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Fauna & Vida Silvestre

O javali, o pardal e a mangueira: como 5.600 espécies invasoras tomaram conta das reservas naturais do Brasil

Estudo publicado na revista Biological Invasions revela que mais da metade das unidades de conservação do país já abriga espécies exóticas, com a Mata Atlântica como epicentro da invasão

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O javali, o pardal e a mangueira: como 5.600 espécies invasoras tomaram conta das reservas naturais do Brasil

Parques nacionais, reservas biológicas e áreas de proteção ambiental existem para um propósito bem definido: preservar o que é nativo. Um levantamento científico recente mostrou que essa missão está sendo comprometida por dentro. Mais da metade das unidades de conservação do Brasil já registra a presença de espécies que não pertencem àquele ecossistema, incluindo desde animais domésticos comuns até árvores frutíferas plantadas há décadas.

O estudo, publicado no final de setembro na revista científica Biological Invasions, mapeou 561 unidades de conservação em todo o país com registros confirmados de espécies exóticas invasoras. Ao todo, são 5.631 ocorrências catalogadas, distribuídas entre 327 áreas estaduais e 234 federais. O número surpreende até mesmo pesquisadores que já acompanhavam o tema de perto, e revela uma escala de invasão biológica que passava despercebida pela maior parte da população.

Como um estudo desse porte foi construído

Para chegar a esses números, os pesquisadores não partiram de novas expedições de campo, mas de um trabalho de garimpagem de dados já existentes. Foram analisados 647 planos de manejo de unidades de conservação federais e estaduais, documentos que orientam a gestão dessas áreas e costumam registrar informações sobre a fauna e a flora presentes ali. A isso, somaram-se dados da Base de Dados Nacional de Espécies Exóticas Invasoras do Instituto Hórus, do Sistema de Autorização de Pesquisa em Áreas Protegidas Federais e de uma planilha interna do ICMBio, o órgão federal responsável pela gestão dessas unidades.

O cruzamento dessas quatro fontes permitiu construir o retrato mais completo já produzido sobre o alcance da invasão biológica dentro das áreas protegidas brasileiras. Ainda assim, os próprios autores reconhecem que o número real provavelmente é maior. Peixes e invertebrados, por exemplo, aparecem sub-representados no levantamento, não porque estejam ausentes das unidades de conservação, mas porque faltam profissionais capacitados e estudos específicos voltados para identificar essas espécies em campo.

Quem são os principais invasores

A lista de intrusos reúne 150 espécies de animais, 184 de plantas, três protistas e uma alga, somando um total expressivo de organismos catalogados. Entre os grupos mais representados estão plantas, peixes e mamíferos, cada um com particularidades que ajudam a entender como essas espécies se espalharam pelo território nacional.

Cães e gatos domésticos lideram a lista entre os animais, presentes respectivamente em mais de 200 e 100 unidades de conservação. A proximidade dessas espécies com o cotidiano humano é justamente o que torna o problema mais complexo de resolver, já que envolve laços afetivos e hábitos culturais profundamente enraizados. O pardal, ave nativa do Oriente Médio, já ocupa mais de 150 áreas protegidas, enquanto o javali, cuja caça já é permitida como forma de controle populacional, aparece em mais de 50 unidades pelo país.

No reino vegetal, a mangueira desponta como a campeã de disseminação, presente em mais de 100 unidades de conservação, apesar de sua origem asiática. Ao lado dela, capins africanos como o colonião e o capim-gordura, diferentes espécies de pinheiros vindos do hemisfério norte e a goiabeira completam o grupo de plantas que mais se espalharam por essas áreas.

Por que a Mata Atlântica concentra o problema

A distribuição geográfica da invasão não é aleatória. As regiões Sul e Sudeste, sobretudo ao longo da costa nos domínios da Mata Atlântica, concentram a maior parte das ocorrências registradas. Essa concentração tem uma explicação direta: a proximidade com grandes centros urbanos e a intensa pressão humana sobre esse bioma criam condições favoráveis para a introdução constante de novas espécies.

