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Invasora silenciosa: unha-do-diabo ameaça a sobrevivência da carnaúba no Nordeste

Trepadeira exótica vinda de Madagascar se espalha por carnaubais e põe em risco a biodiversidade, a economia e a cultura do semiárido brasileiro

Revisão: Derick Machado
15 de agosto de 2025
in Mercado Agro
Invasora silenciosa: unha-do-diabo ameaça a sobrevivência da carnaúba no Nordeste

O que começou como uma planta ornamental importada há cerca de quatro décadas transformou-se em um problema ambiental de grandes proporções. A unha-do-diabo (Cryptostegia madagascariensis), originária de Madagascar, encontrou no solo e no clima do semiárido nordestino um terreno fértil para se alastrar sem controle.

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No coração do Ceará — onde a carnaúba é mais do que uma planta, mas símbolo de identidade cultural e base econômica para milhares de famílias — essa trepadeira vem sufocando palmeiras, bloqueando a entrada de luz e comprometendo a produção de um dos ativos naturais mais preciosos do país: a cera de carnaúba.

O avanço da invasora sobre os carnaubais cearenses

A presença da unha-do-diabo em áreas de carnaubais já atinge níveis alarmantes em municípios como Granja e Jaguaruana, onde mais de 70% das áreas estão invadidas. Enrolando-se em torno do tronco da carnaúba, a planta forma uma espécie de cárcere verde, impossibilitando a realização da fotossíntese, o que leva à asfixia e à morte da palmeira. Além disso, a copa da carnaúba — rica em folhas que servem à extração artesanal da cera — fica completamente encoberta, dificultando o acesso dos extrativistas.

Esse impacto não é apenas físico. A trepadeira exala um látex tóxico, que pode contaminar o solo e provocar irritações em trabalhadores, tornando o corte manual ainda mais perigoso. “É uma planta extremamente densa, que cria barreiras naturais e atrapalha não só a coleta da palha, mas também o trânsito de animais e pessoas nas áreas de produção”, relatam técnicos que atuam na zona rural do Baixo Jaguaribe.

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Ameaça invisível à biodiversidade da Caatinga

Mais do que um entrave à cadeia da carnaúba, a proliferação da Cryptostegia representa uma ruptura no delicado equilíbrio da Caatinga. Com crescimento rápido e agressivo, a espécie consome recursos hídricos escassos e expulsa outras plantas nativas do ecossistema, reduzindo a oferta de alimento e abrigo para aves e mamíferos. Esse efeito dominó afeta a regeneração natural dos carnaubais e compromete processos ecológicos fundamentais, como a polinização.

Com isso, não é apenas a carnaúba que está em risco, mas também um conjunto de espécies que depende diretamente das condições criadas por esses ambientes. Além disso, a substituição de uma vegetação típica por uma planta exótica quebra as cadeias alimentares locais, com potenciais consequências a longo prazo ainda pouco compreendidas.

Impactos socioeconômicos para milhares de famílias

A carnaúba (Copernicia prunifera) é uma das espécies mais valiosas da flora nordestina. Conhecida como “árvore da vida”, é dela que se extrai a famosa cera de carnaúba, matéria-prima utilizada em segmentos tão diversos quanto farmacêutico, alimentício, automobilístico e cosmético. O Ceará lidera a produção e exportação no país, com uma média de 16 mil toneladas exportadas por ano, movimentando uma cadeia produtiva que emprega cerca de 90 mil trabalhadores diretamente apenas durante a safra.

No entanto, essa estrutura está ameaçada. A expansão descontrolada da unha-do-diabo afeta diretamente a colheita da palha, essencial para a produção da cera. Em muitos casos, famílias inteiras que vivem da atividade — e que já enfrentam condições sociais vulneráveis — veem seu sustento desaparecer. “O combate à planta é manual, feito com foice ou fogo, o que além de ser perigoso é pouco eficiente para o controle em larga escala”, afirmam pesquisadores que acompanham a situação no campo.

Soluções em teste: combate biológico e monitoramento

Com a resistência da espécie aos métodos convencionais de controle, pesquisadores voltaram os olhos para o controle biológico. Um dos caminhos mais promissores envolve o uso do fungo Maravalia cryptostegiae, também originário de Madagascar. Já testado com sucesso em outros países para conter a planta, o fungo vem sendo estudado em áreas piloto no Ceará, com foco em soluções sustentáveis e de baixo impacto ambiental.

A expectativa é de que, com o tempo, esse tipo de intervenção reduza o avanço da trepadeira sem comprometer ainda mais a flora nativa. No entanto, a aplicação ainda está em fase experimental e requer apoio institucional para que possa ser replicada de forma eficaz nos municípios mais afetados.

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