Por décadas, quem cuidava de terrenos, estradas vicinais e áreas de pastagem no Brasil via a Trema micrantha como um problema a ser resolvido. O arbusto cresce rápido, se espalha com facilidade em solos degradados e costuma ser um dos primeiros a ocupar espaço onde a vegetação nativa foi removida. Por causa disso, virou sinônimo de vegetação invasora em boa parte do país, e seu destino mais comum sempre foi o corte e o descarte.
O que ninguém sabia até pouco tempo atrás é que essa planta carregava, em seus frutos e flores, um composto que hoje movimenta um mercado global bilionário. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificaram canabidiol, o CBD, na Trema micrantha, e o achado reposiciona por completo o valor de uma espécie que sempre foi tratada como descartável.
Uma descoberta que nasceu da observação de uma prima distante
A investigação começou a partir de um raciocínio simples. Cientistas em outras partes do mundo já haviam identificado canabinoides em uma espécie asiática do mesmo gênero, a Trema orientale. Rodrigo Soares Moura Neto, biólogo molecular do Instituto de Biologia da UFRJ e coordenador da pesquisa, decidiu investigar se a única espécie de Trema encontrada no Brasil apresentaria o mesmo padrão bioquímico.
O resultado confirmou a hipótese. A equipe identificou canabidiol nos frutos e nas flores da planta brasileira, sem qualquer mistura com o tetrahidrocanabinol, o THC, substância psicoativa presente na Cannabis sativa e responsável pelos efeitos que tornam o cultivo da maconha restrito por lei em praticamente todo o mundo. Essa ausência total de THC é o que torna a descoberta juridicamente relevante, e não apenas cientificamente curiosa.
Por que a ausência de THC muda tudo
No Brasil, o cultivo da Cannabis sativa em escala é proibido, e o acesso ao canabidiol depende de importação regulada pela Anvisa, com restrições rígidas de formulação, ou de decisões judiciais específicas para casos isolados. Essa barreira encarece o tratamento e limita o acesso de grande parte da população que poderia se beneficiar da substância.
A Trema micrantha muda completamente essa equação. Por não conter THC em nenhuma concentração detectável, a planta não se enquadra nas restrições legais aplicadas à Cannabis. Isso significa, na prática, que seu cultivo não esbarra nas mesmas barreiras jurídicas, e que a extração do canabidiol a partir dela poderia seguir um caminho regulatório muito mais simples do que o exigido hoje para a maconha.
Some-se a isso o fato de a planta já ser nativa e amplamente distribuída pelo território brasileiro, adaptada ao clima tropical e crescendo espontaneamente sem exigir manejo agrícola sofisticado. Enquanto o cultivo da Cannabis para fins medicinais no Brasil ainda depende de autorizações específicas e de infraestrutura controlada, a Trema já está lá, disponível, e sempre esteve.
O potencial terapêutico por trás do composto
O canabidiol tem sido estudado globalmente por seu papel no tratamento de epilepsias refratárias, especialmente em crianças e adolescentes, além de seu uso investigado em quadros de dor crônica, ansiedade e distúrbios neurodegenerativos. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina restringe atualmente a prescrição médica do CBD a condições específicas, como a Síndrome de Dravet, a Síndrome de Lennox-Gastaut e a Esclerose Tuberosa, ainda que o debate sobre a ampliação desse uso continue avançando no Congresso Nacional e na comunidade científica.
Encontrar uma fonte vegetal nativa, legal e potencialmente abundante do composto representa, portanto, mais do que uma curiosidade botânica. Representa a possibilidade concreta de produção nacional em maior escala, com menor custo, o que pode ampliar o acesso ao tratamento dentro do próprio sistema público de saúde brasileiro, hoje dependente quase que integralmente de importação.
O que ainda falta para a descoberta virar produto
Vale registrar um ponto importante para entender o estágio real da pesquisa. O anúncio inicial da equipe da UFRJ ocorreu em 2023, com estimativa de que o projeto completo levaria pelo menos cinco anos até sua conclusão. Até o momento, os resultados detalhados da identificação química ainda não foram publicados formalmente em periódico científico revisado por pares, o que é uma etapa esperada e necessária antes que a descoberta possa ser validada de forma ampla pela comunidade científica internacional.
Isso não diminui o valor do achado, mas ajuda a entender por que ainda não existe, e não deveria existir neste momento, qualquer produto comercial derivado da Trema micrantha. O próximo passo da equipe envolve determinar o método mais eficiente de extração e isolamento do composto, com uso de técnicas como cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massa, considerada padrão-ouro para isolamento de canabinoides. Depois dessa etapa, testes in vitro devem avaliar se o CBD extraído da planta brasileira apresenta a mesma eficácia terapêutica já documentada para o canabidiol de origem em Cannabis.
Uma dimensão que passa despercebida: a planta já tinha um lugar na medicina popular
Um detalhe reforça que a Trema micrantha nunca foi tão inútil quanto parecia. Comunidades caiçaras do litoral brasileiro já utilizavam as folhas da planta havia gerações no tratamento de condições como icterícia e hemorroidas, um conhecimento tradicional documentado por pesquisas acadêmicas brasileiras antes mesmo da descoberta do CBD. As folhas também são usadas popularmente no alívio de erupções cutâneas, aproveitando propriedades analgésicas percebidas empiricamente muito antes de qualquer análise laboratorial.
Esse uso tradicional levanta uma reflexão relevante sobre a forma como a ciência se relaciona com o conhecimento popular. Muitas vezes, populações tradicionais já reconhecem o valor terapêutico de uma planta décadas ou séculos antes de a academia confirmar o motivo bioquímico por trás desse efeito. A Trema micrantha se soma a uma lista extensa de espécies da flora brasileira cujo potencial farmacológico só foi revelado depois que a ciência decidiu prestar atenção no que a tradição já apontava.
Um mercado global que cresce em ritmo acelerado
O timing da descoberta também merece atenção. Projeções da consultoria Vantage Market Research indicam que o mercado global de CBD deve saltar de aproximadamente cinco bilhões de dólares atualmente para mais de quarenta e sete bilhões de dólares até 2028, impulsionado principalmente por aplicações terapêuticas e de bem-estar. Se a Trema micrantha se confirmar como fonte viável e escalável do composto, o Brasil passa a ocupar uma posição estratégica dentro de uma cadeia global que hoje é dominada quase que exclusivamente por produtores da América do Norte e da Europa.
Há ainda um aspecto de biodiversidade que raramente entra nesse tipo de discussão. A flora brasileira concentra uma das maiores diversidades genéticas vegetais do planeta, e apenas uma fração mínima dessas espécies já foi estudada em profundidade quanto ao seu potencial bioativo. A Trema micrantha ilustra bem esse cenário: uma planta considerada indesejada por décadas guardava, o tempo todo, um composto de altíssimo valor científico e econômico, simplesmente porque ninguém havia perguntado o que havia dentro dela.




