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Home Clima e Sustentabilidade

Café na sombra da mata: o projeto que une reflorestamento e produção sustentável no interior fluminense

No município de Valença (RJ), uma Reserva Particular do Patrimônio Natural aposta no cultivo agroflorestal do café para revitalizar fragmentos da Mata Atlântica e criar uma nova lógica de economia rural

Revisão: Derick Machado
6 de junho de 2026
in Clima e Sustentabilidade, Agro do Futuro & Inovação
Café na sombra da mata: o projeto que une reflorestamento e produção sustentável no interior fluminense

Valença, município do sul fluminense, carrega uma contradição incômoda: abriga fragmentos expressivos da Mata Atlântica e, ao mesmo tempo, figura entre os territórios com maior taxa de desmatamento no estado. Entre 2020 e 2021, foram 65 hectares derrubados — dado que coloca o município entre os dez mais afetados no período, segundo o Atlas dos Municípios da Mata Atlântica, produzido pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o INPE.

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Foi justamente nesse cenário que a juíza Márcia Quaresma e o também magistrado André Tredinnick decidiram agir. O que começou como um projeto de aposentadoria — a busca por uma propriedade rural fora do ritmo da cidade — tornou-se o embrião da Reserva Comuna da Serra, a ReCoSer. Em 2018, após dez anos procurando o lugar certo, eles adquiriram uma área no distrito de Santa Isabel do Rio Preto. “Demoramos muito porque a realidade rural do interior do Rio de Janeiro é bastante específica. Há muitas propriedades não regularizadas, frequentemente divididas em diversas glebas e sem legalização”, explica Quaresma.

A propriedade que encontraram reunia o que procuravam: mata nativa preservada e espaço para cultivo. A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) hoje soma 34,7 hectares — equivalente a cerca de 49 campos de futebol — e abriga um fragmento da Mata Atlântica de interior, classificação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para florestas estacionais com clima tropical sazonal.

Uma floresta que surpreende

A riqueza ecológica da área foi se revelando conforme o projeto avançava. Com o plano de manejo em fase de conclusão, biólogos identificaram exemplares de árvores centenárias ainda em processo de catalogação. “Os indícios apontam para espécies como braúna e pau-brasil. A riqueza da flora realmente chama a atenção”, conta Tredinnick. Trilhas de migração de fauna, antes interrompidas pelo desmatamento, também foram recuperadas ao longo do processo.

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A câmera de monitoramento instalada na reserva registra com frequência a vida noturna da região — um indicativo concreto de que a biodiversidade responde ao manejo cuidadoso do território.

O café como resposta à lógica do desmatamento

A escolha pelo café não foi aleatória. Ela nasceu da observação da paisagem local: pés abandonados encontrados na própria propriedade e uma cultura cafeicultora ainda presente na memória das comunidades da região. Mais do que uma opção econômica, o grão representou uma pergunta central para o projeto. “Passamos a nos perguntar se a mata não poderia coexistir com o café, já que a narrativa mais comum é a da destruição da floresta para o plantio do grão”, diz Tredinnick.

A resposta foi o sistema agroflorestal. O café é plantado entre as árvores nativas, preservando a dinâmica ecológica da RPPN e eliminando a necessidade do modelo extensivo, que historicamente avança sobre a vegetação. As primeiras safras foram colhidas recentemente, três anos após o início do plantio, iniciado em 2020. “Plantamos o café junto às árvores nativas, justamente para manter a RPPN integrada ao ambiente”, explica Quaresma.

A divisão da propriedade reflete essa filosofia: cerca de seis alqueires são destinados à preservação integral, enquanto dois concentram o cultivo e as estruturas de apoio ao projeto.

Construir sem destruir: a arquitetura que completa a proposta

A sede da reserva segue os mesmos princípios que orientam o cultivo. A construção é baseada em bioconstrução, com técnicas como a taipa de pilão e o adobe — tijolos feitos de terra crua, palha e água. A estrutura dialoga com o entorno sem impor materiais industrializados ao ambiente.

Outra aposta tecnológica é o biodigestor, atualmente em fase de testes. O equipamento utiliza dejetos dos porcos criados na propriedade para gerar energia limpa e produzir biofertilizante, que retorna ao ciclo como insumo para o cultivo do café. Empresas especializadas em sustentabilidade — como Gera Brasil, Matéria Base e Fluxo — atuam junto a agrônomos no suporte técnico ao projeto.

Qualidade acima de volume, diversificação como estratégia

A ReCoSer não pretende competir em escala com grandes produtores. “Nossa proposta não é focar em quantidade, mas em qualidade. Queremos produzir um café especial não apenas pelo aroma, mas também pela forma como é cultivado, de maneira não agressiva ao meio ambiente”, afirma Quaresma.

A diversificação das atividades aparece como pilar estratégico diante das incertezas climáticas. “Uma safra pode ser comprometida pelas mudanças no clima que temos visto. Por isso, diversificar as atividades é uma forma de proteção e sustentabilidade para o negócio”, avalia Tredinnick. O turismo rural e ecológico está no centro dessa expansão, aproveitando a infraestrutura da reserva e a singularidade do território.

Reconhecimento institucional e ICMS ecológico

O avanço mais recente do projeto veio pelo caminho institucional. A Secretaria de Meio Ambiente de Valença entrou em contato com a ReCoSer para viabilizar a inclusão da RPPN como Unidade de Conservação do município ainda em 2026. O reconhecimento abre caminho para que Valença acesse o ICMS ecológico — mecanismo previsto em lei estadual que distribui recursos com base em critérios ambientais, gerando pontuação que eleva a parcela do município na arrecadação do Estado. Parte desses recursos pode ser direcionada diretamente ao fortalecimento da gestão da própria reserva, criando um ciclo de financiamento sustentável para o projeto.

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