Em seis meses, 201,4 mil mudas de espécies nativas frutíferas saíram dos viveiros do Paraná e foram parar em quintais, propriedades rurais, margens de rios e áreas urbanas que precisavam de recuperação. O número faz parte do programa Paraná Mais Verde, coordenado pelo Instituto Água e Terra (IAT), que estabeleceu uma meta ambiciosa: chegar a 500 mil mudas distribuídas até o final de 2026. Se o ritmo do primeiro semestre se mantiver, a marca é alcançável dentro do prazo, e o que esses números escondem é uma reconexão silenciosa entre floresta, fauna e população.
O que a lista de preferências revela sobre o Paraná
Entre as espécies mais procuradas, a aroeira-pimenteira (Schinus terebinthifolia) lidera o ranking. A árvore, símbolo da Mata Atlântica, tem crescimento rápido e produz os pequenos frutos vermelhos conhecidos comercialmente como pimenta-rosa, hoje exportados e valorizados na gastronomia internacional. No Paraná, porém, o interesse da população vai além do valor culinário: os frutos são um dos principais atrativos para a avifauna local, o que transforma cada árvore plantada em um ponto de alimentação e dispersão de sementes para pássaros nativos.
Logo atrás vem o araçá (Psidium cattleyanum), espécie de adaptação notável que ocupa desde o litoral até o interior do estado. Seus frutos, ricos em vitamina C, servem tanto para consumo humano quanto para nutrir a fauna silvestre, o que explica a procura elevada tanto por moradores urbanos interessados em pomares domésticos quanto por produtores rurais focados em recuperação de áreas degradadas.
A araucária (Araucaria angustifolia) fecha o top três e carrega um peso simbólico que nenhuma outra espécie da lista tem. Símbolo oficial do estado, a árvore desenha a paisagem típica do Paraná e produz o pinhão, alimento essencial para a fauna, especialmente para a gralha-azul, ave que historicamente atua como principal dispersora natural das sementes da espécie. A relação entre araucária e gralha-azul é um dos exemplos mais estudados de coevolução entre planta e animal no bioma Mata Atlântica: sem a ave, a regeneração natural da araucária fica comprometida, o que torna cada muda plantada uma contribuição direta para manter esse ciclo vivo.
Seis linhas de ação por trás de um único número
O Paraná Mais Verde não opera como uma iniciativa isolada. O programa se organiza em seis frentes distintas: Revitaliza Viveiros, Viveiros Socioambientais, Incentivo a Espécies Ameaçadas de Extinção, Datas Comemorativas, Parques Urbanos e Poliniza Paraná. Essa estrutura permite que o estado atenda demandas muito diferentes ao mesmo tempo, da recuperação de mata ciliar em propriedades rurais até a arborização de praças urbanas, passando pelo reforço de populações de espécies ameaçadas.
Os viveiros que sustentam essa operação estão distribuídos em dezenove municípios paranaenses, incluindo São José dos Pinhais, Cascavel, Guarapuava, Morretes, Toledo, Umuarama e Paulo Frontin, entre outros. Essa distribuição geográfica não é aleatória: cada viveiro tende a produzir espécies adaptadas ao bioma da própria região, o que explica casos curiosos como o do café-de-bugre (Cordia ecalyculata) e do pêssego-do-mato (Eugenia myrcianthes), distribuídos exclusivamente pelo viveiro de Toledo, no Oeste do estado, e da grápia (Apuleia leiocarpa), que sai apenas do complexo de Salgado Filho, no Sudoeste.
O valor econômico que ninguém esperava do reflorestamento
Um aspecto que costuma passar despercebido nesse tipo de programa é o potencial econômico embutido nas espécies frutíferas nativas. Araçá-amarelo, guabiroba, jabuticaba e pitanga produzem frutos amplamente comercializados, o que abre espaço para que propriedades rurais combinem recuperação ambiental com geração de renda através da venda de frutas in natura ou de derivados como polpas e geleias. Esse modelo, conhecido em círculos de restauração florestal como sistemas agroflorestais de baixo impacto, tem ganhado força justamente por unir dois objetivos que antes pareciam distantes: recompor a vegetação nativa e criar retorno financeiro para quem planta.
A erva-mate (Ilex paraguariensis), outra espécie entre as mais procuradas no programa, é o exemplo mais consolidado dessa lógica no Paraná. A cultura já é economicamente relevante no estado, com produção que abastece tanto o consumo interno quanto a exportação, e sua presença na lista de mudas mais buscadas mostra que produtores rurais enxergam no programa uma oportunidade de diversificar a produção com uma espécie nativa que já tem mercado consolidado.
Como o pedido de mudas realmente funciona
O acesso às mudas segue um fluxo definido pelo Sistema de Gestão Ambiental (SGA), plataforma pela qual qualquer interessado pode solicitar exemplares. O pedido passa por análise técnica do IAT e, uma vez aprovado, o requerente recebe por e-mail as informações sobre o local de retirada e a documentação necessária. O programa atende tanto pessoas físicas interessadas em plantios voluntários quanto projetos vinculados a políticas públicas maiores, como o Programa de Regularização Ambiental (PRA) e o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), o que amplia o alcance de cada muda distribuída para além do jardim ou da propriedade individual.
O contexto que dá peso a esse número
Os 201,4 mil exemplares distribuídos em seis meses ganham outra dimensão quando colocados ao lado de um dado divulgado recentemente pelo próprio governo estadual: o desmatamento da Mata Atlântica no Paraná caiu 87,5% entre 2020 e 2025. A combinação entre redução da destruição florestal e aceleração do plantio de espécies nativas sugere uma mudança de trajetória na política ambiental do estado, que passa a atuar simultaneamente na contenção do desmatamento e na recomposição ativa da vegetação suprimida em décadas anteriores.
Esse tipo de dado ambiental estadual dialoga com um movimento mais amplo observado no Brasil. Segundo o Sistema Nacional de Informações Florestais, iniciativas de restauração com espécies nativas frutíferas têm crescido nos últimos anos justamente por gerarem retorno ecológico mais rápido: espécies que produzem frutos atraem fauna dispersora em prazo menor do que espécies exclusivamente madeireiras, acelerando a regeneração natural da área plantada.
Para quem acompanha de perto a relação entre floresta e biodiversidade, o padrão de escolha da população paranaense também funciona como termômetro. A preferência por aroeira-pimenteira, araçá e araucária não é casual: são espécies que, além de fáceis de cultivar e adaptadas ao clima local, entregam retorno visível em pouco tempo, seja pela atração de pássaros, seja pela produção de frutos comestíveis. Isso ajuda a explicar por que a meta de 500 mil mudas até o fim de 2026 parece cada vez mais próxima da realidade.




