precisa para avaliar o risco de extinção de espécies capixabas. Sem atualizações periódicas dessa natureza, espécies como a lanterninha japonesa correm o risco de desaparecer antes que a ciência consiga sequer compreender plenamente seu papel no ecossistema onde vivem.

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