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A jiboia do Cerrado que desafia o que a ciência sabia sobre reprodução em serpentes

Pesquisa do Instituto de Biociências da USP detalha pela primeira vez o comportamento reprodutivo da Epicrates crassus e propõe um fenômeno nunca registrado antes na espécie

Revisão: Derick Machado
6 de junho de 2026
in Fauna & Vida Silvestre
A jiboia do Cerrado que desafia o que a ciência sabia sobre reprodução em serpentes

Até pouco tempo atrás, a ciência sabia muito pouco sobre como a jiboia arco-íris do Cerrado se reproduz. A Epicrates crassus, serpente da família Boidae que habita um dos biomas mais ameaçados do planeta, vivia esse vácuo de conhecimento que acomete tantas outras espécies da fauna brasileira: presente nas coleções zoológicas, estudada em partes, mas sem que seu ciclo reprodutivo jamais tivesse sido descrito de forma sistemática. Uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Biociências (IB) da USP veio preencher essa lacuna, e trouxe junto uma descoberta que ninguém havia registrado antes para a espécie: a possibilidade de intersexualidade em machos.

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O estudo, conduzido por Rafael Anzai como parte de sua dissertação de mestrado em Zoologia, analisou quase 130 animais pertencentes a coleções científicas dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Todos passaram por dissecação e avaliação dos órgãos do trato reprodutivo, o que permitiu caracterizar o ciclo da espécie com um nível de detalhe inédito para a Epicrates crassus.

Um ciclo sazonal com pico no outono

O resultado central da pesquisa define o ciclo reprodutivo da jiboia arco-íris do Cerrado como sazonal, semi-síncrono e descontínuo. Em linguagem direta: a espécie tem um período concentrado de reprodução, com atividade quase simultânea entre os indivíduos e intervalos de pausa entre os ciclos. O pico de produção de gametas, as células sexuais que se fundem na fecundação, ocorre no outono, época em que a espécie está biologicamente preparada para se reproduzir.

Essa sazonalidade contrasta com o que se observa em mamíferos, que mantêm capacidade reprodutiva ao longo do ano inteiro. Para serpentes, a concentração em uma janela específica do calendário implica que fatores ambientais, como temperatura e fotoperíodo, exercem papel regulador sobre o ciclo, algo que o estudo ajuda a documentar com precisão.

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“A gente entende o ciclo para entender o comportamento, para entender hormônio, para entender e ter informações para conservação”, explica Rafael Anzai, autor do estudo e mestre em Zoologia pelo IB da USP.

O combate ritual e a disputa pelo acasalamento

Um dos aspectos mais reveladores do estudo envolve o comportamento dos machos durante a época reprodutiva. A jiboia arco-íris do Cerrado apresenta o chamado combate ritual, uma disputa física entre machos pelo acesso à fêmea, na qual o vencedor é quem copula. O perdedor se retira e mantém comportamento mais reservado durante o período.

Esse fenômeno levanta questões precisas sobre a relação entre hormônios e sazonalidade. A pesquisa identificou uma associação provável entre os combates e o período de maior produção de espermatozoides nos machos, o que sugere que a testosterona pode exercer influência direta sobre a competitividade — uma relação já indicada em estudos anteriores com outras espécies.

O que torna o dado ainda mais interessante é o padrão de dimorfismo sexual encontrado. As fêmeas da Epicrates crassus são maiores que os machos, seguindo a tendência geral das serpentes. A particularidade está no fato de que, em espécies que praticam combate ritual, o esperado seria o inverso, com machos maiores, já que o tamanho corporal tende a oferecer vantagem nas disputas físicas.

Selma Santos, orientadora da pesquisa e vice-diretora do Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv) do Instituto Butantan, destaca a riqueza comportamental da espécie: “será que os machos combatem na época em que estão produzindo muitos espermatozoides? Será que os machos combatem porque naquela época a fêmea está com folículo ovariano pronto para a reprodução?”

A descoberta que ninguém esperava: possível intersexualidade

A parte mais inédita do estudo diz respeito a uma característica encontrada em um número significativo de machos avaliados: a presença de partes de oviduto, estrutura que funcionalmente corresponde ao útero nas fêmeas, onde ocorre a fertilização e a formação dos ovos. Trata-se de uma característica do aparato reprodutivo feminino em animais geneticamente machos — o que configura, segundo os pesquisadores, um possível caso de intersexualidade.

A intersexualidade se diferencia do hermafroditismo de forma importante. No hermafroditismo, os dois sistemas reprodutivos funcionam e produzem gametas. Na intersexualidade, o que se observa é a presença de alguma estrutura pertencente ao sexo oposto, que pode ser completa ou vestigial, ou seja, algo que começou a se formar durante o desenvolvimento do animal mas foi interrompido antes de se completar.

Foi exatamente o caso vestigial que Anzai identificou nos machos da Epicrates crassus. “Falamos que é vestigial porque era uma coisinha delimitada; o útero das fêmeas é um cordão grande, tipo um tubo, que vai do ovário até a saída. Nesses machos eu vi uma coisa delimitada”, descreve o pesquisador.

O fenômeno nunca havia sido documentado antes para a espécie. O estudo propõe uma semelhança com a síndrome da persistência dos ductos de Müller, condição rara em que machos apresentam estruturas que normalmente originam o sistema reprodutor feminino. Até o momento, os dados indicam que a produção de gametas nesses machos ocorre normalmente, mas o pesquisador é cauteloso: ainda são necessárias investigações adicionais para compreender se e como essa característica afeta o ciclo reprodutivo desses indivíduos.

Por que isso importa para a conservação

A pesquisa se enquadra no que a ciência chama de ciência básica, aquela sem aplicação imediata direta, mas que cria a base sem a qual nenhuma estratégia aplicada consegue funcionar. No caso da fauna brasileira, essa base está longe de ser completa: o ciclo reprodutivo de muitas espécies segue desconhecido, o que inviabiliza a criação de programas de conservação efetivos.

A própria jiboia comum (Boa constrictor), parente próxima da espécie estudada e alvo frequente do mercado de caça ilegal, nunca teve seu ciclo reprodutivo descrito. Sem esse dado, as estratégias de preservação da espécie operam sem uma das informações mais elementares sobre sua biologia. O trabalho com a Epicrates crassus demonstra que preencher essas lacunas é possível, viável e necessário, especialmente para uma família de serpentes, a Boidae, que inclui sucuris e outras jiboias igualmente pouco estudadas em aspectos reprodutivos.

A escolha da jiboia arco-íris do Cerrado para o estudo não foi aleatória. Além da afinidade do pesquisador com a família Boidae, a espécie tem uma vantagem prática: atinge a maturidade sexual com cerca de um metro de comprimento, tamanho bem menor do que os três metros das jiboias comuns, o que aumenta a chance de encontrá-la em coleções zoológicas. Foi exatamente esse acervo, espalhado por instituições de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, que tornou possível o volume de análises necessário para as conclusões do estudo.

Via: Estudo original - USP
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