Em 1985, o Pantanal brasileiro tinha quase 20 mil km² cobertos por água visível por satélite, uma área maior do que estados inteiros como Sergipe. Em 2023, essa mancha azul havia encolhido para 3.817 km², uma perda que passa dos 80% conforme o método de análise aplicado. O dado é resultado de um dos levantamentos mais completos já feitos sobre o bioma, conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e publicado na revista científica Advances in Space Research.
O que o estudo revela vai além de um número alarmante. Ele documenta, com precisão temporal e espacial, o momento exato em que o maior sistema de áreas úmidas do planeta começou a perder sua capacidade de reter água, e aponta com clareza os fatores humanos e climáticos que estão por trás desse processo.
Quase quatro décadas de imagens para entender uma tragédia silenciosa
A equipe de pesquisa combinou dados do MapBiomas com quatro índices espectrais diferentes, capazes de identificar a presença de água na superfície terrestre a partir de imagens de satélite. Foram analisados nove recortes temporais entre 1985 e 2023, a cada cinco anos, totalizando 36 mapas que revelam a variação espaço-temporal dos corpos d’água na porção brasileira do Pantanal.
Essa metodologia permitiu aos cientistas identificar não apenas quanto o bioma perdeu, mas também quando essa perda se intensificou. Os dados mostram que a partir dos anos 2000 a redução da água superficial ganhou velocidade, com as áreas alagadas remanescentes em 2023 concentradas principalmente nos leitos dos rios e na região central da planície pantaneira, longe da distribuição ampla e sazonal que caracterizava o bioma décadas atrás.
“Nosso diferencial foi o tamanho da área em que trabalhamos, o período abrangido, de 1985 a 2023, e também os quatro índices espectrais utilizados para chegar aos resultados”, explica Sérvio Túlio Pereira Justino, engenheiro florestal e doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Florestal da Faculdade de Ciências Agrárias (FCA) da Unesp, em Botucatu, um dos autores principais do estudo.
Da várzea à pastagem: o que aconteceu com a água que sumiu
O mecanismo por trás da perda hídrica combina dois fatores que se retroalimentam. Do lado climático, o regime de chuvas na região mudou de padrão. Em vez de precipitações distribuídas ao longo de semanas, o Pantanal passa a receber volumes concentrados em poucos dias, seguidos de longos períodos de estiagem, o que reduz a capacidade do solo e dos rios de reter água de forma constante.
Do lado humano, a transformação do uso da terra acelerou o problema. A expansão da pecuária e da agricultura sobre áreas historicamente alagáveis, a construção de canais artificiais que alteram o curso natural dos rios e a proliferação de hidrelétricas nos afluentes que alimentam a planície funcionam como barreiras físicas que desregulam os ciclos naturais de cheia e seca.
“Uma área que antes seria alagável hoje é uma área de pastagem”, relata Justino. Segundo ele, o desmatamento na Amazônia também tem papel relevante nesse processo, já que a floresta funciona como um corredor de umidade que abastece o clima do Pantanal. Com menos vapor d’água sendo transportado da bacia amazônica para o centro do continente, as chuvas na região pantaneira se tornam ainda mais escassas e irregulares.
O efeito cascata sobre a vida selvagem
O Pantanal abriga cerca de 650 espécies de aves, 150 de mamíferos, 325 de peixes e mais de 2.200 espécies de plantas, um patrimônio de biodiversidade que depende diretamente do pulso de inundação sazonal do bioma. A perda de água superficial rompe essa engrenagem em cadeia.
A queda no volume de água afeta primeiro a reprodução dos peixes, que dependem das áreas alagadas para desova e alimentação. Esse impacto se propaga para os predadores que dependem desses peixes como fonte de alimento, incluindo a onça-pintada, símbolo do bioma e espécie que utiliza os corpos d’água tanto para caçar quanto para se deslocar entre territórios.
Iraê Amaral Guerrini, professor do Departamento de Solos e Recursos Ambientais da Unesp e coautor de estudos anteriores sobre degradação ambiental no Pantanal, reforça que a combinação entre perda de vegetação nativa e redução dos corpos d’água cria um cenário de degradação que se retroalimenta: menos água significa menos umidade retida no solo, o que por sua vez reduz ainda mais a cobertura vegetal nativa e amplia a vulnerabilidade do bioma a incêndios florestais, fenômeno que já atingiu mais de 15% da área total do Pantanal em 2024.
Comunidades que dependem da água que está sumindo
Os impactos do colapso hídrico não se limitam à fauna e à flora. Populações ribeirinhas e comunidades tradicionais que vivem da pesca artesanal e do turismo ecológico enfrentam a escassez direta do recurso que sustenta seu modo de vida. A navegabilidade dos rios diminui, a pesca se torna mais difícil em trechos que antes eram profundos o suficiente para embarcações de pequeno porte, e o turismo, uma das principais fontes de renda da região, perde atratividade conforme as paisagens alagadas dão lugar a áreas secas.
O Pantanal presta ainda serviços ecossistêmicos que ultrapassam os limites do bioma, como o armazenamento de carbono, a purificação natural da água e a regulação do clima regional. A degradação desses serviços tem efeito que se estende muito além do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul, os estados brasileiros onde o bioma está localizado.
Um alerta que exige resposta em escala de década
Os pesquisadores são categóricos ao afirmar que a janela para reverter o quadro está se fechando. “O Pantanal está num ponto em que ele precisa urgentemente de ajuda. Se continuarmos nesse mesmo ritmo, infelizmente não teremos mais o bioma daqui 40 ou 50 anos”, afirma Justino.
A recomendação da equipe é clara: o monitoramento contínuo por satélite, combinado com indicadores climáticos, deve se tornar ferramenta permanente de gestão pública, permitindo identificar com antecedência regiões em risco crítico e orientar políticas de conservação hídrica antes que a degradação se torne irreversível. A pesquisa reforça que a preservação do Pantanal depende de decisões que conciliem manejo sustentável do solo e da água com a contenção do avanço de infraestrutura sobre áreas alagáveis, medidas que, segundo os autores, precisam ser implementadas em escala de década, e não de décadas de espera.




