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Polinizadores nativos aumentam rendimento da acerola em 103% no Vale do São Francisco

Revisão: Derick Machado
17 de maio de 2026
in Agricultura
Polinizadores nativos aumentam rendimento da acerola em 103% no Vale do São Francisco

A produção de acerola no Semiárido brasileiro acaba de ganhar um aliado que não exige investimento em insumos químicos nem tecnologia importada. Pesquisadores da Embrapa Semiárido comprovaram que o manejo adequado de abelhas solitárias do gênero Centris pode elevar a produtividade dos pomares entre 32% e 103%, dependendo das condições de cultivo e da densidade populacional desses polinizadores nativos. O diferencial está na capacidade dessas abelhas de transferir pólen com alta eficiência durante a coleta de óleos florais, recurso essencial para a construção de ninhos e alimentação das larvas.

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Os resultados foram obtidos após a instalação de 840 ninhos-armadilha em plantações comerciais localizadas nos perímetros irrigados de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), principais polos produtores de acerola do país. A taxa de ocupação dos ninhos surpreendeu: 88,21% das estruturas atraíram abelhas, índice superior ao registrado em estudos similares conduzidos em outras regiões do Brasil. Dessa forma, ficou evidente que a oferta de locais adequados para nidificação é determinante para ampliar a presença desses polinizadores nos cultivos comerciais.

Centris responde por 91,7% das visitas florais

As abelhas da tribo Centridini são especialistas na coleta de óleos florais, substância produzida pelas flores da aceroleira e utilizada pelas fêmeas para impermeabilizar as células dos ninhos e alimentar as larvas. Durante esse processo, transferem pólen de forma involuntária, promovendo a fecundação das flores e aumentando tanto a taxa de frutificação quanto o peso médio dos frutos. O estudo registrou 11 espécies de abelhas visitando a cultura, mas a Centris aenea se destacou ao responder por até 95% das visitas florais, demonstrando fidelidade à aceroleira e comportamento altamente compatível com o ciclo reprodutivo da planta.

“Mesmo em culturas autopolinizadas, como é o caso da aceroleira, a presença de polinizadores promove incremento significativo na produção. Nas áreas estudadas na Fase I do projeto, os ganhos foram expressivos, o que mostra o impacto direto desses insetos sobre a frutificação e o desenvolvimento dos frutos”, afirma Lúcia Kiill, pesquisadora e coordenadora do estudo.

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Ao contrário das abelhas melíferas, as Centris são solitárias. Cada fêmea constrói seu próprio ninho em cavidades naturais, como buracos em madeira ou perfurações no solo. Por isso, a oferta de ninhos-armadilha confeccionados em blocos de madeira perfurados se mostrou uma estratégia eficaz para atrair e fixar essas populações próximas aos pomares. A pesquisa identificou ninhos naturais sob as copas das aceroleiras e em barrancos de canais de irrigação, o que reforça a necessidade de preservar áreas de refúgio e vegetação nativa no entorno dos cultivos.

Manejo prático e acessível para pequenos e médios produtores

A Embrapa recomenda duas estratégias complementares para aumentar a presença de Centris nos pomares de acerola. A primeira consiste em manter, no entorno das plantações, espécies vegetais que forneçam pólen, néctar e óleos florais durante todo o ano, especialmente nos períodos em que a aceroleira não está em floração. Murici, embira-rosa, pau-ferro, falsa-dormideira e malva-rasteira estão entre as plantas indicadas. Além disso, a preservação de áreas de Caatinga contribui como fonte complementar de recursos, garantindo alimento para as abelhas mesmo fora da janela produtiva da acerola.

A segunda estratégia envolve a instalação de ninhos-armadilha em pontos estratégicos do pomar. Os melhores resultados ocorreram com cavidades entre 10 e 12 milímetros de diâmetro e profundidade de 10 a 14 centímetros. “Orientamos que os ninhos sejam instalados em locais sombreados e protegidos, preferencialmente próximos às áreas onde os insetos nasceram. Essa prática estimula o retorno e a permanência das abelhas”, explica Kiill.

O custo de implantação é baixo. Os ninhos podem ser confeccionados com madeira reutilizada ou blocos disponíveis na propriedade, tornando a tecnologia acessível até mesmo para agricultores familiares. Entretanto, a eficácia do manejo depende da continuidade das ações ao longo das safras e da integração com práticas de conservação ambiental.

Nordeste concentra 80% da produção nacional

O Brasil lidera a produção e a exportação mundial de acerola, com 80% da safra concentrada no Nordeste. Pernambuco, Ceará e Sergipe são os principais estados produtores. Nos perímetros irrigados de Petrolina e Juazeiro, a cultura ocupa cerca de 7 mil hectares e permite até oito colheitas por ano, abastecendo tanto o mercado in natura quanto a indústria de sucos e polpas. A renda constante e a demanda crescente por frutas ricas em vitamina C garantem estabilidade econômica para pequenos e médios produtores da região.

Contudo, a intensificação dos cultivos tem pressionado os ecossistemas nativos e reduzido a disponibilidade de áreas de refúgio para polinizadores. A fragmentação da Caatinga e a conversão de áreas naturais em lavouras diminuem a oferta de recursos florais ao longo do ano, comprometendo a sobrevivência das colônias de abelhas solitárias. Por isso, estratégias de manejo que aliem produtividade e conservação se tornam fundamentais para a sustentabilidade da cadeia produtiva da acerola no Semiárido.

Nova fase amplia validação em cultivos convencionais e orgânicos

Em parceria com a Niagro, agroindústria líder no processamento de acerola na região, e outras 12 propriedades do Vale do São Francisco, o projeto entra em nova etapa para validar o uso de ninhos-armadilha em cultivos convencionais e orgânicos. As áreas passam por análise de cobertura vegetal, disponibilidade hídrica, infraestrutura e conectividade com fragmentos de Caatinga. O objetivo é identificar quais condições ambientais favorecem a presença de Centris e estabelecer protocolos de manejo adaptados à realidade de cada sistema produtivo.

O projeto também prevê capacitação para produtores, técnicos, jovens e mulheres rurais, com o objetivo de disseminar práticas de manejo e conservação de polinizadores. A presença de abelhas nativas nos cultivos funciona como um indicador de equilíbrio ambiental e qualidade do manejo agrícola. Preservar essas populações significa investir em produtividade com responsabilidade, garantindo ganhos econômicos e conservação da biodiversidade do Semiárido.

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