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A árvore que atravessou a Idade Média morreu de calor e as tentativas de salvá-la podem ter apressado o fim

Com 1.200 anos de existência e tronco de 11 metros de circunferência, o Major Oak da Floresta de Sherwood foi declarado morto em 2025 após décadas de estresse climático e intervenções humanas que deixaram marcas irreversíveis

Escrito por: Mania de Plantas Revisão: Derick Machado
19 de junho de 2026
in Mundo Botânico & Ciência
A árvore que atravessou a Idade Média morreu de calor e as tentativas de salvá-la podem ter apressado o fim

Há árvores que sobrevivem a guerras, pragas, invernos brutais e séculos de esquecimento. O Major Oak sobreviveu a tudo isso, cruzou a Idade Média ainda de pé e chegou ao século XXI carregando mais de mil anos de história enraizados num único tronco de carvalho inglês. O que ele não conseguiu suportar foi a combinação entre visitação massiva, intervenções humanas acumuladas e os verões cada vez mais quentes de um planeta em transformação acelerada.

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A morte da árvore foi confirmada pela Sociedade Real para a Proteção das Aves (RSPB), entidade responsável pela conservação da Floresta de Sherwood, na Inglaterra. O sinal definitivo foi a ausência de folhas durante a primavera deste ano. Para um carvalho com mais de doze séculos de existência, não brotar na estação certa equivale a um silêncio sem volta.

A árvore que a lenda escolheu

O Major Oak nunca foi apenas uma árvore. Durante séculos, ele ocupou um lugar especial no imaginário inglês como suposto refúgio de Robin Hood, o fora da lei do folclore medieval que teria usado a Floresta de Sherwood como base para fugir do xerife de Nottingham enquanto roubava dos ricos para ajudar os pobres. A tradição local consolidou o carvalho como um dos esconderijos do grupo liderado pelo personagem, e essa associação transformou uma árvore comum numa atração de alcance internacional.

O nome Major Oak surgiu em 1790, quando o naturalista e militar britânico Hayman Rooke o mencionou numa obra dedicada ao estudo de carvalhos. A partir daí, o nome pegou e a árvore ganhou uma identidade oficial que só cresceu com o tempo. Com tronco de cerca de 11 metros de circunferência e copa de 28 metros de diâmetro, o carvalho reunia as dimensões físicas necessárias para sustentar a grandiosidade da lenda. Chegou a receber, por ano, cerca de 350 mil visitantes, tornando-se um dos pontos mais procurados da floresta.

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Em 2010, a neve que caiu sobre seus galhos criou, por acaso, uma silhueta no tronco que lembrava o personagem Frei Tuck, companheiro de Robin Hood nas histórias medievais. O episódio viralizou antes mesmo de o verbo existir e reforçou a ideia de que o Major Oak tinha um jeito de alimentar histórias mesmo quando ninguém planejava.

O peso de ser famoso por mil anos

A ironia mais cruel na história do Major Oak é que parte do que o matou foi exatamente o amor que as pessoas tinham por ele. Milhões de visitantes ao longo de dois séculos foram pisando ao redor do tronco, compactando o solo progressivamente e dificultando a infiltração de água da chuva até as raízes. Para uma árvore de porte e idade como a do Major Oak, a permeabilidade do solo ao redor do sistema radicular é uma questão de sobrevivência, não apenas de conforto.

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Um post compartilhado por RSPB (@rspb)

As intervenções de conservação acumularam seus próprios problemas. Em 1904, foram instalados suportes e correntes metálicas para sustentar os galhos mais pesados. Nas décadas seguintes, partes ocas do tronco foram preenchidas com concreto, e alguns galhos chegaram a ser revestidos com chumbo, depois com fibra de vidro, e tratados com tinta retardante de fogo. Cada uma dessas medidas foi tomada com a intenção de preservar a árvore, mas o efeito acumulado foi diferente do esperado.

Carvalhos antigos têm um mecanismo natural de adaptação à idade: eles tendem a perder ramos gradualmente, reduzindo o tamanho da copa e, com isso, diminuindo a quantidade de água e nutrientes que precisam absorver para se sustentar. Os suportes instalados ao longo de mais de um século impediram que o Major Oak executasse esse processo naturalmente, mantendo galhos que a árvore talvez já não tivesse força para alimentar.

