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Ancestral do arábica, o Coffea eugenioides rende apenas 2 sacas por hectare e é vendido a R$ 90 mil em Minas Gerais

Com produtividade de apenas duas sacas por hectare e presença em apenas cinco fazendas no mundo, a espécie chega ao mercado de luxo com clientes na Arábia Saudita, Emirados Árabes e França

Revisão: Derick Machado
17 de maio de 2026
in Noticias
Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Luiz Paulo Dias Pereira Filho não planta café para volume. Em uma área de cinco hectares na fazenda Santuário do Sul, em Carmo de Minas, no sul de Minas Gerais, ele cultiva uma espécie que praticamente não existe em escala comercial no mundo: o Coffea eugenioides, considerado o ancestral genético do arábica e vendido atualmente a R$ 90 mil a saca de 60 quilos.

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A conta é simples e, ao mesmo tempo, surpreendente. Enquanto o café arábica convencional produz em média 50 sacas por hectare no Brasil, o eugenioides rende apenas duas. A baixa produtividade não é um problema de manejo, mas uma característica intrínseca da espécie, que não passou por nenhum melhoramento genético ao longo dos séculos e permanece, na prática, da mesma forma que existia antes de o arábica ser desenvolvido. É exatamente essa originalidade que sustenta o preço.

O café que não foi melhorado para o mercado

Luiz Paulo conheceu o eugenioides em 2017, durante uma visita à Colômbia. Voltou ao Brasil com algumas sementes e plantou seis mudas em vaso, mais por curiosidade do que por estratégia comercial. A decisão de escalar para o plantio comercial veio depois, quando um cliente chamou atenção para a raridade daquilo que ele tinha nas mãos. O produtor iniciou o cultivo em escala em segredo, e só recentemente tornou público o projeto.

A espécie é suscetível a praticamente todas as doenças da cafeicultura. Não há resistência a ferrugem, não há tolerância ao estresse hídrico, e o manejo exige atenção diária. Por isso, Luiz Paulo mantém um funcionário dedicado exclusivamente ao acompanhamento das plantas, que envia relatórios diários para o agrônomo responsável. O sistema adotado é o regenerativo, com enriquecimento do solo por compostagem natural, controle biológico de pragas e uso criterioso de água.

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“Esse café é um diamante e eu assumi a bandeira de lapidá-lo. É para tomar em taça e cabe perfeitamente no mercado atual de luxo em que as pessoas valorizam a experiência. O preço alto é para compensar o que estou investindo e ainda é menor do que cobram os outros produtores do mundo porque eu ainda estou começando”, afirma o produtor, que acumula 23 prêmios no Cup of Excellence da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA).

O perfil sensorial que justifica o valor

Do ponto de vista sensorial, o eugenioides se distancia radicalmente dos cafés que dominam o mercado brasileiro. A espécie apresenta baixo teor de cafeína, acidez reduzida e açúcar natural acima da média, o que resulta em uma bebida de doçura pronunciada e complexidade aromática difícil de replicar em cultivares comerciais. Luiz Paulo compara a posição do eugenioides no mercado de cafés à do vinho Romanée-Conti no universo vínico, uma referência de preço e escassez que vai de US$ 19,5 mil a US$ 39 mil a garrafa, com leilões que já superaram R$ 2,6 milhões por uma única unidade.

“O jacu é um café com processo que envolve um animal. O eugenioides não, mas ele é um fenômeno, um café muito exótico, raro. Ninguém planta isso de propósito, só o Luiz Paulo, que tem capacidade de vender. Vi ele vendendo uma amostra para um árabe em Tóquio por US$ 10 mil”, relata Henrique Sloper, produtor do Café do Jacu, obtido a partir dos grãos extraídos das fezes do pássaro jacu em fazenda no Espírito Santo e comercializado a R$ 1.600 o quilo, referência nacional no segmento de cafés de processo diferenciado.

A diferença entre as duas experiências, segundo Sloper, não é de grau, mas de natureza. O eugenioides não depende de nenhum processo externo para se destacar. A raridade está na planta em si, na genética intocada e na escassez estrutural de produção.

Cinco fazendas no mundo, uma no Brasil

Atualmente, apenas cinco propriedades no mundo produzem o eugenioides em escala comercial. Luiz Paulo é o único produtor brasileiro nesse grupo e também o único latino-americano na galeria das seis lendas do café mundial da Alliance for Coffee Excellence (ACE), ao lado de cafeicultores da Guatemala, Honduras, Costa Rica, Nicarágua e El Salvador. A distinção posiciona o Brasil, historicamente associado ao volume e à escala, em um segmento onde o diferencial é a impossibilidade de ser replicado.

No ano passado, as primeiras sacas comerciais do eugenioides da fazenda Santuário do Sul foram vendidas in natura para clientes em Taiwan, Arábia Saudita e Emirados Árabes. Em 2025, uma saca foi enviada para um restaurante francês que busca conquistar a terceira estrela Michelin, com o café sendo servido como finalização da refeição, posicionado como experiência gastronômica e não apenas como bebida.

Luiz Paulo já conta com seis clientes em lista de espera. A estratégia, por ora, é dar prioridade a quem já comprou as primeiras sacas, preservando o caráter de exclusividade que sustenta o posicionamento do produto.

Projeto Rarus: a aposta no plantio exclusivo

A expansão do eugenioides no portfólio de Luiz Paulo ganhou forma estruturada com a criação do Projeto Rarus, em Soledade de Minas, também no sul de Minas Gerais. Trata-se da primeira fazenda do mundo com plantio exclusivo da espécie, com cinco hectares dedicados integralmente ao cultivo. A previsão é que a área entre em produção comercial em 2027.

A inspiração para o projeto veio da marca italiana Loro Piana, conhecida mundialmente por trabalhar com os materiais mais nobres do planeta, produção limitada e preços que acompanham essa raridade. A lógica é a mesma: produzir menos, com padrão inatingível, para um mercado que paga pelo que não encontra em nenhum outro lugar.

Luiz Paulo afirma que recebe frequentes pedidos de produtores interessados em sementes, mas mantém a exclusividade por enquanto. Aumentar a oferta, segundo ele, significaria comprometer exatamente o que torna o produto valioso. Aliás, a quarta geração de cafeicultores da família, que já cultiva 700 hectares em Carmo de Minas e produziu 25 mil sacas no ano passado, com 80% classificadas como especiais pela BSCA, tem no eugenioides não uma substituição ao modelo produtivo consolidado, mas uma fronteira nova, onde o Brasil ainda não havia chegado.

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