O Brasil abriga a maior diversidade de abelhas sem ferrão do mundo, com cerca de 300 espécies catalogadas distribuídas por todos os biomas. Durante décadas, porém, o potencial farmacológico dos produtos dessas abelhas ficou à sombra da própolis convencional, produzida pela Apis mellifera, espécie introduzida da Europa e amplamente dominante no mercado. Uma pesquisa conduzida em parceria entre o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) e a Universidade Federal do Paraná (UFPR) começa a mudar essa perspectiva com dados concretos — e o protagonista é um produto de coloração incomum chamado própolis azul.
A dissertação de mestrado defendida pelo pesquisador Vitor Luis Fagundes, no programa de pós-graduação em ciências farmacêuticas da UFPR, é a primeira a estabelecer uma comparação sistemática entre a própolis azul e as própolis verde e vermelha, as duas variedades mais consolidadas comercialmente. O resultado mais importante do estudo surpreendeu: além de apresentar composição química semelhante às demais, a própolis azul demonstrou atividade antibacteriana superior à observada nas outras variedades avaliadas.
O que é a própolis azul e por que ela ficou de fora do radar por tanto tempo
A própolis azul é produzida por abelhas sem ferrão, em especial pela mandaçaia, a Melipona quadrifasciata, espécie nativa da Mata Atlântica. A coloração característica resulta da combinação de resinas e compostos coletados pelas abelhas em espécies vegetais específicas do bioma, processo diferente do que ocorre com as abelhas africanizadas, que percorrem fontes botânicas mais diversas e amplamente estudadas, como o alecrim-do-campo para a própolis verde e a aroeira-vermelha para a própolis vermelha.
O desinteresse científico por esse produto até recentemente tem uma explicação prática: o volume produzido pelas abelhas sem ferrão é muito menor do que o das espécies com ferrão. Enquanto uma colmeia de Apis mellifera pode produzir centenas de gramas de própolis por ano, uma colmeia de mandaçaia produz entre 20 e 80 gramas. Essa escassez tornava a matéria-prima cara e dificultava a padronização necessária para estudos farmacológicos em larga escala. O que o trabalho do Tecpar e da UFPR demonstra é que esse obstáculo não invalida o potencial do produto, e que o valor agregado da própolis azul pode compensar economicamente a menor escala de produção.
A pesquisa e o que ela revelou
O estudo conduzido por Fagundes avaliou a composição química e as atividades antimicrobiana e citotóxica das três variedades de própolis. A análise química identificou que a própolis azul compartilha com as demais grupos de compostos bioativos relevantes, o que sustenta a hipótese de que seu mecanismo de ação farmacológica percorre caminhos semelhantes. O ponto de destaque, porém, foi a performance nos testes antibacterianos.
“A parceria com o Tecpar foi fundamental, uma vez que o pesquisador Renato Rau identificou a lacuna de conhecimento existente sobre a própolis azul, e disponibilizou as amostras necessárias para o desenvolvimento da pesquisa e esteve sempre disposto a colaborar ao longo do processo”, afirma Vitor Luis Fagundes. O pesquisador ressalta que os resultados demonstraram atividade biológica robusta, com a própolis azul superando as demais variedades nos testes de atividade antibacteriana.
Renato Rau, pesquisador do Tecpar e coordenador do projeto de meliponicultura em Morretes, no Litoral do Paraná, detalha o perfil terapêutico identificado: “A própolis azul tem características medicinais que podem contribuir em ações antimicrobiana, anti-inflamatória, antiparasitária, antiviral e antitumoral. É ainda um importante fortalecedor do sistema imunológico, equilibrando o organismo, e apresenta atividade antibiótica, efeitos esses muito superiores quando comparado ao uso das outras própolis.”
O próximo passo: encontrar a assinatura química da própolis azul
Todo produto natural com potencial farmacológico consolidado possui o que os pesquisadores chamam de molécula tipificadora, um marcador químico que funciona como identidade do produto e serve de referência para controle de qualidade, padronização industrial e registro regulatório. Para a própolis verde, esse papel é exercido pelo Artepillin C, composto isolado nas décadas de 1990 e 2000 e responsável por consolidar o Brasil como referência mundial nessa variedade. A própolis azul ainda não tem sua molécula tipificadora identificada, e esse é exatamente o próximo objetivo da parceria Tecpar-UFPR.
