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Inovação verde eleva potencial das isoflavonas extraídas do farelo de soja

Processo limpo acelera a extração, ativa compostos biofuncionais e evita desperdícios industriais

Revisão: Derick Machado
19 de maio de 2026
in Mercado Agro
Inovação verde eleva potencial das isoflavonas extraídas do farelo de soja
Resumo

• Pesquisadores da Unicamp desenvolveram um método sustentável para extrair isoflavonas do farelo de soja, aumentando sua biodisponibilidade e gerando compostos ativos com alto valor para alimentos e cosméticos.
• A tecnologia combina solventes seguros sob alta pressão com ultrassom e enzimas, permitindo obter genisteína e daidzeína em menos tempo e sem uso de solventes tóxicos.
• O farelo residual mantém alto teor proteico, podendo ser reaproveitado na alimentação animal ou em suplementos vegetais, ampliando o valor econômico do processo.
• Outra frente da pesquisa explorou as cascas das amêndoas do cacau, extraindo teobromina, cafeína e compostos fenólicos com um sistema de alta pressão e separação inteligente.
• O estudo mostra como resíduos agrícolas podem ser transformados em ingredientes nobres, unindo eficiência técnica, sustentabilidade e novas oportunidades para diversas indústrias.

A crescente demanda por ingredientes naturais com alto potencial funcional tem impulsionado pesquisas que unem tecnologia, sustentabilidade e aproveitamento de subprodutos agrícolas. Nesse cenário, o farelo de soja — tradicionalmente destinado à ração animal — ganha protagonismo graças a um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que demonstrou uma forma mais eficiente e ecológica de extrair isoflavonas em sua forma ativa. Assim, um material frequentemente subvalorizado transforma-se em insumo nobre para alimentos, cosméticos e suplementos, sem gerar impactos ambientais e com grande valor agregado.

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A relevância das isoflavonas se deve à amplitude de benefícios à saúde. Além de atuarem na prevenção de doenças neurodegenerativas e cardiovasculares, também apresentam ação antioxidante, antimicrobiana e anticancerígena. Aliás, sua capacidade de modular receptores de estrogênio torna esses compostos aliados importantes no equilíbrio hormonal, especialmente durante a menopausa. Para que esses efeitos sejam expressivos, entretanto, a biodisponibilidade das moléculas é fundamental — fator que motivou o desenvolvimento da nova tecnologia.

Uma extração que alia alta performance e sustentabilidade

O grande desafio da extração de isoflavonas sempre esteve na dependência de processos longos, custosos e baseados em solventes tóxicos, que dificultavam o aproveitamento integral do farelo de soja. Com isso, os pesquisadores da Unicamp buscaram uma alternativa que fosse capaz de preservar a qualidade dos compostos, ao mesmo tempo em que reduzisse o impacto ambiental do processo. Segundo o engenheiro de alimentos Pedro Henrique Santos, integrante do Laboratório Multidisciplinar de Alimentação e Saúde (LabMAS), o objetivo era romper com o modelo tradicional.

“Aplicamos uma tecnologia inovadora e sustentável que combina solventes ambientalmente amigáveis sob alta pressão com ondas ultrassônicas para intensificar a extração”, explica o pesquisador, destacando que o método reduz significativamente o tempo de processamento sem comprometer o resultado final.

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Essa combinação permitiu isolar as isoflavonas presentes no farelo com maior eficiência. Porém, o passo decisivo veio com a aplicação de uma enzima capaz de quebrar as moléculas em frações menores — principalmente genisteína e daidzeína — formas mais facilmente absorvidas pelo organismo humano. Assim, além de extrair, a pesquisa aprimora o valor nutricional final do composto.

“A junção das duas etapas resultou em um extrato totalmente rico em isoflavonas já na forma ativa, em menos tempo do que os métodos tradicionais e de maneira 100% sustentável”, destaca Santos. Além disso, o pesquisador reforça que o farelo residual permanece com alto teor proteico, possibilitando seu uso para alimentação animal ou como base para suplementos vegetais. O que antes era um subproduto simples passa a gerar múltiplos derivados de interesse industrial.

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Do cacau ao laboratório: valorizando resíduos com alto potencial

Enquanto parte da equipe avançava nas pesquisas com o farelo de soja, outro grupo voltou suas atenções para outro subproduto promissor: as cascas da amêndoa do cacau. Encontradas em grande quantidade nas cadeias de produção, elas guardam aroma semelhante ao dos nibs, mas são geralmente descartadas por sua textura fibrosa. Entretanto, esse material abriga compostos de grande interesse — como teobromina, cafeína e fenólicos — com aplicações potenciais nas indústrias alimentícia, cosmética e farmacêutica.

Para explorar essas possibilidades, o engenheiro de processos Felipe Sanchez Bragagnolo, do mesmo laboratório, participou da implementação de um sistema que opera sob pressões muito superiores às de uma panela de pressão convencional. Nesse equipamento, água e etanol — dois solventes seguros — atravessam as cascas do cacau, removendo gradualmente os compostos bioativos.

“O material tem compostos que podem ser de interesse de diferentes indústrias. Nossa intenção foi extrair tais substâncias de forma a obter uma fração enriquecida em cada um deles”, afirma Bragagnolo, que trabalhou com a colaboração de María González-Miquel e Dario Arrua, especialistas internacionais em processos sustentáveis.

Após a extração, a solução passa por um “filtro inteligente”, capaz de separar os compostos segundo sua afinidade química. O que é mais solúvel em água permanece nas frações aquosas; o que prefere o etanol, concentra-se nas frações etanólicas. O resultado é um fracionamento preciso, que permite direcionar cada composto para aplicações específicas.

Bragagnolo explica que o sistema aprimorado não apenas otimiza a extração como também facilita o controle de qualidade da matéria-prima. Assim, se uma indústria tiver interesse exclusivo na teobromina, por exemplo, é possível ampliar o processo em escala industrial e obter frações enriquecidas com alto grau de pureza.

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Sustentabilidade, inovação e uso integral dos recursos

As duas pesquisas revelam um movimento crescente na ciência brasileira em direção ao aproveitamento inteligente dos resíduos agrícolas. Tanto no caso do farelo de soja quanto das cascas de cacau, os estudos mostram que tecnologias limpas podem transformar subprodutos descartados em ingredientes valiosos para múltiplas cadeias produtivas.

Além de ampliar o espectro de aplicações desses materiais, os pesquisadores demonstram que é possível unir eficiência técnica, impacto ambiental reduzido e geração de valor econômico — uma combinação que representa o futuro das indústrias de alimentos, cosméticos e suplementos.

Via: Agencia Fapesp
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