Há mais de um século, o psicólogo alemão Wolfgang Köhler suspendeu uma banana fora do alcance de um chimpanzé e colocou uma pilha de caixas por perto. O primata avaliou a situação, empilhou os engradados, subiu neles e alcançou a fruta. Köhler interpretou aquilo como evidência de raciocínio espontâneo — a capacidade de solucionar um problema novo sem que ninguém ensinasse o caminho. Durante décadas, esse tipo de comportamento foi tratado como atributo de animais com cérebros grandes e complexos. Um estudo recente publicado na revista Science sugere que essa premissa precisa ser revisada com urgência.
Olli Loukola, ecologista comportamental da Universidade de Oulu, na Finlândia, adaptou o experimento clássico de Köhler para testar abelhas da espécie Bombus terrestris, conhecidas no Brasil como mamangava-de-cauda-amarela-clara. O que ele encontrou foi inesperado o suficiente para chamar atenção da comunidade científica internacional.
A armadilha inteligente montada no laboratório
O ponto de partida do experimento foi simples e preciso. Loukola condicionou as abelhas a associar a cor azul a uma recompensa alimentar, um processo que os insetos dominam com rapidez notável. “As abelhas são muito rápidas em associar coisas. Elas aprendem imediatamente que azul significa recompensa. Então, começam a procurar por coisas azuis”, explicou o pesquisador.
Com essa associação estabelecida, ele criou o cenário do teste real: pintou um círculo azul no teto de um recipiente fechado, mas sem colocar nenhum alimento lá. A recompensa existia, era visível, porém estava completamente fora do alcance. O recipiente foi projetado de maneira precisa — alto demais para que as abelhas alcançassem o teto em pé, mas pequeno demais para que conseguissem voar até lá. No chão, uma pequena bola de isopor havia sido deixada propositalmente.
O que aconteceu em seguida foi o centro de toda a descoberta.
Setenta e cinco por cento delas fizeram a mesma coisa
Sem qualquer instrução, sem observar outra abelha resolver o problema antes e sem ter passado por treinamento específico, quase três quartos das abelhas testadas agarraram a bolinha de isopor, rolaram-na até a posição diretamente abaixo do círculo azul, subiram sobre ela e usaram esse degrau improvisado para tocar o teto e alcançar a recompensa.
O comportamento foi registrado em vídeo e analisado em detalhe. Para eliminar qualquer dúvida sobre se as abelhas estariam apenas seguindo um reflexo ou uma rota visual direta, Loukola e sua equipe introduziram barreiras no interior do recipiente, bloqueando a linha de visão para o círculo azul. A bola de isopor foi reposicionada em um canto diferente. Mesmo assim, cerca de 80% de um novo grupo de abelhas repetiu o comportamento: encontrou a bola, manobrou ao redor da barreira para localizar o círculo e rolou o objeto até a posição correta.
“O que torna esse comportamento especialmente notável é que as abelhas nunca haviam sido treinadas para rolar a bola. Este foi um desafio completamente novo. Seu comportamento pareceu ser direcionado a um objetivo, com os indivíduos bem-sucedidos apresentando padrões de movimento mais direcionados”, afirma Akshaye Bhambore, um dos coautores do estudo.
O tamanho do cérebro e o tamanho da descoberta
O que torna o resultado particularmente relevante para a ciência é o que ele implica sobre a relação entre tamanho cerebral e capacidade cognitiva. O cérebro de uma abelha tem aproximadamente o tamanho de uma semente de gergelim. Ainda assim, o inseto demonstrou um comportamento que, até este estudo, havia sido documentado sistematicamente apenas em mamíferos e aves com estruturas neurais incomparavelmente mais complexas.
Pesquisas anteriores já haviam mostrado que abelhas são capazes de aprender socialmente, cooperar com outras da colônia, resolver tarefas semelhantes a quebra-cabeças e adaptar comportamentos de forma flexível. O que este experimento acrescenta é a dimensão da espontaneidade: a capacidade de encarar um problema inédito, sem referência prévia, e encontrar uma solução funcional por conta própria.
Para Cat Hobaiter, primatóloga da Universidade de St. Andrews que acompanhou o estudo de fora, o experimento de Loukola replica com sucesso descobertas que vêm sendo acumuladas com animais de diferentes grupos taxonômicos. “Cérebros inteligentes vêm em formatos e tamanhos realmente diversos”, observou ela.
O que muda com essa descoberta
A implicação mais imediata é conceitual: os critérios que a ciência usa para identificar e classificar inteligência precisam ser ampliados. Durante muito tempo, a neurociência cognitiva tomou o volume e a complexidade do cérebro como variáveis preditoras do comportamento inteligente. Os polvos já haviam colocado em xeque parte dessa lógica. As abelhas reforçam o argumento.
Há também uma camada ecológica importante nessa discussão. Abelhas como a Bombus terrestris desempenham papel fundamental na polinização de ecossistemas inteiros, e compreender melhor suas capacidades cognitivas oferece novos ângulos para entender como elas tomam decisões no campo, navegam por ambientes alterados e respondem a situações que nunca enfrentaram antes — algo cada vez mais relevante num mundo onde os habitats mudam mais rápido do que qualquer espécie consegue acompanhar por adaptação genética.
O experimento de Loukola começou com uma bolinha de isopor num recipiente fechado. Terminou deslocando uma fronteira científica que parecia bem estabelecida.