A importância desse passo não pode ser subestimada. Sem um marcador químico definido, a própolis azul não pode ser padronizada para uso farmacêutico nem registrada junto à ANVISA como insumo medicinal. A identificação da molécula tipificadora abre as portas para que o produto percorra o mesmo caminho já trilhado pela própolis verde brasileira, que hoje é exportada para Japão, Estados Unidos e países europeus como matéria-prima de alto valor.
O mercado global e o que o Brasil tem a ganhar
O mercado mundial de própolis movimenta cifras expressivas. Estimativas do setor indicam que o segmento global de produtos à base de própolis ultrapassou US$ 500 milhões em valor de mercado nos últimos anos, com crescimento impulsionado pela demanda asiática, especialmente japonesa e coreana, onde o produto é amplamente utilizado em suplementos e cosméticos. O Brasil já é reconhecido internacionalmente pela qualidade da própolis verde do cerrado, mas a própolis azul ainda é praticamente desconhecida fora do País.
Se a pesquisa avançar e a molécula tipificadora for identificada, o Brasil pode ter em mãos um produto exclusivo, originário de uma abelha nativa, com ação farmacológica documentada e produção concentrada em biomas que o país detém com exclusividade. Esse conjunto de fatores cria uma janela de oportunidade difícil de replicar por outros países produtores.
Morretes como laboratório vivo da meliponicultura
Enquanto a ciência avança no laboratório, o Tecpar já construiu uma estrutura produtiva concreta no Litoral do Paraná. Em parceria com a prefeitura de Morretes, o instituto capacitou mais de 50 agricultores familiares para o manejo de abelhas sem ferrão e distribuiu mais de 100 caixas racionais para o desenvolvimento da cadeia produtiva de própolis azul na região. O projeto une geração de renda, preservação de espécies nativas e produção de matéria-prima para pesquisa, criando um modelo de desenvolvimento que pode ser replicado em outros municípios.
A expansão já está planejada. Celso Kloss, diretor de Novos Negócios e Relações Institucionais do Tecpar, confirma que o próximo passo é selecionar famílias rurais nos sete municípios do Litoral do Paraná para ingressar no projeto com colmeias de abelha mandaçaia. “Esse é o resultado social do projeto, que vai ainda estudar novos produtos à base de mel e de própolis. Essa ação demonstra o impacto do Tecpar, instituto de ciência e tecnologia do Governo do Estado: usar a pesquisa científica como indutor de desenvolvimento”, afirma Kloss.
A escolha de Morretes não é casual. O município integra a área de Mata Atlântica do Litoral paranaense, bioma onde a mandaçaia encontra as condições ecológicas ideais para seu desenvolvimento e onde a diversidade botânica contribui para a riqueza química da própolis produzida. Manter abelhas nativas nesse contexto também tem função ecológica direta: as meliponíneas são polinizadoras essenciais de espécies vegetais nativas, e a meliponicultura bem manejada contribui para a conservação da biodiversidade local.
Uma abelha pequena, um composto raro, uma ciência em construção
A própolis azul chega ao radar científico com um histórico de uso tradicional por comunidades que convivem com abelhas sem ferrão há gerações, mas sem a documentação farmacológica que permitia seu reconhecimento formal. A pesquisa do Tecpar e da UFPR não resolve tudo de uma vez, mas estabelece a base sobre a qual os próximos estudos serão construídos, incluindo os testes de ação farmacológica em modelos mais complexos e a busca pelo registro regulatório.
Para um país que ainda explora uma fração do potencial de sua biodiversidade, a trajetória da própolis azul é um exemplo de como a ciência aplicada a espécies nativas pode gerar valor econômico, preservação ambiental e benefício social ao mesmo tempo. A mandaçaia sempre soube o que produzia. O que faltava era alguém disposto a prestar atenção.