Os verões que a floresta não esquece

Nenhum fator isolado é suficiente para explicar a morte de uma árvore com doze séculos de existência, mas os últimos anos fizeram o acúmulo de tensões chegar a um ponto sem retorno. O Major Oak enfrentou uma sequência de verões quentes e secos que impuseram estresse hídrico recorrente às suas raízes já comprometidas pela compactação do solo. O ponto mais extremo dessa série foi a onda de calor de julho de 2022, quando o Reino Unido registrou temperaturas recordes de 40°C, uma marca sem precedentes na história meteorológica do país.

Para um carvalho com solo compactado, galhos artificialmente mantidos e raízes envelhecidas, esse tipo de episódio climático funciona como um golpe sobre uma estrutura já fragilizada. E, dado o ritmo com que os verões europeus têm se tornado mais quentes e secos, o Major Oak não estava enfrentando um evento isolado, mas uma tendência que, para uma árvore de sua idade e condição, deixou de ser suportável.

Uma despedida à altura da lenda

Quando a RSPB confirmou a morte da árvore, a Floresta de Sherwood recebeu uma despedida que misturou tristeza genuína com o tipo de teatralidade que só a lenda de Robin Hood poderia inspirar. Robert Brackley, educador que há anos apresentava o Major Oak a grupos de escolares vestido com trajes medievais inspirados no personagem, com arco e flecha funcionais, chegou de van elétrica para um funeral improvisado. Ele definiu o carvalho como “a árvore mais famosa do mundo” e afirmou que a lenda em torno dela permanece viva mesmo depois do tronco silenciar.

Visitantes de diferentes partes do mundo pararam diante da árvore para uma última despedida. Carter Jackson, oito anos, de Sheffield, descreveu o que via como uma árvore enorme e bonita e lamentou a morte com a franqueza direta que só uma criança consegue. Seu pai, Ryan Jackson, ponderou que, apesar da tristeza, a árvore havia alcançado mil anos de existência e representava um pedaço concreto da história inglesa. Da Austrália, a turista Kirsty Champion, de Adelaide, refletiu que as próprias tentativas de conservar a árvore podem ter contribuído, em algum grau, para o seu desgaste.

O que o Major Oak deixa como herança

A morte do Major Oak chega num momento em que o Reino Unido abriga, paradoxalmente, uma concentração notável de carvalhos muito antigos. Segundo levantamento citado por conservacionistas, existem 114 carvalhos vivos no país com mais de nove metros de circunferência, descrição que os especialistas comparam à raridade dos rinocerontes-brancos. Para efeito de comparação, todo o restante da Europa, incluindo Escócia e País de Gales, soma 98 exemplares de porte semelhante.

O Major Oak era o mais famoso entre eles. Sua perda não apaga a floresta nem encerra a lenda, mas serve de advertência concreta sobre o que acontece quando visitação sem controle, intervenções mal calculadas e mudanças climáticas aceleradas convergem sobre o mesmo organismo vivo ao longo de décadas. Uma árvore que atravessou a Idade Média intacta não precisava de tanto para sobreviver — precisava, principalmente, de solo livre para respirar e verões que não tentassem queimá-la viva.

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    Mania de Plantas é uma publicação digital brasileira inteiramente dedicada ao universo da jardinagem, paisagismo, botânica e sustentabilidade. Com uma equipe editorial apaixonada por natureza, o portal entrega conteúdos práticos, inspirações de decoração verde e guias acessíveis para quem deseja cultivar o bem-estar e trazer mais vida para o seu dia a dia, seja em grandes jardins ou em pequenos espaços urbanos.

  • Derick Machado

    Derick Machado é editor e curador de conteúdo especializado em jardinagem, botânica urbana e paisagismo residencial. Acompanha de perto as principais tendências de design biofílico, técnicas de cultivo sustentável e inovações no manejo de plantas para ambientes internos e externos, sempre com base em referências de institutos botânicos, universidades e especialistas do setor.

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