Por décadas, a Amazônia foi tratada pela ciência como um dado praticamente fixo: um imenso reservatório de carbono, capaz de absorver mais gás carbônico do que libera, funcionando como um dos principais reguladores do clima global. Uma síntese de mais de dez anos de observações, publicada na revista Nature, colocou essa certeza em xeque. Os dados mostram sinais concretos de transição, em que partes da floresta amazônica começam a se comportar não mais como reservatório, mas como fonte emissora de carbono.
O trabalho é resultado do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), uma das maiores iniciativas científicas ambientais já realizadas no mundo, reunindo mais de 200 instituições brasileiras e internacionais. Ao longo de mais de uma década, pesquisadores monitoraram torres de medição espalhadas pela bacia amazônica, coletando dados de fluxos de água, energia e carbono entre a floresta e a atmosfera.
O que muda quando a floresta vira fonte
A diferença entre reservatório e fonte de carbono parece técnica, mas tem consequências diretas sobre o equilíbrio climático do planeta. Como reservatório, a floresta amazônica absorve parte do excesso de CO2 lançado na atmosfera por atividades humanas em todo o mundo, funcionando como um amortecedor natural do aquecimento global. Como fonte, ela passa a devolver carbono à atmosfera, tanto pelo desmatamento direto quanto pela decomposição de matéria orgânica e pela redução da capacidade fotossintética das áreas degradadas.
“Embora o balanço de carbono da bacia ainda seja incerto, o desflorestamento mudou o balanço de um possível sumidouro na parte final do século 20 para uma fonte emissora de gás carbônico para a atmosfera”, explica Alessandro Carioca de Araújo, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental e um dos autores do estudo publicado na Nature.
Segundo o levantamento, essa transição não é um fenômeno isolado nem pontual. Ela decorre da interação entre múltiplos fatores que passaram a atuar simultaneamente sobre o bioma: a variabilidade climática global, o avanço do desmatamento, o uso do fogo para abertura de áreas, mudanças na hidrologia dos rios e a pressão humana crescente sobre o território.
A fronteira agrícola como agente de perturbação
O estudo identifica a expansão da fronteira agrícola como um dos principais vetores dessa transformação. À medida que a agricultura avança sobre áreas antes cobertas por floresta primária, os ciclos naturais de água e energia da região são alterados de forma mensurável. A vegetação nativa regula a evapotranspiração, processo pelo qual a floresta libera vapor d’água na atmosfera e contribui para a formação de chuvas na própria bacia amazônica e em regiões distantes, incluindo o Centro-Sul do Brasil.
Quando essa cobertura vegetal é substituída por pastagens ou lavouras, o padrão de evapotranspiração muda significativamente, reduzindo a capacidade da região de reciclar umidade e alimentar o próprio regime de chuvas. Araújo detalha que essa mudança faz parte de uma transição mais ampla no funcionamento biofísico do sistema amazônico.
“Trata-se de uma transição do sistema biofísico amazônico decorrente das interações entre o clima global, uso da terra, fogo, hidrologia, ecologia e dimensões humanas”, afirma o pesquisador.
Entre as consequências já observadas pelo estudo estão o aumento da duração da estação seca em partes da Amazônia e a maior probabilidade de inundações associadas ao aumento da descarga dos rios durante o período chuvoso. Esse padrão de extremos mais intensos, secas mais longas de um lado e cheias mais volumosas de outro, é um dos sinais mais consistentes de que o sistema climático regional está perdendo estabilidade.
O que estudos mais recentes acrescentam a essa história
Passada mais de uma década desde a publicação original na Nature, novas pesquisas conduzidas pela mesma rede de monitoramento do LBA aprofundaram a compreensão sobre como e quando esses limites são ultrapassados. Um estudo publicado em 2023, que analisou mais de doze anos de dados coletados na Floresta Nacional do Tapajós, identificou algo particularmente revelador: durante o forte episódio de El Niño de 2015 e 2016, a floresta apresentou uma quebra no padrão de resposta que vinha sendo observado havia anos.
Até então, os fluxos de transpiração das árvores respondiam de forma previsível às condições climáticas, controlados principalmente pela disponibilidade de energia solar e pela demanda atmosférica por vapor d’água. Durante aquele episódio específico de seca extrema, essa relação se rompeu. As árvores reduziram drasticamente a abertura dos estômatos, estruturas responsáveis pelas trocas gasosas nas folhas, e apresentaram perda acentuada de folhagem, um mecanismo de defesa contra a escassez hídrica severa.
Esse comportamento indicou aos pesquisadores que a floresta havia cruzado um limiar funcional, um ponto de inflexão local a partir do qual a recuperação passou a ser lenta e incompleta mesmo depois do fim da seca. A identificação desse tipo de limiar em escala local é considerada essencial para prever, em escala de toda a bacia amazônica, mudanças mais amplas nos ciclos de água e energia que podem empurrar partes da floresta para estados alternativos e degradados, com menor capacidade de regulação climática.
Uma década de ciência que redefine o que se sabe sobre a Amazônia
O conjunto dessas descobertas reposiciona a forma como cientistas, formuladores de políticas públicas e sociedade em geral devem enxergar a floresta amazônica. Ela deixou de ser tratada como um sistema estável e homogêneo, garantido por sua própria escala, e passou a ser compreendida como um mosaico de regiões em diferentes estágios de resiliência, algumas ainda funcionando como reservatórios eficientes de carbono, outras já mostrando sinais de exaustão funcional.
A convergência entre os dados publicados na Nature em 2012 e os resultados mais recentes de 2023 reforça uma mesma conclusão sob ângulos diferentes: a Amazônia está reagindo de forma mensurável e crescente às pressões combinadas do desmatamento, da fronteira agrícola em expansão e da intensificação de eventos climáticos extremos. Compreender exatamente onde e quando esses limiares são cruzados passou a ser uma das fronteiras mais importantes da ciência climática brasileira, com implicações que ultrapassam em muito os limites geográficos da própria floresta.




