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Lei sancionada em MS eleva a juruva a símbolo da Mata Atlântica e reforça agenda de preservação do bioma

Com cores vibrantes e presença marcante na floresta, a Baryphthengus ruficapillus agora representa oficialmente o bioma mais ameaçado do Brasil no Estado

Revisão: Derick Machado
17 de maio de 2026
in Clima e Sustentabilidade
Lei sancionada em MS eleva a juruva a símbolo da Mata Atlântica e reforça agenda de preservação do bioma

Com a publicação no Diário Oficial do Estado na última segunda-feira (30), o governador Eduardo Corrêa Riedel sancionou a Lei nº 6.563, de 27 de março de 2026, que institui a juruva (Baryphthengus ruficapillus) como ave símbolo dos domínios da Mata Atlântica em Mato Grosso do Sul. A decisão oficializa um reconhecimento que já vinha sendo construído pela comunidade científica e por projetos de educação ambiental no Estado — e que agora ganha força institucional para pautar políticas de conservação.

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A espécie não foi escolhida ao acaso. A juruva carrega características que a tornam uma representante legítima do bioma: dependente de florestas bem conservadas, sensível à fragmentação de habitat e com distribuição concentrada justamente nas regiões onde a Mata Atlântica ainda resiste em Mato Grosso do Sul.

Uma espécie que exige floresta de verdade

A juruva pertence à família Momotidae e se distingue visualmente pela combinação de cores intensas — dorso esverdeado, ventre alaranjado, máscara negra e manchas escuras no peito. Mas o que torna essa ave especialmente relevante do ponto de vista ecológico é o seu comportamento alimentar e reprodutivo, ambos diretamente atrelados à qualidade do ambiente florestal.

A espécie se alimenta de frutos, insetos e pequenos vertebrados, desempenhando papel ativo na dispersão de sementes dentro da floresta. Para nidificar, escava túneis em barrancos de terra, o que exige a presença de bordas naturais e solos expostos em ambientes protegidos. Qualquer perturbação intensa no habitat compromete diretamente o seu ciclo reprodutivo.

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Predominante nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, a juruva também registra populações em Mato Grosso do Sul, Bahia e Goiás, sempre associada a remanescentes florestais mais estruturados. A presença da espécie em uma área funciona, na prática, como um indicador da qualidade da cobertura vegetal local — o que reforça o valor simbólico e científico da escolha.

Do projeto de votação à lei estadual

A trajetória da juruva até a sanção da lei passou por um processo participativo relevante. Em junho de 2025, a espécie foi selecionada como símbolo da Mata Atlântica sul-mato-grossense por meio de votação conduzida pelo projeto “Amigos e Amigas das Aves”, iniciativa coordenada pela UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) em parceria com outras instituições.

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Esse tipo de mobilização tem peso real na construção da consciência ambiental regional. Quando uma comunidade participa da escolha de um símbolo, ela passa a reconhecê-lo como parte da sua identidade — e tende a reagir com mais engajamento diante de ameaças ao habitat da espécie escolhida.

“A Mata Atlântica de Mato Grosso do Sul é um fragmento isolado e extremamente vulnerável. Tornar uma espécie dependente desse bioma um símbolo oficial é uma forma de dar visibilidade política a um ecossistema que ainda carece de proteção efetiva”, destaca o ornitólogo Luís Fábio Silveira, curador do Museu de Zoologia da USP e referência nacional no estudo de aves brasileiras.

O que muda na prática com a lei

A Lei nº 6.563 vai além do reconhecimento simbólico. O texto prevê que o Poder Executivo estadual poderá adotar medidas concretas para divulgar e utilizar o símbolo em campanhas educativas, materiais institucionais e eventos ligados ao meio ambiente. Aliás, a legislação explicita o objetivo de incentivar a educação ambiental, estimular pesquisas sobre a fauna regional e ampliar a atenção para a preservação da ave e do seu habitat.

Na prática, isso abre caminho para que a imagem da juruva passe a integrar comunicações oficiais do Estado, projetos pedagógicos nas escolas e iniciativas de turismo de observação de aves — segmento que cresce de forma consistente no Brasil e que pode gerar renda para comunidades próximas a remanescentes de Mata Atlântica.

“Quando uma espécie ganha reconhecimento legal, ela passa a ter mais chances de ser incluída em planos de manejo, programas de monitoramento e até em critérios para licenciamento ambiental. O símbolo vira argumento técnico e jurídico”, explica o biólogo Jean Paul Metzger, professor da USP e um dos principais pesquisadores brasileiros em ecologia de paisagem e fragmentação da Mata Atlântica.

Mata Atlântica em MS: um bioma que pede atenção

Mato Grosso do Sul abriga remanescentes da Mata Atlântica principalmente na sua porção leste e sul, em uma faixa que cruza municípios como Dourados, Ivinhema e Mundo Novo. Esses fragmentos representam uma das fronteiras mais pressionadas do bioma, cercados pela expansão agrícola e pela urbanização.

A Mata Atlântica já perdeu mais de 85% da sua cobertura original em todo o Brasil. O que restou está, em grande parte, fragmentado em pequenas manchas isoladas, o que dificulta o fluxo genético entre populações de espécies como a própria juruva. Nesse contexto, a criação de corredores ecológicos e a manutenção de áreas de preservação permanente nas margens de rios e topos de morro são medidas indispensáveis para garantir a sobrevivência da espécie a longo prazo.

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