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Pequizeiro em risco: a cadeia invisível entre fauna e floresta que sustenta o símbolo do Cerrado

A regeneração natural do pequi depende de mamíferos de grande porte para dispersar suas sementes, e a redução desses animais no bioma está comprometendo décadas de renovação dos pequizais nativos

Revisão: Derick Machado
17 de maio de 2026
in Clima e Sustentabilidade
Pequizeiro em risco: a cadeia invisível entre fauna e floresta que sustenta o símbolo do Cerrado

O pequi é o fruto mais reconhecível do Cerrado. Presente na culinária goiana, mineira e mato-grossense, ele carrega uma identidade cultural e econômica que atravessa gerações. O que poucos percebem é que sua regeneração natural depende de uma cadeia ecológica que está se desfazendo silenciosamente, à medida que os grandes mamíferos do bioma perdem espaço para a expansão agrícola e a fragmentação dos habitats.

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A Caryocar brasiliense produz um fruto pesado, com caroço rígido e polpa densa. Essa estrutura não foi desenhada para cair e germinar embaixo da árvore-mãe. Ela foi moldada ao longo de milhões de anos para ser engolida, transportada e depositada longe do ponto de origem por animais de grande porte. Antas, veados-campeiros, catetos e queixadas são os principais responsáveis por esse transporte. Ao digerirem a polpa e excretarem o caroço, esses animais cumprem uma função que nenhuma outra espécie substitui com a mesma eficiência.

O caroço que a maioria dos animais não consegue engolir

A estrutura do fruto do pequi limita naturalmente o número de dispersores eficientes. O caroço é grande, pesado e envolto por uma camada fibrosa que dificulta o acesso à polpa por espécies menores. Roedores como cutias conseguem roer o caroço para acessar a amêndoa interna, mas esse comportamento destrói a semente em vez de dispersá-la. Pássaros, em geral, não têm capacidade de ingerir o fruto inteiro.

Consequentemente, a dispersão efetiva depende quase exclusivamente dos mamíferos de médio e grande porte que engolem o fruto inteiro ou em partes significativas e o transportam em seu sistema digestivo por horas antes de excretá-lo. Esse processo, além de garantir o deslocamento da semente, prepara o caroço para a germinação, uma vez que as enzimas digestivas amolecem a estrutura rígida externa e estimulam o processo germinativo.

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Sem essa passagem pelo trato digestivo, o caroço do pequi tem taxas de germinação significativamente menores. A casca rígida funciona como uma barreira física que dificulta a entrada de água e oxigênio necessários para a ativação da semente.

A fauna que sumiu e o vazio que ficou

O Cerrado perdeu mais de 50% de sua cobertura vegetal original nas últimas décadas, segundo dados do MapBiomas. Com o desmatamento, a caça ilegal e a fragmentação dos habitats, as populações de antas, veados-campeiros e catetos recuaram drasticamente em grande parte do bioma. Em muitas regiões do Brasil Central, esses animais simplesmente não existem mais em densidades funcionais, ou seja, em números suficientes para cumprir seu papel ecológico.

Esse vazio faunístico produz um fenômeno chamado pelos ecólogos de defaunação. A floresta continua de pé, as árvores adultas continuam produzindo frutos, mas a renovação das gerações seguintes está comprometida. Os pequizeiros adultos existentes reproduzem, porém as sementes não encontram dispersores eficientes. Elas caem sob a copa da planta-mãe, germinam em baixíssima proporção e, mesmo quando germinam, competem diretamente com a planta original por luz, água e nutrientes.

Estudos realizados em fragmentos florestais do Cerrado com e sem fauna preservada mostram diferenças expressivas na densidade de plântulas de pequizeiro. Áreas com populações funcionais de grandes mamíferos apresentam regeneração natural consistente, com plântulas distribuídas de forma mais uniforme pelo terreno. Áreas defaunadas, por outro lado, concentram as poucas plântulas existentes próximas às árvores adultas, padrão que indica dispersão precária e compromete a diversidade genética dos pequizais ao longo das gerações.

O impacto que vai além do fruto

O pequizeiro adulto vive por décadas. Isso significa que os pequizais nativos existentes hoje são, em grande parte, herança de uma época em que a fauna do Cerrado ainda estava razoavelmente preservada. A geração atual de árvores cresceu e se estabeleceu em um bioma com antas, veados e catetos em densidades muito superiores às atuais. O problema é que essa geração está envelhecendo e a substituição natural está travada.

Além disso, o pequizeiro desempenha funções ecológicas que vão muito além da produção de frutos para consumo humano. Suas raízes profundas acessam camadas do solo inacessíveis para espécies mais rasas, contribuindo para a ciclagem de nutrientes. Sua floração, que ocorre entre setembro e novembro, oferece néctar para abelhas nativas em um período de transição entre a seca e as chuvas, quando a oferta de recursos florais é baixa no Cerrado. Seus frutos alimentam dezenas de espécies animais, não apenas os grandes mamíferos dispersores.

Por isso, a redução dos pequizais nativos não afeta somente a cadeia produtiva do fruto, ela reorganiza a estrutura ecológica de extensas áreas do bioma, alterando desde a disponibilidade de alimento para a fauna até a composição do solo e a oferta de polinizadores para culturas agrícolas do entorno.

Comunidades extrativistas sentem o efeito no campo

Para as comunidades que vivem do extrativismo do pequi no norte de Minas Gerais, no sul do Maranhão e em Goiás, a redução gradual dos pequizais nativos já é percebida empiricamente. Colhedores relatam que precisam percorrer distâncias maiores para encontrar árvores produtivas e que a densidade de pequizeiros jovens em áreas de coleta tradicional diminuiu visivelmente nas últimas décadas.

Esse dado empírico converge com o que a ecologia da dispersão já documentou em termos científicos. A regeneração comprometida de hoje é a escassez de frutos de amanhã. O intervalo entre a defaunação de uma área e a percepção econômica do impacto pode levar décadas, exatamente porque os pequizeiros adultos continuam produzindo por muito tempo. Quando a ausência de renovação se torna visível, a janela para intervenção eficaz já se fechou em grande parte.

Restauração precisa incluir fauna, não apenas plantas

Projetos de restauração do Cerrado focados exclusivamente no plantio de espécies vegetais nativas enfrentam um limite estrutural quando se trata do pequizeiro. Plantar mudas resolve o problema no curto prazo, mas não restabelece o processo ecológico que garante a renovação autônoma e contínua dos pequizais.

A reintrodução ou o manejo de populações de grandes mamíferos em áreas de restauração começa a ser discutida como componente necessário em projetos de maior escala. Iniciativas no Cerrado que combinam restauração vegetal com corredores ecológicos para fauna mostram resultados mais consistentes na regeneração natural de espécies zoocóricas, aquelas que dependem de animais para dispersar suas sementes, como é o caso do pequizeiro.

Dessa forma, a preservação do pequi passa necessariamente pela preservação dos animais que o carregam. Essa dependência não é uma fragilidade do sistema. É a prova de que o Cerrado funciona como um organismo integrado, em que cada elemento sustenta os demais, e que recuperar o bioma exige pensar além das plantas.

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