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As plantas mais antigas do mundo estão monitorando o ar das cidades e ninguém está olhando para elas

Briófitas e líquens absorvem poluentes diretamente da atmosfera, funcionando como bioindicadores precisos da saúde ambiental urbana. A ciência sabe ler esses sinais há décadas; as cidades brasileiras ainda aprendem

Escrito por: Mania de Plantas Revisão: Mel Maria
10 de junho de 2026
in Mundo Botânico & Ciência
As plantas mais antigas do mundo estão monitorando o ar das cidades e ninguém está olhando para elas

Há organismos vivos espalhados por calçadas, telhados, troncos de árvores e muros de concreto que registram, em silêncio, a composição química do ar que circula pelas cidades. Não são equipamentos eletrônicos nem sensores de última geração. São briófitas e líquens, estruturas biológicas com centenas de milhões de anos de existência, que o olhar urbano cotidiano passou a ignorar quase por completo. O problema é que eles continuam registrando, mesmo que ninguém esteja lendo o que escrevem.

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A capacidade desses organismos de funcionar como bioindicadores da qualidade do ar não é hipótese recente. Desde os anos 1970, a ciência utiliza a presença, a ausência e a diversidade de espécies de líquens como ferramenta de avaliação ambiental em cidades europeias. O que mudou nas últimas décadas é a sofisticação dos métodos de leitura e a compreensão mais detalhada de por que esses organismos respondem à poluição de formas tão previsíveis e mensuráveis.

O que são briófitas e por que elas não são o que parecem

As briófitas formam um grupo de plantas terrestres que inclui os musgos, as hepáticas e os antóceros. São consideradas as plantas mais antigas a colonizar ambientes fora da água, com registros fósseis que remontam a cerca de 470 milhões de anos, bem antes das árvores e das flores existirem. Apesar da antiguidade, mantêm uma estrutura surpreendentemente simples: não possuem sistema vascular, ou seja, não têm vasos internos para conduzir água e nutrientes como as plantas que habitam jardins e florestas.

Essa ausência de sistema vascular é, ao mesmo tempo, a característica que as torna tão vulneráveis ao ambiente e tão úteis como indicadoras de qualidade. Sem uma via interna de abastecimento, as briófitas dependem inteiramente da água e dos compostos que conseguem absorver diretamente da superfície do seu corpo a partir da atmosfera. Cada gota de chuva, cada corrente de ar, cada partícula que circula no ambiente entra em contato direto com seus tecidos. Não há filtro, não há mecanismo de seleção.

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Os líquens merecem uma observação à parte porque, tecnicamente, não são plantas. São organismos simbióticos formados pela associação entre um fungo e uma alga microscópica ou cianobactéria. O fungo fornece estrutura e proteção; a alga realiza fotossíntese e produz energia para os dois. Essa parceria evoluiu ao longo de centenas de milhões de anos e resultou num organismo capaz de sobreviver em condições extremas — sobre rochas, em desertos, no Ártico e em ambientes urbanos. Mas, assim como as briófitas, líquens não têm raízes nem sistema vascular e dependem totalmente da atmosfera para se sustentar.

Como a poluição se torna legível nesses organismos

O mecanismo pelo qual briófitas e líquens funcionam como bioindicadores é direto. Dióxido de enxofre, óxidos de nitrogênio, ozônio, metais pesados e partículas finas em suspensão são compostos presentes no ar das grandes cidades em concentrações variáveis. Quando esse ar entra em contato com os tecidos de um líquen ou de um musgo, os compostos são absorvidos e acumulados — sem a possibilidade de excreção ou detoxificação eficiente que plantas vasculares conseguem realizar.

As plantas mais antigas do mundo estão monitorando o ar das cidades e ninguém está olhando para elas

Em concentrações baixas, a absorção é tolerada. Acima de determinados limites, a fotossíntese é comprometida, o crescimento é interrompido, os tecidos se deterioram e o organismo morre ou desaparece da área. Esse comportamento cria um gradiente observável: onde a poluição é intensa, a diversidade de espécies cai drasticamente, e as que sobrevivem são justamente as mais tolerantes, com morfologia mais simples. Onde o ar é mais limpo, a variedade aumenta e surgem espécies mais complexas e sensíveis.

