Há pouco mais de três décadas, pesquisadores do então Iapar provaram algo que o senso comum da agricultura brasileira considerava improvável: era possível cultivar maçã no Paraná, num clima que nada tinha a ver com os pomares frios do Sul do país. As cultivares Eva e Julieta cruzaram fronteiras estaduais, chegaram até a Bahia e estabeleceram o instituto paranaense como referência nacional em adaptação genética de fruteiras. Agora, o IDR-Paraná, que incorporou o Iapar em sua estrutura, prepara o lançamento de quatro novas cultivares, e a mesma lógica que orientou aquela virada histórica continua guiando o trabalho: entender o que a planta precisa e redesenhá-la para o ambiente que o Brasil realmente tem.
As quatro novidades, uma maçã, duas ameixas e uma pitaia, estão em etapas finais de avaliação e aguardam a conclusão do processo de registro no Ministério da Agricultura e Pecuária. Quando chegarem ao setor produtivo, vão encontrar um mercado em transformação acelerada, com novas demandas de consumo, novos desafios fitossanitários e uma fruticultura paranaense que cresce, mas ainda depende da pesquisa pública para superar seus gargalos mais persistentes.
A maçã que dispensa metade do frio
Entre as quatro cultivares, a maçã talvez seja a que carrega mais simbolismo histórico. Desenvolvida especificamente para regiões de inverno ameno, ela exige aproximadamente 260 horas de frio para quebra de dormência, menos da metade do que variedades tradicionais do grupo Gala demandam. Esse número, aparentemente técnico, tem consequências práticas enormes: abre o cultivo comercial de maçãs para regiões que, nas condições das cultivares convencionais, simplesmente não produziriam.
O potencial produtivo supera 50 toneladas por hectare, aliado à boa sanidade e à resistência às principais doenças da cultura. Um detalhe de manejo chama atenção dos produtores: a nova cultivar dispensa a poda verde, prática feita para controlar o excesso de brotações e que representa um custo relevante no calendário do pomar. Os frutos apresentam formato uniforme, polpa crocante, equilíbrio entre doçura e acidez leve, e coloração com boa aceitação comercial.
“Por trás de cada nova cultivar há anos de estudos, cruzamentos e seleção de materiais superiores. Estamos colocando à disposição dos agricultores tecnologias que respondem a desafios concretos enfrentados pelo setor produtivo”, afirma Altair Sebastião Dorigo, diretor-presidente do IDR-Paraná.
Em 2024, o Paraná colheu 25,7 mil toneladas de maçã em pouco mais de mil hectares cultivados, gerando um Valor Bruto de Produção de R$ 87,2 milhões, segundo dados do Deral. A nova cultivar não substitui as anteriores, mas expande a fronteira geográfica possível para esse cultivo, seguindo o mesmo caminho que Eva e Anabela percorreram ao longo das últimas décadas.
Duas ameixas contra uma bactéria que dizima pomares
A ameixa enfrenta um adversário específico e devastador na fruticultura brasileira: a Xylella fastidiosa, bactéria transmitida por cigarrinhas que provoca a escaldadura das folhas e compromete a produtividade de pomares inteiros. Em muitas regiões produtoras, essa doença se tornou o principal fator limitante da cultura, forçando produtores a abandonar área ou a conviver com perdas crônicas.
As duas novas cultivares de ameixa do IDR-Paraná foram desenvolvidas com resistência a essa bactéria como um dos atributos centrais. Além disso, ambas apresentam baixa exigência em frio, característica que ganha relevância diante de invernos cada vez menos rigorosos em diversas regiões produtoras do Sul e do Sudeste.
As duas cultivares têm perfis distintos e complementares. Uma reúne alta produtividade, longa vida pós-colheita, maior teor de antioxidantes e excelente qualidade sensorial dos frutos. A outra se destaca pelo vigor das plantas, estabilidade produtiva e potencial para uso como polinizadora em pomares comerciais, função estratégica em sistemas onde a diversidade genética favorece a frutificação. O Paraná colheu 6,4 mil toneladas de ameixa em 2024, em 450 hectares, com VBP de R$ 28,8 milhões. A resistência à Xylella é o tipo de atributo que pode mudar a conta de risco para o produtor que ainda hesita em ampliar área.
A pitaia que chega antes das outras
A quarta cultivar do lote é a que talvez chegue ao mercado com o vento mais favorável. A pitaia, desenvolvida a partir de cruzamentos realizados no Norte do Paraná, apresenta florescimento precoce que antecipa o início da produção em 20 a 25 dias em relação aos principais materiais disponíveis atualmente. Numa cultura em que o calendário de colheita determina diretamente o preço obtido, essa janela de antecipação representa uma vantagem comercial concreta.
A cultivar é autofértil, o que reduz a dependência de polinização cruzada e simplifica o manejo do pomar. Produtividade elevada, frutos com massa superior a 500 gramas, polpa branca firme e resistência ao rachamento completam o perfil agronômico. O rachamento, aliás, é um problema frequente em pitaias de alto calibre durante períodos chuvosos, e a resistência a ele é um diferencial relevante para quem produz com destino ao mercado in natura.
O timing é favorável por razões que vão além do Estado. A pitaia registra crescimento de 17% ao ano em lançamentos globais, segundo dados da consultoria Kerry, e foi apontada como o sabor do ano 2026 no relatório Taste Charts — posição ocupada pelo pistache nos dois anos anteriores. No Brasil, a produção quadruplicou entre 2017 e 2023, passando de cerca de 1,5 mil toneladas para mais de 6 mil toneladas. O Paraná, com 333 hectares cultivados e VBP de R$ 41,7 milhões em 2024, está posicionado para crescer dentro desse cenário, especialmente com cultivares que antecipam safra e entregam frutos de padrão comercial superior.
Ciência que transforma território
O conjunto das quatro cultivares não é apenas um pacote de lançamentos técnicos. É a materialização de uma estratégia que o IDR-Paraná cultiva há mais de cinco décadas: investir em melhoramento genético de fruteiras adaptadas às condições reais do clima paranaense, e não ao clima idealizado de manuais escritos para outras latitudes.
“São tecnologias que aumentam a competitividade, ampliam a sustentabilidade dos sistemas agrícolas e ajudam a elevar a renda das propriedades rurais”, resume Vania Moda Cirino, diretora de pesquisa e inovação do IDR-Paraná.
O histórico dá credibilidade à promessa. As cultivares de maçã lançadas nas décadas anteriores ultrapassaram os limites do Paraná e passaram a ser cultivadas em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e até em outros países de clima subtropical. Esse movimento não aconteceu por acaso: aconteceu porque a adaptação ao ambiente local produziu variedades genuinamente superiores para aquelas condições. As quatro cultivares em preparação seguem a mesma lógica, e chegam num momento em que a fruticultura paranaense tem estrutura, mercado e apetite para absorvê-las.
