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Engenharia genética transforma tabaco em produtor de psilocibina e DMT para proteger espécies ameaçadas

Revisão: Derick Machado
17 de maio de 2026
in Noticias
Engenharia genética transforma tabaco em produtor de psilocibina e DMT para proteger espécies ameaçadas

A obtenção de compostos psicoativos para fins científicos sempre esbarrou em dois obstáculos concretos: a complexidade dos processos de extração e a pressão crescente sobre espécies que os produzem naturalmente. Cogumelos do gênero Psilocybe, plantas como a Psychotria viridis e o sapo-do-rio-Colorado (Incilius alvarius) estão entre os organismos mais procurados por pesquisadores e, ao mesmo tempo, entre os mais vulneráveis à superexploração. Esse paradoxo, que freava o avanço das pesquisas sobre uso terapêutico de psicodélicos, ganhou uma resposta promissora publicada na revista Science Advances em abril deste ano.

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Um grupo de cientistas conseguiu modificar geneticamente plantas de tabaco da espécie Nicotiana benthamiana para produzirem cinco compostos psicoativos distintos, oriundos de três reinos biológicos diferentes: fungi, plantae e animalia. O estudo, intitulado “Biossíntese completa de triptaminas psicodélicas de três reinos em plantas”, representa um avanço técnico considerável na chamada biossíntese vegetal e abre perspectivas reais para a produção de substâncias que hoje dependem de organismos difíceis de cultivar em escala.

A técnica que transformou o tabaco em biofábrica

O método utilizado no estudo é conhecido como agroinfiltração, uma técnica em que bactérias do gênero Agrobacterium são usadas como vetor para introduzir genes de outros organismos dentro das células vegetais. A planta, a partir daí, passa a expressar as proteínas codificadas por esses genes e, consequentemente, a sintetizar os compostos desejados. O ponto central dessa abordagem é que o DNA introduzido não se incorpora ao genoma permanente da planta, o que significa que o efeito é temporário e controlado.

Com a inserção de nove genes cuidadosamente selecionados, a Nicotiana benthamiana produziu psilocina e psilocibina, normalmente encontradas em cogumelos; DMT, presente em diversas plantas utilizadas em práticas tradicionais; e ainda bufotenina e 5-metoxi-DMT, compostos secretados pelo sapo-do-rio-Colorado. Cada um desses compostos pertence à classe das triptaminas e compartilha uma estrutura química que interage com receptores serotoninérgicos no sistema nervoso central, o que explica o interesse crescente da psiquiatria por essas substâncias.

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A escolha da Nicotiana benthamiana não foi aleatória. Essa espécie é amplamente utilizada em biotecnologia vegetal justamente pela sua alta susceptibilidade à agroinfiltração e pela capacidade de expressar proteínas heterólogas com eficiência, tornando-a um modelo consolidado para estudos desse tipo.

Por que a produção sustentável importa para a pesquisa

O interesse científico por psicodélicos cresceu de forma significativa na última década, impulsionado por estudos que investigam seu potencial no tratamento de depressão resistente, transtorno de estresse pós-traumático e dependência química. Contudo, a produção das substâncias necessárias para esses ensaios clínicos ainda enfrenta limitações sérias. Síntese química tradicional é cara, tecnicamente exigente e, em alguns casos, inviável em escala. Já a extração direta de plantas ou animais levanta questões éticas e ambientais que não podem ser ignoradas.

Asaph Aharoni, coautor do estudo e biólogo de plantas do Instituto Weizmann de Ciências, de Israel, ressalta que a opção pela modificação temporária foi uma escolha deliberada e estratégica. “É um pouco complicado se a alteração for hereditária, e aí as pessoas vão pedir sementes”, alertou o pesquisador. A preocupação é legítima: tornar o tabaco capaz de transmitir essa característica às gerações seguintes criaria riscos de uso indevido e dificultaria o controle regulatório sobre substâncias que, em muitos países, seguem classificadas como controladas.

A agroinfiltração contorna esse problema ao garantir que a produção dos compostos seja pontual e rastreável, mantendo o processo dentro de ambientes laboratoriais e sob supervisão técnica.

Fábricas verdes como alternativa escalável

O conceito de “fábrica verde” não é novo na biotecnologia, mas o estudo amplia suas possibilidades de forma concreta. Rupert Fray, pesquisador da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, contextualiza o significado do avanço dentro da farmacologia vegetal. “Se você quer entender algo, precisa ser capaz de construí-lo, então demonstrar que é possível produzi-lo em plantas de tabaco é útil. Como realização técnica, mostrar que você compreende os processos e consegue executá-los tem valor”, afirmou.

Fray também lembra que cerca de 25% dos medicamentos prescritos atualmente são derivados total ou parcialmente de plantas, o que reforça o potencial de cultivar novos compostos em estufas controladas. Nesse modelo, plantas como a Nicotiana benthamiana funcionariam como plataformas biossintéticas, produzindo sob demanda compostos que hoje dependem de organismos raros, sazonais ou protegidos por legislações ambientais.

Além da viabilidade econômica, esse caminho reduz diretamente a pressão sobre populações silvestres. O sapo-do-rio-Colorado, por exemplo, é capturado ilegalmente em diversas regiões do México e dos Estados Unidos para extração da 5-metoxi-DMT, prática que coloca em risco uma espécie já vulnerável. A possibilidade de produzir o mesmo composto em uma planta de tabaco cultivada em laboratório representa, portanto, tanto um avanço científico quanto uma medida de conservação.

O que esse avanço significa para os próximos passos

A produção bem-sucedida de cinco triptaminas distintas em uma única plataforma vegetal confirma que a biossíntese heteróloga em plantas é um caminho viável para compostos de alta complexidade química. O próximo desafio está na escala e na pureza: produzir volumes suficientes para ensaios clínicos e garantir que os extratos vegetais não contenham metabólitos indesejados exige refinamento dos protocolos e avanços nos processos de purificação downstream.

A regulamentação também será determinante. Países com marcos mais avançados para pesquisa com psicodélicos, como os Estados Unidos, Austrália e Brasil, terão papel central na definição de como essa tecnologia poderá ser aplicada dentro de ambientes clínicos e farmacêuticos. O estudo não entrega um medicamento pronto, mas oferece algo igualmente valioso: uma prova de conceito robusta de que a natureza pode ser replicada, com responsabilidade, dentro de uma estufa.

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