O bioma amazônico, por outro lado, apresentou o menor número de invasores identificados no levantamento. Os pesquisadores fazem questão de destacar que esse resultado não deve ser interpretado como uma vitória de conservação, mas sim como reflexo da menor quantidade de estudos e monitoramentos realizados na região. A ausência de dados não equivale à ausência do problema.

Um dado adicional chamou atenção dos cientistas: unidades de conservação de proteção integral, categoria que inclui parques nacionais e reservas biológicas com regras mais restritivas de uso, apresentaram maior incidência de espécies invasoras do que as áreas de uso sustentável, como reservas extrativistas. A explicação está ligada ao turismo e à recreação, atividades mais intensas justamente nesse tipo de unidade, que funcionam como importantes vias de entrada para espécies não nativas.

O peso histórico da última década

Um dos dados mais alarmantes do estudo diz respeito à evolução temporal do problema. Comparando os resultados atuais com um levantamento realizado em 2013, os pesquisadores identificaram um aumento de 74% na ocorrência de espécies exóticas invasoras apenas nas unidades de conservação federais ao longo dos últimos dez anos. Esse crescimento acelerado indica que a invasão biológica não é um fenômeno estático, mas um processo em plena expansão, que avança mais rápido do que a capacidade de resposta e controle das instituições responsáveis.

Essa tendência de crescimento acompanha um cenário global preocupante. Levantamentos internacionais já haviam apontado que espécies exóticas invasoras causam prejuízos superiores a 423 bilhões de dólares por ano ao redor do mundo, com esse custo quadruplicando desde a década de 1970. O fenômeno também está entre as cinco principais causas de perda de biodiversidade no planeta, respondendo por até 60% das extinções de plantas e animais registradas globalmente.

O que muda a partir desses dados

Mais do que expor um problema, o estudo cria uma ferramenta de trabalho. Todas as informações reunidas serão disponibilizadas em um banco de dados georreferenciado, o que permitirá que gestores ambientais, pesquisadores e formuladores de políticas públicas acompanhem a evolução da invasão ao longo do tempo e priorizem ações de controle nas áreas e espécies mais críticas.

O desafio, no entanto, ultrapassa a dimensão técnica. Atividades corriqueiras dentro das unidades de conservação, como manutenção de estradas, construção de infraestrutura, pesquisa científica e educação ambiental, podem funcionar como portas de entrada para novas espécies exóticas. Isso significa que a própria existência de uma área protegida não é garantia suficiente contra a invasão biológica, sendo necessário que essas unidades estejam integradas a um sistema legal robusto, com políticas específicas e ferramentas de monitoramento contínuo para manter sua eficácia ao longo do tempo.

O caso da Mata Atlântica ilustra bem esse dilema. É o bioma mais fragmentado e ameaçado do país, ao mesmo tempo em que concentra a maior prioridade de conservação e a maior pressão humana. Proteger o que resta de floresta nativa nessa região exigirá não apenas fiscalização contra o desmatamento, mas também estratégias específicas de manejo e erradicação das espécies que já se instalaram dentro dos próprios limites que deveriam mantê-las de fora.

  • Mania de Plantas é uma publicação digital brasileira inteiramente dedicada ao universo da jardinagem, paisagismo, botânica e sustentabilidade. Com uma equipe editorial apaixonada por natureza, o portal entrega conteúdos práticos, inspirações de decoração verde e guias acessíveis para quem deseja cultivar o bem-estar e trazer mais vida para o seu dia a dia, seja em grandes jardins ou em pequenos espaços urbanos.

  • Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em jardinagem, botânica urbana e paisagismo residencial. Acompanha de perto as principais tendências de design biofílico, técnicas de cultivo sustentável e inovações no manejo de plantas para ambientes internos e externos, sempre com base em referências de institutos botânicos, universidades e especialistas do setor.

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