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Home Clima e Sustentabilidade

Fungos surgiram há mais de 1 bilhão de anos, revela estudo que reescreve a história evolutiva

Nova cronologia molecular aponta que o Reino Fungi começou a se diversificar muito antes das plantas terrestres, abrindo caminhos para compreender antigas simbioses ecológicas

Revisão: Derick Machado
19 de maio de 2026
in Clima e Sustentabilidade
revistacultivar

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A origem dos fungos pode ser muito mais antiga do que se imaginava. Uma análise evolutiva recente sugere que os primeiros representantes desse reino tão diverso surgiram entre 1,4 bilhão e 896 milhões de anos atrás — muito antes da colonização do ambiente terrestre pelas plantas.

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A descoberta redefine o papel dos fungos na história da vida, reposicionando-os como pioneiros de interações ecológicas complexas e talvez até essenciais na transição das algas para os ambientes continentais.

Um novo olhar para um antigo reino

Para alcançar essa conclusão, uma equipe internacional de pesquisadores combinou três abordagens poderosas: registros fósseis, relógios moleculares baseados em sequenciamento genético e análises de transferência horizontal de genes. Ao cruzar dados de 110 espécies de fungos e 43 eucariotos adicionais, os cientistas conseguiram montar uma matriz com mais de 95 mil posições de aminoácidos — uma base sólida para mapear com precisão a árvore filogenética dos fungos.

Entretanto, o maior obstáculo foi a escassez de fósseis fúngicos confiáveis. Para contornar esse desafio, a equipe lançou mão de restrições temporais relativas, baseadas em eventos de transferência genética entre linhagens. Essa técnica inovadora permite estimar a ordem dos eventos evolutivos mesmo na ausência de registros físicos — essencial para grupos tão antigos e pouco fossilizados quanto os fungos.

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Fungos e a ancestralidade vegetal

Um dos achados mais surpreendentes foi a detecção de genes especializados na degradação de pectinas — substâncias que compõem a parede celular das plantas e de seus ancestrais algais. Esses genes foram encontrados em fungos não-dicários, indicando que a interação entre fungos e organismos vegetais ocorreu centenas de milhões de anos antes da emergência das plantas terrestres modernas, cuja origem é estimada entre 612 e 431 milhões de anos atrás.

Essa evidência amplia as fronteiras da biologia evolutiva. A presença dessas enzimas em fungos tão antigos sugere que eles já desempenhavam funções ecológicas cruciais quando as algas precursoras das plantas ainda habitavam ambientes aquáticos. A descoberta fortalece a hipótese de que os fungos podem ter sido agentes facilitadores no processo de transição das algas para a vida terrestre, contribuindo para a formação dos primeiros solos e relações simbióticas.

Diversificação no “bilhão entediante”

A chamada “época entediante” — o intervalo geológico entre o Mesoproterozoico e o Neoproterozoico — ganha agora um novo significado. A pesquisa indica que, nesse período aparentemente monótono do ponto de vista biológico, o Reino Fungi passava por uma diversificação intensa. A separação entre os principais grupos, como Chytridiomycota e Blastocladiomycota, por exemplo, ocorreu entre 1.374 e 877 milhões de anos atrás. Já os fungos terrestres sem flagelos divergiram de seus parentes aquáticos entre 1.303 e 831 milhões de anos atrás.

Além disso, os clados Mucoromycota e Zoopagomycota — comumente encontrados em solos e interações simbióticas com raízes de plantas — apresentam origens semelhantes, datadas entre 1.252 e 678 milhões de anos atrás. Esses grupos antecedem o surgimento dos Dikarya, conjunto que abrange fungos filamentosos e leveduras, datado entre 1.114 e 701 milhões de anos.

Multicelularidade e extremos ambientais

A análise também revela que os grupos que hoje produzem estruturas macroscópicas, como cogumelos e ascomicetos, podem ter emergido entre 706 e 409 milhões de anos atrás. Esse intervalo coincide com o Neoproterozoico, período marcado por grandes eventos climáticos como a “Terra Bola de Neve” — eras glaciais que cobriram vastas regiões do planeta com gelo.

A coincidência temporal sugere que a multicelularidade complexa entre os fungos pode ter surgido em resposta a essas pressões ambientais extremas. Assim, a capacidade de formar corpos frutíferos robustos ou estruturas simbióticas como líquens e micorrizas pode ter representado uma vantagem evolutiva crucial diante das adversidades do clima pré-cambriano.

A árvore do tempo

Para alcançar essas datas, os cientistas aplicaram análises de relógio molecular com calibração flexível. Ao integrar 27 pontos de datação absoluta e 17 restrições temporais relativas, as simulações confirmaram, em quase 90% dos cenários, que o Reino Fungi já existia há mais de 1 bilhão de anos. Mesmo com a redução da matriz de dados para apenas 10 mil posições de aminoácidos, os resultados se mantiveram estáveis, indicando robustez nos métodos aplicados.

Curiosamente, fósseis fúngicos datados com mais de 1 bilhão de anos, encontrados em estudos recentes, não foram usados como pontos de calibração. A equipe optou por uma abordagem conservadora, para evitar inferências especulativas. Ainda assim, as estimativas obtidas coincidem com essas descobertas, reforçando sua plausibilidade como evidência fúngica.

Uma nova era para estudar a simbiose

A reconstrução cronológica apresentada no estudo abre novas possibilidades para investigar o surgimento de sistemas simbióticos fundamentais, como as micorrizas e os líquens. Com uma linha do tempo mais refinada, os pesquisadores podem explorar com mais detalhe as zonas de transição entre o ambiente aquático e o terrestre, onde provavelmente ocorreram as primeiras interações entre algas e fungos.

Essas zonas — semelhantes às crostas biológicas modernas de solos, compostas por microorganismos, algas e fungos — podem ter sido os primeiros ecossistemas complexos do planeta. E, nesse cenário, os fungos deixam de ser apenas coadjuvantes na história das plantas, passando a protagonistas em um dos capítulos mais antigos e fascinantes da vida na Terra.

Via: Fonte: revistacultivar
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