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Quando a manteiga não é manteiga

Revisão: Derick Machado
19 de maio de 2026
in Noticias
Foto: Leo Bettinelli/Sucom/UFPR

Foto: Leo Bettinelli/Sucom/UFPR

Resumo
  1. A investigação da Polícia Federal em Minas Gerais revelou fraude em manteigas comercializadas, substituindo gordura láctea por óleos vegetais mais baratos, ameaçando a saúde do consumidor.
  2. As amostras apreendidas foram analisadas pelo Laboratório de RMN da UFPR, cuja técnica funciona como uma impressão digital química e identificou adulterações nos produtos.
  3. A análise isotópica revelou que as amostras fraudulentas possuíam assinatura química de plantas C3, enquanto manteigas autênticas apresentam padrão de animais alimentados com plantas C4.
  4. O estudo integrou pesquisadores da UFPR e o recém-criado Centro de Ciências Forenses, reforçando o papel da universidade no apoio às investigações policiais e no combate à criminalidade.
  5. A parceria científica permitiu laudos mais precisos e expôs como a tecnologia pode proteger a população, ao identificar produtos adulterados e fortalecer decisões judiciais.

A adulteração de alimentos se tornou um problema global de enormes proporções, movimentando cifras bilionárias e colocando em risco a saúde da população. No Brasil, onde o consumo de laticínios cresce a cada ano, a preocupação com fraudes em produtos como a manteiga se intensifica. Além disso, práticas ilícitas que substituem a gordura láctea — elemento nobre e nutritivo — por alternativas baratas, como óleo de palma, margarina ou até banha suína, elevam o risco sanitário e criam desafios para órgãos de fiscalização.

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Foi justamente em meio a esse cenário que uma investigação conduzida pela Polícia Federal em Minas Gerais chamou atenção. Lotes de uma marca de manteiga comercializada em supermercados foram apreendidos sob suspeita de adulteração. Entretanto, para além das inspeções tradicionais, o caso exigiu uma abordagem científica mais precisa. Por isso, a PF recorreu ao apoio da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde pesquisadores utilizam tecnologias avançadas para desvendar composições químicas com altíssimo grau de detalhamento.

“O produto perde sua certificação e segurança. Acrescenta-se ainda que a adição de componentes exógenos implica em prejuízos à saúde, principalmente de pessoas que necessitam de alimentação restritiva”, afirma o perito da Polícia Federal Ricardo de Oliveira Mascarenhas, ao explicar os riscos associados a alterações fraudulentas desse tipo.

As amostras apreendidas, juntamente com matérias-primas encontradas nos locais de produção — entre elas óleo de palma e aromatizantes — foram encaminhadas ao Laboratório Multiusuário de Ressonância Magnética Nuclear da UFPR. A tecnologia utilizada, a espectroscopia de Ressonância Magnética Nuclear (RMN), funciona como uma espécie de assinatura química, capaz de revelar a identidade molecular de qualquer material analisado. Assim, cada componente apresenta um padrão único, permitindo detectar adulterações com precisão muito superior às análises convencionais.

Segundo a pesquisadora Leice Novais, responsável por parte da investigação, os espectros revelaram imediatamente que as amostras estavam longe de corresponder ao padrão legal de manteiga. “Empregando a técnica de RMN e de análise isotópica, averiguamos que as amostras estavam adulteradas pelo emprego de materiais como óleo vegetal e aromatizantes”, explica. Pela legislação, manteiga autêntica só pode conter gordura láctea.

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O professor Andersson Barison complementa que a RMN é versátil o suficiente para avaliar desde derivados de leite até alimentos naturais, identificando, por exemplo, se uma batata é ou não fruto de agricultura orgânica. Esse poder analítico é justamente o que fortalece a atuação da UFPR em investigações de impacto social.

Além da RMN, outra ferramenta científica foi fundamental para confirmar a fraude. A equipe utilizou a técnica de Razão de Isótopos Estáveis de Carbono (SCIRA), realizada no Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília. A alimentação do gado no Brasil, baseada majoritariamente em plantas do tipo C4, deixa uma marca isotópica típica nos produtos lácteos. Já óleos vegetais como o de palma têm origem em plantas C3, cuja assinatura química é completamente distinta. Assim, o método permitiu rastrear a origem molecular das gorduras presentes nas amostras, indicando que a suposta manteiga continha predominantemente material vegetal.

Os resultados foram categóricos: enquanto as manteigas comerciais autênticas exibiam a assinatura isotópica esperada, as amostras apreendidas apresentaram características compatíveis com óleos vegetais puros. A Análise de Componentes Principais (PCA) reforçou essa conclusão ao agrupar visualmente as amostras fraudulentas, mostrando que praticamente nenhuma delas possuía quantidade significativa de gordura do leite.

No centro desse trabalho está o recém-criado Centro de Ciências Forenses (CCF) da UFPR, instituído em 2020 e considerado pioneiro no país. O CCF reúne 15 grupos de pesquisa de áreas distintas, integrando especialistas que atuam desde a autenticação de obras de arte até a identificação de novas substâncias psicoativas. A publicação internacional Food Additives & Contaminants destacou o estudo intitulado “Investigation of fraud in the production of butter: a forensic case study of criminal association”, um dos resultados diretos dessa colaboração.

“A interação entre a UFPR e as forças de segurança existe há muitos anos, porque o trabalho dos peritos é científico e precisa de apoio em infraestrutura, metodologia e pesquisa”, explica a docente Caroline D’Oca. “Somos pagos pela sociedade e os equipamentos que usamos foram comprados com recursos públicos. Então, é um dever nosso devolver à população o conhecimento e os resultados que produzimos.”

Os impactos desse modelo de parceria já são amplamente perceptíveis. Ao longo dos últimos anos, o CCF atuou na identificação de Novas Substâncias Psicoativas, analisou o teor de etanol em álcool gel durante a Operação Aquagel, no auge da pandemia, e colaborou na Operação Xaropel, que investigou a adulteração de mel. Cada caso reforça que a ciência, quando integrada às investigações, amplia a precisão das provas e fortalece decisões judiciais.

Para Ricardo Mascarenhas, esse alinhamento entre universidade e segurança pública é estratégico. Ele destaca que a estrutura laboratorial da UFPR e a experiência dos pesquisadores permitem otimizar recursos e ampliar a qualidade dos laudos periciais, o que é crucial para investigações complexas. “A parceria robustece a prova pericial e colabora tanto com as investigações policiais quanto com as decisões judiciais”, conclui.

Assim, a operação envolvendo a manteiga adulterada não apenas desmascarou uma fraude, mas também evidenciou o papel decisivo da ciência forense no país. Quando tecnologia, universidade e segurança pública atuam em conjunto, a resposta dada à sociedade se traduz em proteção, transparência e confiança — valores essenciais em um mercado onde a autenticidade é uma necessidade vital.

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