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Sob a floresta que parece intocada, a ciência encontrou fazendas pré-colombianas e o que elas revelam muda tudo

Pesquisador da Universidade de Oxford descobre que parte da Amazônia considerada floresta primária é, na verdade, vegetação secundária sobre antigas áreas cultivadas e que as castanheiras carregam no DNA a marca dessa convivência milenar com os povos indígenas

Escrito por: Mania de Plantas Revisão: Derick Machado
9 de junho de 2026
in Mundo Botânico & Ciência
Imagem: Leonardo Bergamini/iNaturalist

Imagem: Leonardo Bergamini/iNaturalist

Há uma ilusão embutida em grande parte do que se chama de floresta primária na Amazônia. Sob aquela cobertura vegetal densa, aparentemente intocada, escondem-se registros de uma civilização agrícola que cultivou, selecionou espécies e moldou a paisagem por milênios antes de desaparecer. O que os olhos veem como natureza selvagem é, em muitos casos, uma floresta secundária em regeneração — que carrega no solo e no genoma das suas árvores uma memória histórica extraordinária.

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É exatamente essa memória que Davi Moreno-Mateos, professor da Universidade de Oxford, vem decifrando. O pesquisador escolheu a Amazônia como campo de estudo justamente pela raridade do que ela oferece: vastas áreas abandonadas há séculos, sem reocupação humana posterior, onde a floresta se recuperou inteiramente por conta própria.

“A Amazônia é o lugar perfeito para obter essa resposta porque há tantas áreas na floresta que foram abandonadas há muito tempo e nunca foram repovoadas, algo difícil de encontrar em um mundo em que a população cresce dramaticamente. Após muitos anos de pesquisa, o único lugar que encontrei um pouco parecido, nesse sentido, foi a Groenlândia”, afirmou Moreno-Mateos durante a FAPESP Week Londres, realizada entre os dias 2 e 4 de junho na capital britânica.

A comparação com a Groenlândia não é trivial. Enquanto aquela ilha ártica preserva vestígios de assentamentos nórdicos abandonados entre 650 e 1.050 anos atrás, a Amazônia guarda registros em escala muito mais ampla — tanto em área quanto em profundidade histórica. A diferença é que a Amazônia os esconde sob metros de vegetação, tornando a leitura desse passado um trabalho minucioso de arqueologia, ecologia e genética trabalhando em conjunto.

A terra preta como arquivo histórico

A principal pista de que uma determinada área da floresta foi habitada está nos pés, literalmente. O solo conhecido como “terra preta” — escuro, rico em matéria orgânica, carvão e restos de material humano — é o indicativo mais claro da presença de assentamentos pré-colombianos. Diferente dos solos argilosos e ácidos que predominam na região, a terra preta é extraordinariamente fértil e persiste no solo por séculos sem se decompor completamente, funcionando como um registro que pode ser datado com precisão.

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A partir dessa datação, os pesquisadores conseguem mapear quando uma área foi ocupada, quando foi abandonada e quanto tempo a floresta levou para cobri-la novamente com sua vegetação. O que essa cronologia revela é que a ocupação humana na Amazônia não seguiu um padrão linear, mas aconteceu em ondas sucessivas, deixando camadas de influência sobrepostas nas espécies que habitam essas áreas até hoje.

O que a castanheira carrega no DNA

Entre todas as espécies que testemunharam esse processo, a castanheira-do-pará (Bertholletia excelsa) ocupa um lugar especial na pesquisa de Moreno-Mateos. A espécie foi selecionada por povos indígenas há pelo menos 11 mil anos, com preferência por árvores que produziam frutos maiores — uma forma de domesticação tão antiga quanto consistente, que deixou marcas profundas no genoma da planta. Após o desaparecimento das populações que a cultivavam, a castanheira continuou existindo, mas com capacidade de dispersão natural extremamente limitada, dependente de animais como a cutia para distribuir suas sementes.

O estudo vem comparando o DNA de árvores jovens, com cerca de 200 anos, e árvores mais antigas, com 500 anos ou mais, usando sequenciamento completo do genoma. Os resultados preliminares são reveladores: após séculos sem intervenção humana, as castanheiras começaram a apresentar mudanças genéticas que sugerem um retorno gradual a funções ligadas à sobrevivência individual, afastando-se progressivamente do perfil de alta produção de sementes que os indígenas haviam selecionado.

“Encontramos mudanças nas assinaturas de seleção entre árvores jovens e antigas. Ao relacionar a idade do local com a diferença em seus genomas, observamos que havia várias populações claramente distintas”, explicou o pesquisador.

O custo silencioso da domesticação

A hipótese que orienta o projeto é incômoda para quem imagina que domesticação e adaptação caminham juntas. Ao priorizar características como tamanho do fruto, os povos indígenas aumentaram a produtividade da espécie, mas, ao mesmo tempo, podem ter reduzido sua capacidade de responder a estresses ambientais não previstos — entre eles, as secas severas que as mudanças climáticas tendem a intensificar nas próximas décadas.

“Ao selecionar uma espécie para produzir frutos maiores, sua capacidade de adaptação diminui, o que é um risco para enfrentar secas causadas pelas mudanças climáticas”, disse Moreno-Mateos.

Esse é um dilema que a ciência começa a reconhecer em diversas espécies cultivadas ao longo da história humana: o processo de domesticação, ao estreitar a variabilidade genética em torno de características desejáveis para o consumo, cria populações menos preparadas para lidar com adversidades imprevisíveis. No caso das castanheiras amazônicas, a boa notícia é que o processo parece reversível — lentamente, mas de forma mensurável.

Séculos de paciência que a humanidade não tem

A recuperação florestal que os dados mostram é real, mas opera em uma escala de tempo que contrasta drasticamente com a velocidade do desmatamento. A floresta não se reconstrói em décadas. O processo de restauração genuína — aquele que inclui não apenas a cobertura vegetal, mas a complexidade ecológica, a diversidade genética e as interações entre espécies — leva centenas ou até milhares de anos.

“Ao cortar a floresta sem pensar nas consequências, é preciso lembrar que qualquer ação tomada em dois dias com uma escavadeira levará séculos para ser reparada pela natureza”, advertiu Moreno-Mateos.

Esse desequilíbrio de tempo é o argumento mais contundente da pesquisa. Enquanto a destruição acontece na escala humana, de horas e dias, a reparação ocorre na escala geológica, de séculos e milênios. A floresta amazônica que existe hoje não foi construída pela natureza em algumas gerações — ela é o resultado de um processo acumulado que começa muito antes da chegada dos europeus às Américas.

O objetivo final: guardiãs do futuro

O estudo não se encerra na compreensão do passado. Ao identificar populações de castanheiras que, mesmo após séculos de abandono, apresentam maior variabilidade genética e sinais de readaptação, os pesquisadores pretendem mapear os indivíduos com maior potencial de resiliência climática. Esses espécimes poderiam, no futuro, fornecer sementes e propágulos para estratégias de restauração florestal pensadas especificamente para um planeta mais quente e imprevisível.

A ideia é que a história genética dessas árvores, lida com a precisão do sequenciamento moderno, aponte quais linhagens sobreviveram às piores condições do passado. Em um contexto onde a capacidade de adaptação pode ser o divisor entre a sobrevivência e o colapso de ecossistemas inteiros, esse mapeamento representa uma contribuição científica com consequências práticas diretas para as próximas décadas de conservação.

Fonte: Elton Alisson, de Londres | Agência FAPESP
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