Na prática, a simples observação de quais espécies de líquens estão presentes em determinada área de uma cidade já fornece informações sobre a qualidade do ar local. A escala desenvolvida pelos cientistas britânicos David Hawksworth e Francis Rose, em 1970, foi pioneira nesse mapeamento e estabeleceu a base metodológica que ainda orienta estudos de biomonitoramento ao redor do mundo. A escala classifica zonas urbanas de acordo com as espécies presentes e correlaciona essa diversidade com concentrações estimadas de poluentes atmosféricos.

O fenômeno dos desertos de líquens nas cidades

Existe um termo, utilizado por ecólogos e botânicos, para descrever as regiões urbanas onde a ausência de líquens é total ou quase total: desertos de líquens. A expressão é precisa e reveladora. Onde não há líquens, o ar apresenta concentrações de poluentes suficientemente altas para inviabilizar a sobrevivência desses organismos. O concreto, o asfalto e as superfícies urbanas das áreas mais densas e poluídas das grandes cidades são, para os líquens, ambientes tão hostis quanto os desertos físicos são para a maioria das plantas.

O que torna o conceito especialmente útil para o planejamento urbano é sua dimensão espacial. Ao mapear a distribuição de espécies de líquens ao longo de uma cidade, é possível construir um mapa de qualidade do ar com resolução geográfica considerável, sem depender de uma rede densa e cara de sensores eletrônicos. Estudos realizados em cidades europeias, especialmente no Reino Unido, na Itália e em Portugal, demonstraram que esse tipo de biomonitoramento produz dados consistentes com as medições instrumentais, com a vantagem adicional de refletir a qualidade do ar ao longo do tempo, e não apenas no momento da medição.

Cidades como Londres documentaram, ao longo de décadas, o retorno gradual de espécies de líquens após a implementação de políticas de controle de emissões. Essa recuperação foi lida, entre outros indicadores, como evidência de melhoria real na qualidade do ar urbano.

O Brasil e o potencial inexplorado do biomonitoramento

No Brasil, o interesse científico no uso de briófitas e líquens como bioindicadores existe e produz pesquisas relevantes, mas ainda está longe de se traduzir em políticas públicas ou em ferramentas de monitoramento ambiental sistematizadas pelas prefeituras. Cidades como São Paulo, onde a qualidade do ar é monitorada por redes de estações instrumentais como as operadas pela CETESB, apresentam ao mesmo tempo uma flora liquênica urbana que poderia ser lida como camada complementar de diagnóstico ambiental.

A biodiversidade brasileira de briófitas é uma das maiores do mundo. Estima-se que o país abriga mais de 1.500 espécies de musgos e hepáticas catalogadas, com concentrações elevadas na Mata Atlântica e na Amazônia. Nas cidades, esse patrimônio botânico cresce de forma discreta sobre superfícies úmidas, telhados antigos, calçadas sombreadas e parques arborizados, cumprindo funções que vão além do biomonitoramento: retêm umidade, regulam a temperatura de superfícies, reduzem o escoamento de água da chuva e contribuem para a biodiversidade urbana.

O que a presença de musgo numa calçada realmente significa

Para quem passa todos os dias diante de uma parede coberta de musgo ou de um tronco manchado por líquens cinza-esverdeados, esses organismos raramente parecem carregar alguma informação relevante. A leitura mais comum é estética ou até negativa, associada à umidade excessiva ou à deterioração de superfícies. O que a ciência propõe é uma inversão completa desse olhar.

A presença de musgo numa calçada urbana indica que aquele microambiente tem umidade, sombreamento e uma qualidade de ar compatível com a sobrevivência de um organismo sem proteção atmosférica. A presença de líquens foliosos, aqueles com estrutura em lâminas e maior complexidade morfológica, numa árvore de parque urbano indica que o ar daquela área não ultrapassa os limites críticos de dióxido de enxofre e de partículas em suspensão. A diversidade dessas espécies ao longo de um transecto pela cidade funciona como um gradiente legível de saúde ambiental.

São organismos que não têm voz, mas têm linguagem. Saber lê-la é, cada vez mais, uma habilidade que ecólogos, urbanistas e gestores ambientais precisam incorporar ao repertório de ferramentas com que analisam e planejam as cidades. Para isso, o primeiro passo é mais simples do que parece: parar de ignorar o que cresce nas paredes.

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