Beleza costuma parecer um critério subjetivo, daqueles que dependem apenas do olhar de quem observa. Na botânica aplicada ao paisagismo, no entanto, existe metodologia objetiva para avaliar se uma planta tem ou não potencial ornamental. É esse critério científico que orienta o projeto de pesquisa da Universidade Estadual de Londrina (UEL) intitulado “Coleta, Identificação, Cultivo e Propagação de Espécies Ornamentais da Flora Brasileira”, desenvolvido pelo Centro de Ciências Biológicas da instituição.
A frente de trabalho mais recente do projeto tem como palco o topo do Morro da Pedra Branca, na Serra do Cadeado, no norte do Paraná. O coordenador, professor Cristiano Medri, do Departamento de Biologia Animal e Vegetal, explica que a avaliação leva em conta características como formato das flores, textura das folhagens e estrutura geral da planta, seguindo parâmetros que permitem comparar espécies de forma consistente, e não apenas por impressão pessoal.
Por que buscar plantas em um afloramento rochoso
A escolha da Serra do Cadeado como área de coleta não é aleatória. A formação geológica que dá nome à serra representa um trecho do escarpamento que separa o Segundo e o Terceiro Planalto Paranaense, com afloramentos de rochas que remontam ao período Permiano, há mais de 250 milhões de anos. Essa geologia particular criou, ao longo do tempo, um mosaico vegetal de transição entre a Floresta Ombrófila Densa e a Floresta Ombrófila Mista, a conhecida mata de araucárias.
Ambientes de transição costumam concentrar uma diversidade vegetal maior do que áreas de vegetação homogênea, porque reúnem espécies adaptadas a diferentes condições de solo, umidade e insolação em um espaço relativamente pequeno. Para um projeto que busca espécies com potencial ornamental ainda pouco estudado, esse tipo de área funciona como um verdadeiro banco genético a céu aberto, com plantas que evoluíram em condições específicas de altitude e afloramento rochoso, e que raramente aparecem em levantamentos florísticos convencionais.
Além do Morro da Pedra Branca, o projeto já realizou coletas em pontos como o Distrito de Lerroville, Guaraqueçaba, Pontal do Paraná, Ilha do Mel, Paraty e o Parque Nacional de Itatiaia, ampliando a base de espécies avaliadas para além do território paranaense.
O ciclo que transforma planta silvestre em planta de jardim
Encontrar uma espécie com apelo estético é apenas a primeira etapa do processo. Depois da coleta e identificação botânica, o projeto avança para experimentos de domesticação, fase que busca entender como cultivar, multiplicar e manter cada espécie fora do seu habitat original. Esse é o gargalo que historicamente impede que plantas nativas cheguem ao mercado de paisagismo: muitas espécies têm exigências específicas de solo, luminosidade ou associações com fungos e polinizadores que dificultam sua adaptação a vasos e jardins convencionais.
“A importância de utilizarmos plantas nativas no paisagismo não é apenas a questão de aproveitar o potencial ornamental das espécies que estão aí. Utilizar plantas nativas no jardim também é ecologicamente importante, porque elas estão envolvidas em relações ecológicas, permitindo que espécies de animais nativos se relacionem com elas”, pondera Cristiano Medri.
Essa dimensão ecológica é um dos pontos mais relevantes do projeto. Uma planta nativa cultivada em jardim urbano continua servindo de alimento, abrigo ou local de reprodução para insetos, aves e outros animais que coevoluíram com ela ao longo de milhares de anos, algo que espécies exóticas normalmente não oferecem com a mesma eficiência.
O tamanho do problema que o projeto tenta resolver
O paisagismo praticado nas cidades brasileiras carrega uma contradição notável. O país concentra uma das floras mais ricas do planeta, mas segue majoritariamente com espécies estrangeiras nos canteiros, praças e jardins. Estudos sobre arborização urbana em diferentes regiões do Brasil apontam que mais da metade das espécies utilizadas no paisagismo das cidades brasileiras são exóticas, um número que evidencia o quanto o potencial ornamental da flora nativa segue subaproveitado.
Esse cenário nacional dá ainda mais peso ao trabalho conduzido na Serra do Cadeado. Cada espécie identificada com potencial ornamental representa uma alternativa concreta à importação estética de plantas de outros continentes, com a vantagem adicional de estar naturalmente adaptada ao clima e ao solo brasileiros, exigindo menos manejo artificial para se manter saudável.
Uma pesquisa que também olha para o telhado ao lado
O projeto de Medri não caminha sozinho dentro da UEL. Em paralelo, o professor Luiz dos Anjos, do mesmo Departamento de Biologia Animal e Vegetal, conduz junto com um orientando um levantamento sobre a interação de aves com telhados verdes e jardins compostos por espécies nativas, incluindo o próprio jardim residencial de Medri como um dos pontos de observação.
Essa conexão entre os dois estudos reforça a lógica central da pesquisa: espécie nativa cultivada em ambiente urbano não é apenas ornamento, é também infraestrutura ecológica. Um jardim com flora nativa se torna ponto de parada para pássaros, insetos polinizadores e outros pequenos animais que perderam espaço com a expansão urbana, funcionando como um corredor ecológico em miniatura dentro da cidade.
O que essa pesquisa pode significar daqui a alguns anos
Projetos desse tipo raramente produzem resultado imediato. O processo de identificação, domesticação e viabilização comercial de uma espécie nativa pode levar anos até que ela chegue de fato aos viveiros e, posteriormente, aos jardins particulares e públicos. Ainda assim, cada espécie validada representa um ativo de longo prazo tanto para o paisagismo quanto para a conservação da biodiversidade regional, já que o cultivo em maior escala reduz a pressão de coleta sobre populações silvestres e amplia o conhecimento científico sobre espécies antes pouco estudadas.
A Serra do Cadeado, formação geológica que carrega registros de mais de 250 milhões de anos em suas rochas, pode assim ganhar um capítulo adicional em sua história: o de ponto de partida para plantas que, um dia, vão florescer em jardins de todo o país.




