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Taturana na horta ou jardim: o que fazer ao encontrar a lagarta e por que o contato com a pele é mais perigoso do que parece

Algumas espécies do gênero Lonomia carregam veneno capaz de causar hemorragias internas — e o Brasil produz o único soro capaz de reverter o quadro

Revisão: Derick Machado
17 de maio de 2026
in Jardinagem & Cuidados
Taturana na horta ou jardim: o que fazer ao encontrar a lagarta e por que o contato com a pele é mais perigoso do que parece

As taturanas são lagartas de aparência espinhosa ou cabeluda que surgem com frequência em jardins, hortas e quintais, especialmente em propriedades próximas a fragmentos de mata nativa. Apesar do aspecto curioso, o contato com a pele pode desencadear reações que vão muito além de uma simples irritação. O Instituto Butantan emitiu orientações sobre como agir ao encontrá-las, reforçando que algumas espécies do gênero Lonomia são capazes de inocular toxinas potentes por meio de um mecanismo que ainda surpreende quem não conhece.

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O processo não funciona como uma picada convencional. Ao entrar em contato com a pele humana, a lagarta rompe estruturas microscópicas presentes nas cerdas — semelhantes a agulhas minúsculas — que liberam toxinas diretamente no tecido. “Trata-se de um mecanismo diferente, chamado de erucismo”, explica o material técnico do Instituto Butantan. Os sintomas iniciais incluem dor com sensação de queimadura, vermelhidão e, em alguns casos, leve inchaço ou bolhas no local. Horas depois, o quadro pode evoluir para dor de cabeça, náuseas e mal-estar, antecedendo a alteração na coagulação sanguínea e hemorragias em diferentes partes do corpo, como nas gengivas e na urina.

Diante disso, a recomendação imediata do Butantan é lavar o local apenas com água e sabão, não aplicar nenhum remédio caseiro e buscar atendimento médico com urgência.

Nunca manipule com as mãos

A primeira regra ao avistar uma taturana é não tocá-la sem proteção. Se não for possível acionar imediatamente uma equipe especializada, o Butantan orienta o uso de luvas de borracha e uma pinça longa para qualquer tipo de manuseio. Mesmo assim, o encaminhamento do animal para as Centrais de Zoonoses ou diretamente para o Instituto é considerado essencial — não apenas para a segurança de quem encontrou a lagarta, mas para a continuidade de um processo que envolve saúde pública em escala nacional.

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O Brasil é um dos dois únicos países do mundo que produzem o soro antilonômico, ao lado da Colômbia. Desenvolvido e fabricado pelo Butantan desde a década de 1990, o imunobiológico é o único tratamento eficaz contra o veneno das lonomias. A matéria-prima para sua produção é obtida das próprias cerdas da lagarta, que precisam ser cortadas, maceradas e processadas para extração da toxina em forma líquida. O Instituto chega a produzir cerca de 5 mil doses por ano — número que já chegou a 17 mil em períodos de maior demanda.

Na América do Sul, existem cerca de 60 espécies de Lonomia conhecidas, das quais sete são capazes de provocar hemorragias graves. No Brasil, são 13 espécies registradas, sendo quatro com potencial de causar acidentes de maior gravidade.

A população tem papel direto na produção do soro

Poucos sabem, mas moradores de áreas próximas a matas nativas desempenham um papel concreto na cadeia de produção do antídoto. “A população tem um papel crucial na identificação das lonomias que, dependendo da região, podem ser encontradas em diferentes épocas do ano. Em muitos casos, moradores de áreas de mata nativa, habitat natural desses insetos, monitoram o surgimento das lagartas e avisam o serviço de saúde para retirada do local e envio para o Butantan”, destaca Fan Hui Wen, diretora técnica de produção de soros hiperimunes do Instituto Butantan.

A criação das lonomias em cativeiro, aliás, não é viável até o momento. Isso porque o ciclo de vida do inseto — composto por ovo, lagarta, pupa e mariposa — é complexo demais para ser reproduzido em escala laboratorial. “Desta forma, contamos com a parceria de prefeituras e Estados, nos quais Centros de Controle de Zoonoses e Vigilância Sanitária fazem a coleta nos locais onde as lonomias são encontradas pela população e nos enviam os exemplares necessários para a produção”, explica Fan Hui Wen.

Portanto, ao encontrar taturanas no quintal ou na lavoura, acionar o Centro de Zoonoses do município não é apenas uma medida de segurança individual — é uma contribuição direta para que o estoque do soro se mantenha abastecido em todo o país.

Soro distribuído pelo SUS, inclusive para outros países

As doses produzidas pelo Butantan são encaminhadas ao Ministério da Saúde, que as distribui pelo Sistema Único de Saúde. O soro não é comercializado para pessoas físicas nem para empresas, e sua aplicação deve ocorrer exclusivamente em ambiente hospitalar, sob supervisão médica.

A abrangência do antídoto vai além das fronteiras brasileiras. Doses já foram enviadas para Peru, Argentina, Uruguai, Guiana Francesa e Guiana. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em 2023, quando um inglês de 29 anos pisou em uma taturana durante uma viagem pela Guiana. Sem diagnóstico preciso pelos médicos locais, amigos do jovem — entre eles uma brasileira — contataram o Hospital Vital Brazil, unidade do Butantan especializada em acidentes por animais peçonhentos. A força-tarefa montada pelo Instituto resultou no envio do soro antilonômico ao paciente, que recebeu alta duas semanas depois. O caso rendeu ao Butantan uma carta formal de agradecimento do Parlamento Britânico.

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