Existe uma borboleta que você pode estar olhando diretamente sem enxergar. Não por falta de atenção, mas porque a evolução passou milênios aperfeiçoando exatamente essa ilusão. A Ithomia drymo, conhecida popularmente como borboleta-asa-de-vidro, tem as asas quase completamente transparentes — uma característica tão incomum no mundo dos insetos que chega a parecer resultado de manipulação digital quando aparece numa fotografia.
No último dia 3, ela foi registrada em vida real, numa trilha dentro do Parque Estadual da Serra da Tiririca, em Niterói. Quem fez o registro foi Ronaldo Costa, guarda-parque do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), durante uma atividade de monitoramento na trilha para Itaocaia. O encontro foi raro, mas não foi por acaso: a espécie vive exclusivamente em ambientes muito específicos, e o fato de ter sido encontrada ali diz tanto sobre a floresta quanto sobre o próprio inseto.
O que torna uma asa transparente
A transparência nas asas de borboletas é um fenômeno incomum. A maioria das espécies investe em cores vibrantes, padrões de olhos falsos ou mimetismo visual para escapar de predadores. A Ithomia drymo seguiu outro caminho: simplesmente desaparecer.
As asas das borboletas comuns são cobertas por escamas microscópicas que refletem e absorvem a luz, criando as cores que vemos. Na asa-de-vidro, essas escamas são esparsas ou quase ausentes em grande parte da ala, o que permite que a luz passe diretamente pelo tecido membranoso, tornando-o translúcido. O resultado prático é uma borboleta que, pousada sobre uma folha ou em voo entre galhos, se dissolve no plano de fundo da floresta com uma eficiência que pouquíssimos animais conseguem replicar.

Esse mecanismo funciona especialmente bem nas condições das florestas densas e úmidas da Mata Atlântica, onde a luz filtrada pelo dossel cria um ambiente de sombras difusas. Nesse cenário, uma asa transparente é uma armadura natural quase perfeita.
A toxina que vem da lagarta
A transparência, porém, não é o único recurso defensivo da espécie. A estratégia da Ithomia drymo começa muito antes de ela ter asas, ainda na fase de lagarta, quando se alimenta de plantas do gênero Cestrum, grupo que inclui espécies com compostos químicos altamente tóxicos para vertebrados.
Ao ingerir essas substâncias, a lagarta não é envenenada, mas as acumula nos próprios tecidos. Esse processo de sequestro químico continua pela metamorfose e persiste no inseto adulto, tornando a borboleta desagradável ou tóxica para aves e outros predadores que eventualmente consigam avistá-la. É uma combinação incomum: invisibilidade visual para os que tentam encontrá-la e toxicidade química para os que conseguem.
A dependência de plantas específicas como o Cestrum também explica em parte por que a espécie não sobrevive em qualquer ambiente. Sem a planta hospedeira adequada, o ciclo se interrompe antes mesmo de começar.
Por que o registro importa além da raridade
O encontro no Parque da Serra da Tiririca tem um significado que vai além da raridade do avistamento. A Ithomia drymo é classificada como bioindicadora ambiental, um termo técnico para espécies cuja presença ou ausência funciona como termômetro do estado de conservação de um ecossistema.
Diferentemente de espécies generalistas que se adaptam a ambientes degradados, a borboleta-asa-de-vidro exige condições muito precisas para sobreviver: floresta densa, microclima úmido preservado, vegetação nativa íntegra e a presença das plantas hospedeiras certas. Se qualquer um desses elementos faltar, a espécie simplesmente não se estabelece.

Isso transforma cada registro confirmado da Ithomia drymo num certificado biológico da qualidade ambiental da área. Encontrá-la na Serra da Tiririca indica que aquele trecho de Mata Atlântica mantém, ao menos localmente, as condições originais que sustentam uma fauna exigente. Num estado como o Rio de Janeiro, onde a Mata Atlântica original foi reduzida a fragmentos, esse tipo de sinal tem peso considerável.
A Serra da Tiririca como refúgio urbano
O Parque Estadual da Serra da Tiririca ocupa cerca de 2.700 hectares entre Niterói e Maricá, numa região de urbanização intensa. Sua existência como unidade de conservação representa um dos poucos pontos de continuidade florestal na região metropolitana fluminense, o que o torna um refúgio relevante para espécies que não toleram ambientes alterados.
O monitoramento realizado pelo Inea nessas trilhas tem exatamente a função de registrar quais espécies ainda habitam o parque e em que condições. O encontro com a borboleta-asa-de-vidro é o tipo de dado que alimenta esse retrato — e que, acumulado ao longo do tempo, permite avaliar se o parque está cumprindo seu papel de conservação ou se pressões externas estão degradando silenciosamente o que ainda resta.
Ronaldo Costa, ao documentar o registro com precisão durante a atividade de monitoramento, contribuiu com um dado que ultrapassa o registro fotográfico. Num ambiente onde a biodiversidade se perde muitas vezes antes de ser catalogada, registrar uma espécie tão exigente quanto a Ithomia drymo é também uma forma de mostrar o que vale a pena proteger.
Fonte original da notícia: G1 Rio / Globo




