O Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes que utiliza na agricultura. Grande parte desses insumos passa pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta, que concentra também boa parcela do petróleo mundial, matéria-prima fundamental dos fertilizantes nitrogenados. Com o conflito entre Estados Unidos e Irã comprometendo essa rota, o mercado agrícola brasileiro enfrenta uma pressão de custos com poucas comparações históricas.
O impacto já é concreto: o enxofre, matéria-prima de fertilizantes fosfatados, registrou alta de 300% a 400% desde o início da guerra. As distribuidoras no Brasil não conseguem antecipar preços aos agricultores porque, simplesmente, ainda não sabem a que custo os insumos chegarão ao país. É nesse cenário que o Instituto Agronômico (IAC), de Campinas, entra em campo com orientações estratégicas para apoiar os produtores.
Quando a geopolítica chega à lavoura
A relação entre um conflito no Oriente Médio e o custo do plantio no interior do Brasil pode parecer distante, mas é direta. O Estreito de Ormuz é por onde passa uma parcela significativa do petróleo mundial, e o petróleo é a base da produção de ureia e outros fertilizantes nitrogenados. Com rotas bloqueadas e infraestrutura de produção comprometida, o preço dos insumos sobe ainda antes de qualquer escassez física chegar às prateleiras.
“Para ilustrar essa situação, o enxofre, matéria-prima de vários fertilizantes, principalmente os fosfatados, já aumentou cerca de 300% a 400% desde o início da guerra”, afirma Heitor Cantarella, pesquisador da área de solos e vice-coordenador do IAC, vinculado à APTA e à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.
O produtor que não conseguir repassar esses custos ao preço final dos seus produtos corre o risco real de ver as dívidas crescerem. O que torna o cenário ainda mais delicado é o fato de que a crise dos fertilizantes coincide com um período de preços deprimidos para commodities agrícolas, estreitando as margens por dois lados ao mesmo tempo.
As três ações recomendadas pelo IAC
Diante desse quadro, o IAC organizou três orientações práticas, acessíveis e baseadas em tecnologia já consolidada. O objetivo é claro: ajudar o agricultor a manter produtividade com menor dependência dos insumos que estão escassos ou caros.
Análise de solo como ponto de partida. Antes de qualquer decisão de compra, conhecer exatamente o que o solo precisa é o caminho mais eficiente para não desperdiçar recurso. Com o diagnóstico em mãos, o investimento vai para o produto certo e na dose necessária, eliminando tanto a deficiência quanto o excesso, que também representa perda.
Calagem: o insumo nacional que prepara o solo para render mais. O calcário é um recurso abundante no Brasil, com grandes reservas distribuídas pelo território nacional. Seu custo é significativamente inferior ao dos fertilizantes importados, e os benefícios são amplos. Incorporado ao solo, o calcário corrige a acidez, neutraliza a toxidez do alumínio (que em excesso prejudica o desenvolvimento das raízes), fornece cálcio e magnésio, e aumenta a disponibilidade de fósforo e outros nutrientes. Em síntese: prepara o solo para aprovechar melhor tudo o que é aplicado, incluindo os nutrientes já presentes.
Boas práticas agrícolas com o conceito 4C. Cantarella sintetiza o princípio: dose certa, época certa, fertilizante certo e local certo. Cada um desses fatores, quando negligenciado, representa perda financeira direta. A proposta inclui também o aproveitamento de recursos da própria propriedade, como estercos e compostos orgânicos, dentro de uma lógica de economia circular que reduz a dependência de insumos externos.
O papel da pesquisa em momentos de crise
Situações como a atual colocam as instituições de pesquisa diante de uma função que vai além do desenvolvimento científico de longo prazo. O IAC, com décadas de produção de conhecimento aplicado ao solo e às culturas brasileiras, recorre agora ao seu acervo tecnológico para responder a uma demanda urgente e concreta.
“Nosso objetivo é orientar estrategicamente os agricultores diante da muito provável alta nos preços dos fertilizantes, consequência da guerra que, além de inviabilizar rotas de transporte e encarecer os insumos, também vem comprometendo a infraestrutura de produção”, explica Cantarella.
O especialista reforça que esse tipo de resposta institucional exige uma postura proativa: antecipar desafios, desenvolver soluções com antecedência e traduzi-las em linguagem acessível para quem está no campo. A crise atual, por ser de origem geopolítica, escapa das variáveis que os planejamentos agronômicos convencionais costumam considerar, como clima, recursos naturais e sustentabilidade. Isso torna a orientação técnica ainda mais necessária para que o produtor não tome decisões no escuro.
O que está em jogo para além da porteira
Se os agricultores conseguirem repassar o aumento dos custos de produção ao preço dos alimentos, o efeito imediato é inflação. Se não conseguirem, o endividamento cresce e a estabilidade financeira do setor se fragiliza. Nos dois cenários, a economia nacional sente o impacto.
Por isso, as orientações do IAC não são apenas recomendações técnicas de manejo. São também uma estratégia de proteção econômica para um setor que responde por parcela expressiva do PIB brasileiro e que, neste momento, precisa de eficiência mais do que em qualquer outro.




