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Solo, rio e produção: a agrofloresta que está reconstruindo o Vale do Taquari após as enchentes de 2024

Na comunidade que se tornou símbolo da tragédia no Rio Grande do Sul, produtores apostam em sistemas agroflorestais para recuperar terras cobertas de lodo e retomar a renda

Revisão: Derick Machado
17 de maio de 2026
in Clima e Sustentabilidade
Foto: Fredy Vieira

Foto: Fredy Vieira

As águas do Rio Taquari chegaram sem avisar. Em maio de 2024, Arroio do Ouro, pequena comunidade no interior de Estrela, no Vale do Taquari, foi varrida por uma das piores enchentes já registradas no Rio Grande do Sul. Mais de 60 pessoas morreram na região. Propriedades foram destruídas. Dunas de areia se formaram sobre lavouras que, até dias antes, produziam grãos e leite.

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A família Mallmann sobreviveu sobre o telhado de casa enquanto a água tomava conta dos 60 hectares às margens do rio. Quando as enchentes recuaram, o que ficou foi lodo, detritos, equipamentos destruídos e um rebanho leiteiro de 30 vacas que produzia 500 litros por dia simplesmente extinto. “Perdemos rebanho, equipamentos, galpões, máquinas, móveis da casa. Ficamos sem renda”, conta Fernando Mallmann. Seu pai, José Luiz, resume o período com uma frase direta: “Ser agricultor já não é fácil, estamos acostumados com fases difíceis, mas essa foi dose.”

A crise foi além da produção. Mais de 20 casas desapareceram de Arroio do Ouro. Parte dos moradores foi embora. Galpões que não foram reconstruídos ainda marcam a paisagem. A comunidade que se tornou símbolo da catástrofe gaúcha agora também é palco de um projeto que tenta unir recuperação ambiental e retomada econômica por um mesmo caminho: a agrofloresta.

A escolha pela agrofloresta

Sem dinheiro para recompor o rebanho e com receio de voltar a perder animais em uma eventual nova cheia, os Mallmann decidiram concentrar esforços nos grãos. O problema era que as terras da lavoura estavam cobertas de lodo e a mata ciliar às margens do rio havia sido arrancada pela força da água. Plantar direto nesse cenário, sem restabelecer a proteção vegetal, seria assumir um risco estrutural a cada nova temporada de chuvas.

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A saída veio em novembro de 2024, quando a propriedade foi escolhida como primeira Unidade de Referência Tecnológica do Plano Recupera Rural RS, uma iniciativa estruturada pelo Ministério da Agricultura por meio da Embrapa, com apoio da Emater/RS, do Projeto Quintais Orgânicos de Frutas e da Yara Brasil. A meta era demonstrar que sistemas agroflorestais poderiam, ao mesmo tempo, estabilizar o solo degradado, recompor a vegetação ciliar e gerar renda para famílias que perderam suas bases produtivas.

“Estamos propondo um modelo de restauração que une produção e conservação. O agricultor ajuda a restaurar as margens do rio e, ao mesmo tempo, tem sua própria produção de alimentos”, afirma Ernestino Guarino, pesquisador da Embrapa Clima Temperado responsável pelo projeto.

Planejamento participativo: quando o técnico caminha com o produtor

O trabalho começou meses antes do plantio. Em julho, pesquisadores, técnicos da Emater e os próprios agricultores percorreram juntos a área para mapear os impactos da enchente, identificar os trechos mais vulneráveis às margens do Rio Taquari e entender as expectativas da família para o futuro da propriedade. Esse processo, chamado de planejamento participativo, é o que diferencia o Recupera Rural RS de um simples programa de plantio.

A implantação seguiu os princípios da sucessão ecológica, respeitando a lógica natural de repovoamento de uma área degradada. Gramíneas, por serem as primeiras espécies a reaparecer após uma tragédia, foram combinadas ao plantio simultâneo de árvores, uma adaptação técnica que acelera o processo de recuperação sem aguardar cada etapa se completar naturalmente. Nas bordas e margens do rio, foram plantadas espécies nativas como sarandi, maricá, salso-crioulo e caliandra, para recompor a mata ciliar. O solo recebeu composto orgânico antes do plantio, preparando o terreno para receber tanto as árvores como as culturas produtivas.

