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Ophiocordyceps: o fungo que sequestra o corpo das formigas vive no mesmo bioma onde cresce a soja brasileira

O Ophiocordyceps manipula o comportamento de formigas com precisão biológica desconcertante — e sua presença no bioma agrícola mais produtivo do país levanta perguntas que a ciência ainda tenta responder

Revisão: Derick Machado
17 de maio de 2026
in Agricultura
Ophiocordyceps: o fungo que sequestra o corpo das formigas vive no mesmo bioma onde cresce a soja brasileira

Uma formiga abandona a trilha, sobe em uma planta, morde o caule com força máxima e morre exatamente naquela posição. Horas depois, um fungo emerge de dentro do seu corpo. O que parece roteiro de ficção científica é um fenômeno natural documentado em florestas tropicais do mundo inteiro, incluindo o Cerrado brasileiro, bioma que concentra algumas das lavouras de soja mais produtivas do planeta.

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O responsável por essa cena pertence ao gênero Ophiocordyceps, um grupo de fungos entomopatogênicos, ou seja, parasitas de insetos, que desenvolveram ao longo de milhões de anos uma das estratégias de manipulação biológica mais sofisticadas já registradas na natureza. Sua presença no Cerrado não é coincidência: o bioma abriga uma das maiores biodiversidades de formigas do mundo, e onde há formiga, o fungo encontra condições para completar seu ciclo.

A manipulação começa antes da morte

O processo de infecção não ocorre de forma abrupta. Os esporos do Ophiocordyceps são liberados no ambiente e aderem à cutícula da formiga, estrutura externa que reveste o corpo do inseto. A partir desse contato, o fungo penetra nos tecidos e começa a se multiplicar internamente, consumindo gordura e proteína do hospedeiro enquanto o mantém vivo.

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O aspecto mais perturbador do processo é o que ocorre nos dias seguintes. A formiga passa a apresentar comportamentos que não fazem parte de seu repertório natural. Ela abandona a colônia, caminha de forma errática e, em determinado momento, sobe em vegetação a uma altura específica, geralmente entre 25 e 30 centímetros do solo, uma altitude que coincide com a zona de temperatura e umidade ideal para o desenvolvimento do fungo.

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Nessa posição, a formiga crava as mandíbulas em um caule ou folha com uma força muito superior ao normal, em um comportamento que os pesquisadores chamam de “mordida da morte”. O músculo mandibular permanece contraído mesmo após a morte do inseto, fixando o corpo no local exato onde o fungo precisa estar para liberar seus esporos e infectar novas formigas.

O Cerrado como laboratório natural

O Brasil abriga uma diversidade extraordinária de espécies do gênero Ophiocordyceps. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia documentaram dezenas de espécies distintas em biomas brasileiros, com registros expressivos no Cerrado, na Mata Atlântica e na Amazônia. Cada espécie do fungo, aliás, tende a parasitar uma espécie específica de formiga, o que demonstra um grau de especialização evolutiva que ainda intriga os especialistas em taxonomia e ecologia.

No Cerrado, esse relacionamento ganhou uma camada extra de complexidade. O bioma concentra mais de 220 espécies de formigas documentadas, e a pressão agrícola sobre a vegetação nativa nas últimas décadas alterou as condições de umidade, temperatura e fragmentação de habitat que regulam o equilíbrio entre hospedeiro e parasita. Consequentemente, mudanças na cobertura vegetal podem influenciar diretamente a dinâmica de infecção e a densidade de fungos nas bordas das lavouras.

Formiga-cortadeira e o que ainda não se sabe

As formigas do gênero Atta, conhecidas popularmente como saúvas e amplamente distribuídas no Cerrado, estão entre as principais pragas agrícolas do Brasil, sendo responsáveis por perdas expressivas em lavouras de soja, milho e cana-de-açúcar. Por isso, a relação entre o Ophiocordyceps e essas espécies desperta interesse científico com implicações práticas diretas.

O que os estudos indicam até agora é que o fungo parasita com maior frequência formigas operárias que circulam individualmente, longe das trilhas densas das colônias. Formigas socialmente integradas ao grupo apresentam comportamentos de higiene coletiva que reduzem a taxa de infecção, incluindo a remoção de companheiras doentes para áreas distantes da colônia. Esse mecanismo de defesa social é tão eficiente que pesquisadores o estudam como modelo para entender imunidade coletiva em sistemas biológicos complexos.

Contudo, o potencial de uso do fungo como agente de controle biológico de formigas-praga ainda esbarra em barreiras técnicas consideráveis. A alta especificidade do parasita, que representa uma vantagem do ponto de vista ecológico pois reduz impactos sobre outras espécies, dificulta a produção em escala e a aplicação prática em sistemas agrícolas. Além disso, as condições microclimáticas necessárias para que os esporos germinem e infectem hospedeiros são muito mais restritas do que as de fungos entomopatogênicos já comercializados, como o Beauveria bassiana e o Metarhizium anisopliae, amplamente utilizados no manejo integrado de pragas no Brasil.

Um ciclo que depende da floresta em pé

Há um detalhe ecológico que conecta diretamente o Ophiocordyceps à conservação do Cerrado: o fungo depende de condições específicas de umidade e sombra que só existem em vegetação nativa preservada. Em áreas de monocultura abertas, a incidência de luz solar direta e a baixa umidade do solo inibem a germinação dos esporos e interrompem o ciclo de infecção.

Dessa forma, a presença ativa do fungo em uma área funciona como bioindicador da qualidade ambiental local, sinalizando que aquela vegetação mantém condições microclimáticas próximas do estado original. Por outro lado, sua ausência em bordas de lavoura pode indicar degradação do habitat e redução da biodiversidade funcional, aquela parcela da diversidade biológica que exerce papéis concretos no equilíbrio do ecossistema.

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Isso coloca o Ophiocordyceps em uma posição curiosa no debate sobre agricultura e conservação: ele é ao mesmo tempo símbolo da complexidade da vida no Cerrado e evidência de que a integridade da floresta nativa ao redor das lavouras não é apenas questão ambiental, mas também condição para que os processos naturais de regulação de populações de insetos continuem funcionando.

O fungo que inspirou a ficção e segue inspirando a ciência

A popularidade global do Ophiocordyceps cresceu de forma notável após a série The Last of Us, produção americana que usou o fungo como base para um apocalipse fictício. A premissa, que imagina o parasita adaptando-se a humanos, não tem nenhum respaldo científico, já que o fungo é incapaz de sobreviver na temperatura corporal dos mamíferos. Porém, a repercussão cultural gerou um efeito inesperado e positivo: aumentou o interesse público por micologia, levou mais pessoas a pesquisar sobre fungos entomopatogênicos e ampliou o financiamento para estudos taxonômicos em países megadiversos como o Brasil.

No Cerrado, pesquisadores continuam mapeando novas espécies do gênero, muitas ainda sem descrição científica formal. Cada nova descoberta amplia o entendimento sobre como esse fungo evoluiu junto com seus hospedeiros ao longo de dezenas de milhões de anos, perfeiçoando um mecanismo de controle biológico que nenhum laboratório ainda conseguiu replicar com a mesma elegância.

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