Há mecanismos que existem no papel por anos antes de mostrar o que realmente conseguem fazer. O Fundo Amazônia demorou quase uma década e meia para revelar sua escala real, e os números apresentados nesta quinta-feira (11) pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo BNDES deixam pouco espaço para dúvida: o Brasil opera hoje a maior e mais bem-sucedida iniciativa de REDD+ do mundo, com volume de recursos e resultados que nenhum outro país chegou perto de replicar.
Desde a retomada de sua governança, em 2023, o Fundo quadruplicou o ritmo anual de aprovação de projetos. A média que ficava em torno de R$ 300 milhões por ano entre 2009 e 2018 saltou para R$ 1,3 bilhão anuais no ciclo mais recente, entre 2023 e 2026. Em termos absolutos, o período de apenas três anos já responde por 57% de todas as aprovações e contratações da história do mecanismo, acumulado em 18 anos de existência.
O que é o REDD+ e por que isso importa para o planeta
Para entender o peso desse recorde, vale conhecer o mecanismo por trás do Fundo. O REDD+ é uma iniciativa desenvolvida no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) que funciona com uma lógica simples e poderosa: países em desenvolvimento que conseguem reduzir o desmatamento e as emissões associadas recebem compensações financeiras proporcionais aos seus resultados. É, em essência, um sistema que atribui valor econômico à floresta em pé.
O Brasil criou o Fundo Amazônia em 2008 exatamente para canalizar esses recursos, transformando a redução do desmatamento em cooperação internacional concreta. As doações vêm principalmente da Noruega e da Alemanha, países que apostaram no mecanismo como um dos instrumentos mais eficazes de combate às mudanças climáticas disponíveis atualmente. Com R$ 5,3 bilhões em doações e 153 projetos aprovados até agora, o Fundo acumula um portfólio que nenhuma iniciativa similar no mundo conseguiu construir.
O que aconteceu entre 2019 e 2022
A trajetória do Fundo não foi linear. Entre 2019 e 2022, o mecanismo foi paralisado após conflitos entre o governo federal e os países doadores sobre as políticas ambientais brasileiras. A Noruega e a Alemanha suspenderam os repasses diante do aumento acelerado do desmatamento no período, e a estrutura operacional do Fundo dentro do BNDES foi desativada. O resultado foi um hiato de quatro anos que interrompeu projetos, deixou organizações sem financiamento e, na prática, desacelerou ações de conservação em toda a Amazônia.
A retomada em 2023 não foi apenas uma reativação administrativa. Exigiu a recriação da estrutura dedicada ao mecanismo no BNDES, a definição de novas diretrizes de aplicação de recursos e o realinhamento com as políticas públicas de combate ao desmatamento. O salto nos números de aprovação desde então reflete tanto a demanda reprimida quanto a velocidade com que o Fundo buscou recuperar o tempo perdido.
Quem está sendo beneficiado
Os números de alcance do Fundo revelam que sua atuação vai muito além do financiamento de grandes projetos institucionais. Mais de 650 organizações estão entre os beneficiários diretos, o que inclui desde entidades de pesquisa e ONGs ambientais até associações de comunidades tradicionais. Ao todo, 169 terras indígenas e 192 unidades de conservação recebem apoio do mecanismo, compondo uma rede que cobre boa parte dos territórios mais estratégicos para a preservação da floresta.
O impacto humano direto alcança 260 mil pessoas, um número que cresce à medida que novos projetos são aprovados e desembolsados. A média anual de desembolsos entre 2023 e 2025 chegou a R$ 224 milhões, ligeiramente acima da média histórica de R$ 206 milhões registrada entre 2010 e 2018, e a tendência é de crescimento conforme os projetos aprovados recentemente avançam para a fase de execução.
Em quantidade de operações, o aumento também é expressivo: a média saiu de dez projetos aprovados por ano no período anterior para 15 projetos anuais entre 2023 e 2025, um crescimento de 50% que indica não apenas mais dinheiro disponível, mas uma capacidade operacional maior para estruturar e executar iniciativas de conservação com diferentes perfis e escalas.
O que esses recursos financiam na prática
O escopo de atuação do Fundo é amplo e deliberadamente diversificado. A prevenção e o monitoramento do desmatamento formam a espinha dorsal dos projetos, mas o portfólio inclui também ações de restauração florestal, regularização ambiental e territorial e apoio à produção sustentável em comunidades da Amazônia. Essa combinação é relevante porque ataca o problema por múltiplas frentes: reduz a pressão sobre a floresta, recupera áreas já degradadas e oferece alternativas econômicas para populações que dependem do território.
A regularização fundiária, em particular, é um componente frequentemente subestimado nas discussões sobre desmatamento. Boa parte da pressão sobre a floresta tem origem em disputas territoriais não resolvidas, onde a ausência de titulação facilita a grilagem e a ocupação irregular. Projetos que trabalham essa dimensão criam uma base legal e institucional que torna a conservação mais duradoura do que qualquer ação de fiscalização isolada.
Um ativo ambiental que o Brasil ainda subestima
O recorde do Fundo Amazônia chega num momento em que o debate climático global está mais intenso do que nunca, e o Brasil ocupa uma posição que nenhum outro país pode reivindicar: é o guardião do maior repositório de biodiversidade tropical do planeta e, ao mesmo tempo, o operador do mecanismo de financiamento ambiental mais eficaz já criado nesse modelo.
A floresta em pé não é apenas um patrimônio natural. É um ativo climático, hídrico e científico cujo valor real ainda é difícil de calcular com precisão. Cada projeto aprovado pelo Fundo Amazônia é, na prática, um investimento nesse ativo, mantendo funcional um sistema que regula o clima regional, abastece bacias hidrográficas de alcance continental e sustenta uma biodiversidade que a ciência ainda está longe de mapear completamente.
Os R$ 1,3 bilhão aprovados por ano no ciclo atual são um número expressivo. Mas o que eles representam, em termos de floresta preservada, comunidades protegidas e emissões evitadas, é consideravelmente maior do que qualquer cifra consegue comunicar.