Junto a esse sistema, a família recebeu 28 árvores frutíferas do Projeto Quintais Orgânicos de Frutas, entre goiabeiras, pitangueiras e laranjeiras. Nas entrelinhas das árvores, foram plantados milho, feijão, forrageiras e melancia. O modelo garante que, enquanto as árvores crescem e a mata ciliar se reestabelece, a família já obtém renda com as culturas anuais.

Resultados que já aparecem no campo

Fernando Mallmann não precisou esperar muito para ver os primeiros sinais de que a aposta valeria a pena. “Os pés de figo ainda são pequenos, mas vão dar uma boa produção nesta safra”, comemora. A lavoura de feijão, plantada no mesmo sistema, já responde com estande uniforme, algo que parecia distante meses antes, com o solo ainda marcado pelos efeitos da enchente.

Guarino ressalta a importância de mudar a percepção dos produtores sobre a vegetação às margens dos rios. “Depois da tragédia, muitos passaram a ter medo de plantar árvores perto do rio por acharem que elas podem causar destruição se forem levadas pela água. Mas recompor a mata ciliar, a proteção vegetal, é muito importante”, afirma o pesquisador. A lógica é inversa à do senso comum: são justamente as raízes das árvores que fixam o solo, reduzem a velocidade de escoamento da água e diminuem a erosão nas margens durante eventos extremos.

O vizinho que viu e quer replicar

A menos de um quilômetro da propriedade dos Mallmann, Silvio Antônio Gregory passou dois dias e duas noites sobre o telhado de sua casa durante a enchente. No sítio de 2,5 hectares, perdeu os bovinos que criava e ainda convive com grandes extensões de areia acumulada sobre as terras. Com uma área pequena demais para competir com grãos ou para estruturar uma pecuária expressiva, Gregory viu no modelo dos vizinhos uma saída concreta.

“Minha área é muito pequena para plantar grãos ou fazer uma criação maior de animais. Ou mudo de atividade, ou abandono a agricultura. Então, estou apostando nas frutas”, conta. Ele já está em conversas com a Embrapa e a Emater para estruturar um sistema agroflorestal semelhante, com foco em pomares comerciais de frutíferas. A expectativa é de ter um projeto formatado até agosto.

O caso de Gregory aponta para algo que o projeto Recupera Rural RS quer provar: que a experiência dos Mallmann não é um caso isolado, mas um modelo replicável para as dezenas de propriedades do Vale do Taquari que seguem com solos comprometidos e sem perspectiva clara de retorno à produção convencional.

A estrutura por trás do projeto

O Plano Recupera Rural RS não se limita à agrofloresta dos Mallmann. O plano identifica áreas prioritárias para pesquisa e desenvolvimento no estado, fornece suporte técnico a produtores e agentes públicos, apoia políticas de prevenção a desastres climáticos e trabalha para devolver capacidade produtiva aos sistemas agroalimentares afetados pelas enchentes. A iniciativa conecta Embrapa, Emater/RS e parceiros da iniciativa privada com governos federal, estadual e municipal.

A esse plano se soma o programa Operação Terra Forte, do governo do Rio Grande do Sul, executado pela Emater. Com investimento inicial de R$ 300 milhões do Fundo de Reconstrução do Estado (Funrigs), o programa estima beneficiar diretamente 15 mil produtores da agricultura familiar e, pela difusão tecnológica, pode alcançar até 150 mil unidades produtivas. O eixo central é o mesmo: recuperar o solo degradado com práticas sustentáveis e posicionar a agricultura familiar como protagonista na reconstrução do estado.

O que Arroio do Ouro representa para o Rio Grande do Sul

Fernando Mallmann sabe que sua propriedade virou referência e carrega esse peso com clareza. “Muitas pessoas que foram embora estão com depressão, gostariam de retornar”, diz. O projeto agroflorestal não é apenas uma solução técnica para solo degradado. É, para os moradores que ficaram, uma demonstração de que a terra ainda produz, que o risco pode ser gerenciado e que existe caminho para voltar.

A combinação de espécies nativas para proteção das margens, frutíferas para geração de renda e culturas anuais para garantir resultado imediato cria um sistema em que produção e conservação deixam de ser objetivos opostos. Para um bioma pressionado por eventos climáticos cada vez mais frequentes, essa lógica não é apenas sustentável. É o que o Vale do Taquari precisava ouvir.

Via: Globo Rural
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