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A lenda da palmeira que anda: o que as raízes gigantes da paxiúba escondem de verdade

Conhecida como palmeira-andante, a paxiúba desafia a lógica de quem a observa pela primeira vez. A ciência desfez o mito do movimento, mas o que descobriu no lugar é igualmente surpreendente

Escrito por: Mania de Plantas Revisão: Derick Machado
10 de junho de 2026
in Mundo Botânico & Ciência
Foto: Brendon Campos/Instituto Inhotim

Foto: Brendon Campos/Instituto Inhotim

Há poucas coisas na natureza capazes de gerar tanta desconfiança nos próprios olhos quanto uma palmeira cujo tronco parece ter se deslocado alguns metros desde a última vez que você passou por ali. Na Amazônia, essa experiência é real e recorrente para quem convive com a paxiúba, uma palmeira de raízes aéreas tão imponentes que lembram as pernas de uma aranha gigante saindo do solo. A impressão de movimento é tão convincente que a espécie ganhou nomes populares que sustentam a lenda há séculos: palmeira-andante, palmeira-caminhante, sete-pernas.

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“É um processo natural de substituição das raízes de apoio. Novas raízes crescem e as antigas se decompõem, gerando uma falsa sensação de movimento”, explica Osvanda Silva de Moura, doutora em Botânica e professora da Universidade Federal de Rondônia (Unir).

O que ocorre, na prática, é uma renovação contínua das raízes escora, que são as estruturas responsáveis por sustentar o tronco acima do solo. À medida que novas raízes emergem em direções diferentes, as antigas se decompõem e desaparecem. Para quem observa a planta em momentos distintos, a posição aparente do tronco parece ter mudado, criando a ilusão de deslocamento. Não há evidência científica de que o tronco da paxiúba se mova de fato. O que se move, ao longo do tempo, é o conjunto de raízes que o sustenta.

Curiosamente, o mito tem uma lógica botânica por trás. A paxiúba é encontrada principalmente em várzeas, igapós e regiões sujeitas a alagamentos periódicos, ambientes onde o solo é instável e a lâmina de água pode cobrir as raízes por semanas. Nesses contextos, a renovação das raízes escora é ainda mais intensa e visível, o que alimenta a percepção de movimento com mais frequência.

Raízes que fazem o trabalho de um andaime vivo

As raízes que deram fama à paxiúba não são apenas esteticamente impressionantes. Elas representam uma solução engenhosa da evolução para um dos ambientes mais desafiadores da floresta tropical.

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“A principal função dessas raízes é garantir estabilidade em solos pantanosos, instáveis e frequentemente alagados”, afirma Osvanda.

Além da sustentação mecânica, as raízes aéreas contribuem para a troca de gases em solos com baixa concentração de oxigênio, um problema comum em áreas de inundação onde a respiração das raízes subterrâneas fica comprometida. O sistema também permite que a planta posicione o tronco em alturas que favorecem o acesso à luz, o que em florestas densas representa uma vantagem competitiva considerável.

O conjunto dessas raízes forma um cone invertido ao redor da base do tronco, com estruturas espinhosas que podem atingir até dois metros de altura. Em exemplares mais desenvolvidos, o visual é inconfundível e, para quem nunca viu antes, genuinamente desconcertante.

Uma palmeira no centro da cadeia alimentar

A paxiúba, conhecida cientificamente como Socratea exorrhiza e pertencente à família Arecaceae, está presente desde a América Central até a Bacia Amazônica. Sua importância ecológica, porém, vai muito além das raízes espetaculares. Os frutos da espécie são consumidos por uma variedade expressiva de animais: macacos, antas, porcos-do-mato, tucanos e diversas outras aves dependem dessa fonte alimentar em determinados períodos do ano.

“Ela serve de base para a cadeia alimentar local. Os animais que consomem seus frutos também ajudam na dispersão das sementes, contribuindo para a regeneração da floresta”, destaca a pesquisadora. As raízes, por sua vez, funcionam como abrigo para pequenos mamíferos, insetos e outros organismos que encontram nessas estruturas proteção e microclima adequado.

Essa dupla função, de fonte de alimento e de habitat, coloca a paxiúba numa posição central dentro do ecossistema. Espécies com esse perfil são chamadas de espécies-chave: sua presença sustenta uma teia de relações ecológicas que dependem diretamente dela para se manter.

O uso milenar pelas comunidades da floresta

Além do papel ecológico, a paxiúba faz parte da história e do cotidiano das comunidades amazônicas há gerações. A madeira do tronco é utilizada na construção de casas e estruturas rústicas, valorizada pela durabilidade mesmo em ambientes úmidos. As sementes são aproveitadas no artesanato e na fabricação de biojoias, e há registros consolidados de usos na medicina tradicional.

Um dos usos mais curiosos, porém, envolve justamente as raízes espinhosas que definem a identidade visual da planta. “As raízes passam por um processo de preparação para que os espinhos fiquem mais resistentes e possam ser utilizados nesse trabalho”, explica Osvanda, referindo-se ao aproveitamento das raízes como raladores de mandioca por comunidades da região. A adaptação é um exemplo de como a floresta oferece soluções funcionais que as populações tradicionais aprenderam a reconhecer e utilizar com precisão ao longo do tempo.

O que o desaparecimento da paxiúba significaria

Como a maioria das espécies amazônicas, a paxiúba enfrenta ameaças crescentes. O desmatamento, as queimadas e as mudanças climáticas pressionam os ambientes úmidos onde ela prospera, reduzindo gradualmente o território disponível para a espécie. O impacto de sua eventual extinção local, segundo Osvanda, não se limitaria à perda de uma palmeira.

“Os frutos alimentam diversos animais, as raízes servem de abrigo para a fauna e a espécie participa da dinâmica da floresta. Sua ausência provocaria efeitos em cascata”, alerta a pesquisadora.

Toda espécie com papel de elo na cadeia alimentar, quando desaparece, arrasta consigo uma série de relações que dependiam dela para existir. Animais dispersores de sementes que dependiam dos frutos da paxiúba precisariam compensar essa perda com outras fontes, e as espécies que usavam as raízes como abrigo perderiam um habitat específico.

Fonte: informações: G1 RO
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