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Home Clima e Sustentabilidade

Tubarão-limão flagrado em predação inédita em Noronha

Registro revela interação rara entre espécie marinha e peixe de água doce invasor após fortes chuvas no arquipélago

Revisão: Derick Machado
19 de maio de 2026
in Clima e Sustentabilidade
foto: Fábio Borges

foto: Fábio Borges

Resumo
  • O registro inédito mostra tubarões-limão predando peixes-jaguar em Noronha após fortes chuvas que conectaram áreas de água doce à Baía do Sueste.
  • A salinidade elevada desorientou os peixes-jaguar, tornando-os presas fáceis para tubarões juvenis e adultos.
  • A Baía do Sueste funciona como berçário de tubarões, onde condições rasas e turvas favoreceram a caça registrada por drones.
  • Embora contribuam para reduzir a presença do invasor, os tubarões não conseguem sozinho controlar a população do peixe-jaguar no arquipélago.
  • O monitoramento contínuo poderá indicar se a interação predatória é ocasional ou se se tornará um padrão após períodos de chuvas intensas.

A cena, rara e até então considerada improvável, foi registrada em março de 2024, quando tubarões-limão (Negaprion brevirostris) passaram a capturar peixes-jaguar (Parachromis managuensis) na Baía do Sueste, em Fernando de Noronha. O episódio surpreendeu porque envolve dois mundos que, em condições naturais, jamais se cruzariam.

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Enquanto o tubarão-limão ocupa zonas costeiras tropicais e salgadas, o peixe-jaguar é um predador de água doce, originário da América Central. Entretanto, após chuvas intensas, a dinâmica da paisagem mudou, permitindo que o inesperado acontecesse.

Como o peixe-jaguar chegou ao território dos tubarões?

A Baía do Sueste, apesar de marinha, recebe descargas de água doce vindas de um manguezal próximo sempre que há transbordamento. Na véspera do registro, a chuva forte fez com que o reservatório do Xaréu se conectasse ao manguezal, criando uma passagem temporária para que os peixes-jaguar alcançassem o mar. A mudança brusca na salinidade não passou despercebida pelos invasores: estressados, apresentaram nado errático, o que facilitou sua captura pelos tubarões.

Além disso, estudos já haviam demonstrado que salinidades superiores a 25 psu aumentam significativamente a frequência cardíaca dos peixes-jaguar. Na Baía do Sueste, esse índice pode atingir 32 psu, criando um ambiente hostil para o animal, que perde capacidade de reação — e acaba se tornando presa fácil.

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Um berçário de tubarões transformado pela chuva

O Sueste é conhecido como área de reprodução e alimentação dos tubarões-limão. Filhotes permanecem ali durante o primeiro ano de vida, em águas rasas e protegidas, antes de migrarem para o mar aberto. Dessa vez, entretanto, não apenas juvenis foram vistos participando da predação: indivíduos de maior porte também aproveitaram a oportunidade.

O ambiente, quente, raso e turvo, costuma atrair também tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier), o que já levou à proibição de banho e mergulho em 2022, após incidentes com turistas. Assim, o local reúne condições ideais para predadores, ainda que o peixe-jaguar, naturalmente, não faça parte da dieta habitual de nenhuma dessas espécies.

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Monitoramento por drones permitiu registrar o momento exato da caça

A análise foi possível graças ao monitoramento contínuo realizado por pesquisadores apoiados pela FAPESP. Utilizando drones, eles acompanham a movimentação dos tubarões, que periodicamente são capturados, medidos, marcados e liberados, permitindo a construção de um histórico comportamental detalhado da espécie.

Foi durante esse acompanhamento aéreo que o comportamento oportunista apareceu de forma clara: tubarões seguindo os peixes-jaguar, que tentavam fugir enquanto eram desorientados pelo aumento de salinidade.

Predação ajuda, mas não resolve o problema da espécie invasora

Apesar do registro impressionante, os pesquisadores afirmam que os tubarões, sozinhos, não devem ser capazes de controlar a população invasora. Eles apenas reduzem a quantidade de indivíduos que, ocasionalmente, alcançam a Baía do Sueste após enchentes.

Ainda não há estudos conclusivos sobre o impacto do peixe-jaguar na biodiversidade de Noronha. No entanto, pela experiência em outros ecossistemas, acredita-se que ele possa competir com espécies nativas ou mesmo predá-las, trazendo desequilíbrio ao sistema local.

Por outro lado, se episódios como este se tornarem frequentes, existe a possibilidade de que os tubarões passem a associar chuvas intensas à disponibilidade de alimento — um mecanismo conhecido em outras espécies marinhas.

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Um comportamento oportunista que pode se repetir

Registros de tubarões consumindo espécies invasoras existem, como no caso do peixe-leão (Pterois spp.), mas a predação do peixe-jaguar jamais havia sido observada. Tampouco se havia documentado visualmente, via drone, o momento exato da captura.

Embora o transbordamento tenha ocorrido novamente em 2024, não houve nova observação da interação. Assim, não se sabe se a quantidade de peixes-jaguar diminuiu, se não chegaram ao mar naquele momento, ou se simplesmente não houve oportunidade de registro.

O estudo integra o projeto “Impacto das mudanças antropogênicas na fauna: contribuições da fisiologia da conservação”, apoiado pela FAPESP e coordenado por Fernando Ribeiro Gomes, do Instituto de Biociências da USP. A continuidade do monitoramento poderá revelar se a cena rara vista em 2024 foi um evento isolado ou o início de uma nova dinâmica ecológica em Fernando de Noronha.

Via: André Julião | Agência FAPESP
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